Kleber Mendonça Filho em imagem promocional (Reprodução/Instagram)

Créditos da imagem: Kleber Mendonça Filho em imagem promocional (Reprodução/Instagram)

Filmes

Entrevista

Kleber Mendonça: Para cinemas de rua sobreviverem, governo precisa investir

Retratos Fantasmas, novo filme do diretor, faz crônica das salas de rua de Recife

Omelete
3 min de leitura
24.08.2023, às 06H00

Kleber Mendonça Filho acredita que as salas de cinema de rua só vão sobreviver nas cidades brasileiras com muita ajuda do governo, além de uma mudança na lógica de programação. O novo filme do cineasta, Retratos Fantasmas, faz crônica das salas que movimentaram o circuito cinematográfico de Recife durante o século XX - a maioria delas, hoje em dia, já fechadas.

Mundo afora e dentro do Brasil, nas cidades em que existe um governo municipal e uma cultura local de valorização da arte, há uma tendência de preservar pelo menos uma ou duas salas de cinema tradicionais”, conta ele ao Omelete, enumerando locais históricos como o State Theatre, em Sydney (Austrália), e o Castro, em San Francisco (EUA). “Recife tem duas - o Teatro do Parque, de 1919, e o São Luiz, de 1952... é muita coisa.

Neste último, lembra Mendonça, o seu Bacurau foi visto por 33 mil pessoas em 2019. Filas ao redor do quarteirão, em uma terça-feira a tarde!”, exclama. “É claro que Recife tem uma configuração cultural muito particular, é muito de esquerda, tem uma tradição de música e cinema muito fortes. E o público lá dá uma atenção muito grande ao cinema pernambucano. Mas é uma cultura que precisou ser construída através do tempo, e se o poder público não dá espaço para isso acontecer, a coisa não funciona.

E não é com uma lógica de mercado que vai funcionar também, viu? Porque agora o mercado do cinema está todo nos shoppings. Não dá para você programar uma sala de rua do mesmo jeito”, continua. “É muito importante entender que salas históricas como essas não têm como funcionar como local de lançamento para blockbusters. Elas precisam ser vistas como salas formadoras de público, com um papel quase educativo.

Mas como fazer isso e continuar atraindo um grande público? Mendonça sugere que basta “ter uma programação inteligente”: “Pode exibir uma cópia 4K de Sérgio Leone [diretor de faroestes clássicos, como Por Um Punhado de Dólares], mas também um filme brasileiro. Talvez Barbie em algumas sessões, e filmes do Hitchcock [o mestre do suspense, conhecido por clássicos como Psicose] em outras. Glauber [Rocha, ícone do cinema nacional com títulos como Terra em Transe] e Antonioni [autor italiano de A Aventura], Carpenter [criador de Halloween] e Star Wars.

Em Retratos Fantasmas, uma das melhores demonstrações dessa fragilidade das salas de rua - mesmo no Recife - é uma sequência em que Mendonça resgata a história do prédio que hoje é o cinema São Luíz, e séculos atrás abrigava uma igreja anglicana. Concomitantemente, muitos outros cinemas de rua recifenses foram à falência e acabaram sendo comprados… isso mesmo, por igrejas evangélicas.

É uma grande ironia. Eu acho que eu tenho ficado cada vez mais ciente da passagem do tempo, e suspeito que seja porque estou envelhecendo”, admite Mendonça. “Hoje em dia, todo lugar que eu vejo, que eu olho, que eu visito, fico pensando que aquilo está construído em cima de alguma outra coisa. É igual em O Iluminado, né? O Overlook Hotel, construído em cima de um cemitério indígena.

Retratos Fantasmas chega aos cinemas brasileiros hoje (24).

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