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Entrevista

Lanterna Verde | Omelete entrevista Mark Strong

Uma conversa com Thall Sinestro

Érico Borgo
07.06.2011
00h00
Atualizada em
06.11.2016
04h00
Atualizada em 06.11.2016 às 04h00

De todas as entrevistas que realizamos no set de Lanterna Verde em New Orleans, a mais descontraída foi a de Mark Strong, que vive Thaal Sinestro. O ator, que vem de uma sequência de sucessos em excelentes papéi vilanescos, fez questão de nos mostrar em primeira mão como ficou sua maquiagem como o personagem, sua carreira cheia de antagonistas icônicos, a coreografia das lutas na adaptações e muito mais!

Está sendo divertido fazer Lanterna Verde?

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Thaal Sinestro

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Mark Strong no teste de maquiagem

Muito. O estranho é que entrei no final da produção. Não acho que eu tenha entrado em um filme que já estivesse tão adiantado como esse. Eu tenho basicamente lutado com Ryan Reynolds. Então tenho que aprender os golpes - é isso que tenho feito nesse calor.

Como é ser o vilão e, ao mesmo tempo, não ser o vilão?

É bom porque eu gosto da ideia de que na origem do quadrinho e da história, Sinestro é mais o mentor de Hal do que qualquer outra coisa. Eu vejo nele uma qualidade heróica neste filme. Isso é bom, porque geralmente as pessoas se lembram do Sinestro como um vilão. Se eles fizerem mais filmes, tenho certeza que uma hora ele deve realmente virar o vilão, mas neste ele ainda deve ser reconhecido como uma grande força, mas não necessariamente do mal.

Você era fã dos quadrinhos antes de se envolver com o filme?

Não. Eu não conhecia os quadrinhos, apesar de já ter ouvido falar no super-herói chamado Lanterna Verde. Por ter sido criado na Inglaterra, tínhamos um referencial diferente dos EUA, que não eram a Marvel Comics e a DC Comics. Quando comecei a procurar mais sobre o assunto, encontrei coisas fascinantes. É tudo muito rico - e o fato desta versão buscar temas e assuntos dos anos 1950 é incrível. Umas duas gerações foram criadas e cresceram acompanhando as histórias do Lanterna Verde e eu acho que Geoff Johns fez um trabalho incrível na reinvenção do personagem há cinco ou seis anos. Foi com esse material que eu comecei conhecer esse universo.

Você acha mais difícil adicionar ou trazer algo de diferente ao personagem quando está cercado por telas azuis ou verdes?

Não muito. Se você interpretar seu papel com veracidade, entendendo seu lugar dentro da narrativa e o assunto geral daquela história, não importa muito se está ou não cercado por telas azuis. Acho que o fator que eu trouxe ao personagem foi uma certa presença. Os desenhos nas HQs são bem físicos, eles aparentam ser fortes. Todos os quadrinhos nas histórias mostram os personagens realizando ações um tanto quanto poderosas, então eu penso que seja isso que eu acrescento ao Sinestro.

E atuar com tela azul é mais ou menos como estar no palco?

De uma certa forma, até é. Engraçado você dizer isso, porque eu vejo o papel de Sinestro como sendo bem shakespeariano, principalmente pela maneira como ele foi escrito para esse filme. Eu sempre me pergunto sobre as pessoas que atuam no Método [Stanislavski], no teatro. Se você está no palco, dá pra ver as pessoas na platéia. Você sabe que existem luzes alí e que tudo é artificial, mas a ideia é fazer com que aquilo pareça real. É exatamente a mesma coisa quando trabalhamos com tela azul ou verde.

Você não está usando nenhum tipo de maquiagem agora. O bigode e cor da pele serão digitalmente adicionados?

Eu já fiz uns quatro, cinco testes de maquiagem. Queríamos ter certeza de que Sinestro ficasse exatamente certo porque eu acho que o ele já passou por uma jornada interessante da versão original até onde ele está agora. O trouxemos para uma realidade bem próxima ao que conhecemos nos quadrinhos atuais, então ele tem todas as características do personagem original; sua cor, seu bigode, suas sobrancelhas... Tudo.

Mas como foi a transformação? Seu rosto foi substituido pela face de Sinestro? Um computador o modificou...

Não, meu rosto não foi alterado. [Strong pergunta ao representante da Warner] Posso mostrar uma foto?

[Representante da Warner] Sim, claro.

Vou lhes mostrar uma foto para que possam ter uma ideia de como ele é. [Strong abre uma pasta e mostra um teste de maquiagem no qual ele está com o rosto de Sinestro - um molde prostético altera seu rosto, modificando orelhas, sobrancelhas, cabelo, criando a cicatriz no rosto e adicionando o bigode]. Esse sou eu como Sinestro, não é computação gráfica. Eu uso um prostético com uma peruca e esse sou eu. Usarei uma maquiagem como essa durante as filmagens.

Quando você faz um filme de super-herói, você tenta criar características próprias para seu personagem?

Acho que isso depende do personagem. Vai muito de pessoa para pessoa. Eu fiquei bem impressionado com Peter Sarsgaard durante a primeira leitura do roteiro porque ele foi capaz de trazer uma malícia curiosa ao vilão, o que eu acho que é uma ótima ideia porque o impede de ser óbvio e tedioso, adicionando alguma coisa. Não há abertura para fazer isso com o Sinestro. O propósito da narrativa é estabelecer que ele é um cara sisudo, o treinador de Hal, que é o melhor dos lanternas verdes. Sua reputação é uma das mais antigas, então ele precisa ter força e poder. Eu não debilitaria o personagem ao brincar com ele dessa forma.

O seu personagem vai ter sotaque estadunidense, britânico ou você ainda não decidiu?

Conversamos sobre isso e decidimos que ele teria o meu sotaque. Todos são capazes de se comunicar por causa dos anéis. São 3.600 aliens que falam línguas diferentes e a ideia é que eles consigam se entender através dos anéis. Também acho que Martin Campbell queria o meu tipo de voz para esse personagem.

Sobre o que você acha que se trata Lanterna Verde? Quase todos os super heróis tem um tema ou uma metáfora social.

O interessante dessa história é o equilíbrio entre o medo e a força de vontade, é sobre isso que se trata Lanterna Verde. Toda a noção de que força de vontade é algo que causa ações e medo é algo que inibe isso. O que Hal Jordan aprende como um dos lanternas verdes é que a força de vontade é uma das coisas mais importantes do universo e o medo é o oposto. Eu gosto disso para ser a mensagem social. A ideia de que o medo te impede de agir propriamente. Sinestro é um grande defensor da ideia de que o medo deve ser reprimido e a força de vontade é o que nos faz ótimos, daí que sai o inimigo baseado em medo. Também há outros elementos que são relacionados com o fato de um jovem ter assistido à morte de seu pai quando era bem novo e o que significa ter coragem... Admitir fraqueza mostra coragem? Um jovem que cresce e herda uma grande responsabilidade... Isso me parece com o tema do Homem Aranha, a ideia de que com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. Ambas as histórias tem um tema bem semelhante.

Você está animado para os próximos filmes? Ver a jornada de Sinestro?

Sim, bastante. Todo que conhecem os quadrinhos sabem qual será o arco desse personagem e ele, de uma maneira muito interessante, acaba indo para o lado sombrio. Não porque ele é inerentemente mal, o que eu mais gosto nele é o fato de que ele acaba se convertendo porque ainda se importa com disciplina. Ele tem uma necessidade estranhamente fascista por ordem e acaba se decepcionando pelas pessoas que estão no poder, os Guardiões, tendo que criar sua própria tropa para que possa alcançar correção no universo. Isso é um debate interessante por si só, que é a ideia de um ditador do bem. Apesar dele não ser tão do bem assim, ele acaba ficando bem sombrio, mas é bem fascinante descobrir onde eles vão. Eu ouvi falar recentemente que já começaram a escrever o segundo filme. Acredito que é aí que vamos lidar com o declínio de Sinestro.

Vocês já assinaram contratos para mais dois filmes?

É... Acho que todos assinamos para três filmes. Ultimamente, tudo tem saído em trilogias. Acho que até mesmo se fizesse um filme infantil comum, teria que fazer três deles. Mas até faz sentido... Se você faz algo que as pessoas vão ver, gostam e querem ver mais, deve-se dar uma margem para fazer mais daquilo, cumprindo as necessidades do público. Ao mesmo tempo, se você faz algo que o público não mostra interesse, há uma grande chance de não se continuar tal franquia.

O que você acha das adaptações de quadrinhos serem tão populares ultimamente?

Acho que é porque a tecnologia já se equiparou com a visão dos quadrinhos. A capacidade que os estúdios tem de gerar imagens ultra realistas em computador. Acho que Distrito 9 foi a primeira vez que vi um filme no qual os aliens estavam perfeitos, não tive que ficar me dizendo que aquilo era gerado por computador. Aqueles aliens pareciam reais, que pertenciam alí. Além disso, parece que hoje em dia o propósito do cinema é mais sobre os eventos, como uma arena. Antigamente, você saia para jantar, para dançar e talvez visse um filme. Hoje em dia os estúdios lançam filmes muito grandiosos que são meio que imperdíveis...

Por outro lado, filmes menores não conseguem mais ter uma boa audiência.

É porque ficou muito difícil para filmes pequenos. Acho que é um processo constante, não acho que os filmes menores serão derrubados pelos maiores, acho que eles ficarão bem um ao lado do outro.

E por filmes menores eu estou me referindo aos que custam 100 milhões de dólares. Isso é um filme pequeno hoje em dia.

Isso é verdade. Você tem razão, acho que tudo entre 5 e 30 milhões já encontra muita dificuldade. E não é porque a história é ruim ou porque eles não tem dinheiro suficiente para fazer um bom filme, é o fato de que quando você leva esses filmes aos destribuidores e pede que eles escolham entre épicos como Avatar, A Origem, Sherlock Holmes e um filme pequeno, bem detalhado e lindo sobre relações é bem difícil para eles escolherem o menor filme porque talvez não recebam o dinheiro de volta.

Deve ser bem legal ir de Kick Ass, que é um filme que desconstrói todo o conceito de super-herói, para um filme com um super-herói clássico.

Sim. E isso meio que aconteceu sem querer comigo, eu não estava em casa sondando as raízes dos super-heróis, pensando no que iria fazer em seguida. Pouquíssimos atores conseguem controlar suas carreiras... uma coisa acaba levando a outra. Acho que por causa da natureza dos filmes que tenho feito ultimamente, as coisas aconteceram dessa forma. Eu acabei de terminar minha parte em A Princesa de Marte, que é outro filme de ficção científica, mas bem diferente desse. É baseado nos dez romances de Edgar Rice Burroughs, que foram escritos por volta de 1910, 1912, algo do tipo. Então é um tipo bem erudito de fonte literária para o filme, o que mostra uma visão mais vitoriana do espaço ao invés de ficção científica, como é o Lanterna Verde. E aí tem Kick Ass, que puxou o tapete de tudo isso e foi bem divertido de se fazer.

Nos últimos três anos, você tem feito ótimos filmes. Quando foi que isso começou?

Você se lembra de A Empresa do Crime ( The Long Firm)? Era uma minissérie de TV britânica e me parece que muitas pessoas assistiram aquilo. A ironia é que venho atuando há 25 anos e o meu personagem em A Empresa do Crime era tipo um gângster, você até acabava simpatizando, mas ele era um safado. Então acho que não foi por acidente que os últimos cinco anos da minha carreira tem sido altamente populado com vilões, personagens sombrios e ameaçadores. Eu diria que muitos diretores assistiram ao seriado e quando eu percebi, estava interpretando papéis naqueles moldes. Mas estou bem feliz em fazê-lo, realmente gosto desses personagens, acho que eles são bem interessantes. São necessários para a trama dos filmes, não dá pra ter um cara do bem sem ter um outro malvado. Sinto que ainda vou fazer isso por algum tempo e tenho certeza que isso pode mudar em um certo ponto.

Eu me lembro de ter visto você fazer coisas mais leves, como comédias e coisas do tipo.

O estranho é que antes de todos decidirem que eu devia interpretar os vilões sombrios e ameaçadores, eu fazia comédias e filmes românticos. Coisas do tipo. [risos] Eu acredito que isso possa se desenvolver de novo.Enquanto isso, estou me divertindo.

Em Rede de Mentiras, seu personagem era bem complexo, o de Sherlock Holmes era bem sombrio e esse já é mais tranquilo.

O que me deixa contente é encontrar um personagem como Hani, de Rede de Mentiras, e poder dá-lo algo a mais. Até Archy, de Rock 'n' Rolla - A Grande Roubada, por exemplo, que apesar de ser um gângster, é simpático. De uma maneira estranha, eu me sinto da mesma forma com o Sinestro - talvez eu até adicione em todos um pouco de simpatia. Eu não o vejo como inerentemente mau, eu o vejo como alguém que dá seu melhor, faz aquilo que acredita que é certo. Mas acontece que ele é tão convincente sobre essas coisas que isso acaba o forçando a ser sombrio. Mas há elementos dele nesse filme que - ele tem um respeito invejoso para com Hal e quando ele o está testando, não quer minimizá-lo, e sim forçá-lo a ser tão bom quanto o resto da tropa.

Você pode falar um pouco comigo sobre suas cenas de luta e o treinamento que recebeu? Você ficou preso a algum cabo?

Sim, eu tive que chegar todos os dias mais cedo... Eles voam. Os lanternas têm a habilidade de voar. Então quando eu cheguei, me prenderam a uns cabos diferentes. Um deles é um arreio que o leva pra cima, para baixo, para os lados e é aí que você tem que ensaiar para parecer que está realmente decolando e pousando. Aí tem um outro que na verdade são seis cabos que te levam na horizontal. Parece que você é uma marionete, sendo controlado por alguém, e você tem que aprender como se movimentar de maneira que pareça que você está realmente se movendo no ar. Foi fascinante. A cena da luta exigiu treinamento não só para que ficasse boa na tela, mas também pela segurança. O que eu tenho aprendido é a "dança da luta"; você coloca seu pé ali, eu coloco meu pé aqui, você vai pra lá, eu vou pra cá... para que não pisemos nos dedos uns dos outros.

Ouvi dizer que com o 3D, você tem que lutar mais perto, pelo fato de ser possível ver as distâncias.

Isso vai ser fascinante. Eu ainda não sei como funciona a luta em 3D, ainda não me ajustei. Não pensei sobre isso, mas talvez os caras que coreografam a luta tenham pensado. Há muito movimento para frente e para trás e é tudo incrível pelo fato do poder desses caras ser de criar uma arma em suas mentes - uma arma, uma faca, uma espada, uma parede, um punho e usar isso na luta. Então metade da luta é de espadas físicas, a outra metade é de armas imaginadas. Isso é incrível porque temos que fazer isso e pensar no que o time vai fazer depois, esperando que os dois se encontrem.

Dirigido por Martin Campbell (007 - Cassino Royale), Lanterna Verde tem lançamento previsto para 17 de junho em 3-D e 2-D, nos EUA. No Brasil, chega em 19 de agosto.