Jungle Cruise não chega lá: o que falta na representatividade LGBTQIA+ da Disney

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Jungle Cruise não chega lá: o que falta na representatividade LGBTQIA+ da Disney

Personagem gay do filme é herói, mas também motivo de piada. O que falta para a Disney acertar?

Caio Coletti
28.07.2021
13h57

Em uma das cenas mais vergonhosas de Jungle Cruise, Frank (Dwayne “The Rock” Johnson) é ferido por uma lança e pede ajuda a Lily (Emily Blunt) para retirá-la do seu torso. Ocasião perfeita, julgaram os roteiristas, para várias piadas às custas de MacGregor (Jack Whitehall), irmão de Lily, que pouco antes havia se assumido como um homem gay em diálogo com Frank. 

Em um espaço de 2 ou 3 minutos, o personagem oferece um “bastão para Frank morder”, pergunta se pode ajudar na operação de retirada da lança “dando uma chacoalhada”... enfim, você entendeu. A “graça”, aqui, é MacGregor ser homossexual, e fazer referências fálicas inadvertidamente enquanto fala com outro homem.

É um dos muitos momentos incômodos de Jungle Cruise quando se trata da representatividade LGBTQIA+. Em geral, o filme retrata MacGregor da forma como aventuras similares de décadas anteriores retratariam suas protagonistas femininas - sabe aquele clichê da lady europeia que leva dezenas de malas para a selva e desmaia a qualquer sinal de sangue? Lily não é assim em Jungle Cruise, mas o seu irmão gay é.

Herói, mas com condições

Assim como as ladies de aventuras passadas, MacGregor também supera sua natureza “delicada” com o passar da história, estrelando momentos em que se mostra capaz de “chutar bundas” para proteger aqueles que ama. Ele é um herói, indubitavelmente. E, quando ele diz que a família (com a exceção de Lily) virou as costas para ele por conta de sua sexualidade, o filme posiciona isso como uma grande injustiça. 

MacGregor é uma pessoa de valor, nos diz Jungle Cruise - mas só se prova como tal quando deixa suas “frescuras” de lado, quando abre mão de parte de sua feminilidade. Uma feminilidade percebida, socialmente determinada e julgada, arbitrária (quem foi que decidiu que ter boa higiene e apreciar um pouco de conforto era feminino?). Uma feminilidade que o filme, como as aventuras de décadas atrás, ainda equaliza com fragilidade e negatividade. Jungle Cruise só deixa de fazer isso com sua personagem feminina, e passa a fazer com o seu personagem gay.

Na realidade, é claro, homens gays com traços e trejeitos delicados, considerados tradicionalmente femininos, não precisam se livrar desses trejeitos para serem pessoas de valor. De fato, historicamente, muitos deles demonstraram coragem extraordinária, se posicionando na linha de frente de causas sociais e protestos, além de darem a cara a tapa nas ruas, na indústria do entretenimento e em outras áreas profissionais, ajudando a mover a causa LGBTQIA+ (entre outras) adiante.

E a nossa história, quando?

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A luta por boa representatividade LGBTQIA+ na mídia é antiga, e a Disney é quase um capítulo à parte dela. Como o maior conglomerado de entretenimento do planeta, especialmente reconhecido por fazer produtos “para toda a família”, a empresa é naturalmente vigiada de perto por ativistas, e tem se arrastado para incluir diversidade sexual e de gênero em seus títulos.

Do subtexto bissexual em Mulan à personagem lésbica que aparece em apenas uma cena de Dois Irmãos, passando pelo beijo relâmpago em Star Wars: A Ascensão Skywalker, o diálogo simples no início de Vingadores: Ultimato, e a confirmação tímida da bissexualidade de Loki na série do deus da trapaça, as histórias LGBTQIA+ da Disney têm, todas, um ponto em comum: elas não são, de fato, histórias. 

São, no máximo, reconhecimentos passageiros de que pessoas LGBTQIA+ existem. É como se a Disney dissesse: “Sabemos que vocês estão aí, mas essa história não é sobre vocês”. E nunca é. O que é quase pior do que não existir, de certa forma, porque a humanidade se acostumou a entender que as histórias que contamos são um significante do valor das pessoas no centro delas. Quem vale a pena, tem a sua história contada.

Em Jungle Cruise, MacGregor também não tem uma história. Ele está aqui para, em seus melhores momentos, realçar a nobreza de Frank e, especialmente, de Lily - toda a sua cena de “saída do armário” é sobre como a irmã foi a única que ficou ao seu lado. Não me levem a mal: o diálogo é bonito, e aliados heterossexuais são fundamentais na vida de qualquer pessoa LGBTQIA+, especialmente se eles estiverem dentro do núcleo familiar.

O gosto que fica, no entanto, levando em conta todo o contexto da luta por representatividade na mídia e na Disney, é amargo. Quando é que um personagem LGBTQIA+ estará em um filme do estúdio por si mesmo, contando a própria história, e não como alicerce para levantar o arco de outros? Quando é que será a nossa vez?

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