Como Andy Muschietti transformou sua paixão pela obra de Stephen King em filme

Créditos da imagem: Warner Bros/Divulgação // Robyn Beck/AFP

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Como Andy Muschietti transformou sua paixão pela obra de Stephen King em filme

Fã de It: A Coisa desde os 14 anos, o diretor argentino finalmente leva aos cinemas a segunda parte da aventura do Clube dos Perdedores

Mariana Canhisares
04.09.2019
17h21
Atualizada em
04.09.2019
18h20
Atualizada em 04.09.2019 às 18h20

"Tive que comprar, você acredita?", disse Andy Muschietti entrando na sala reservada para os jornalistas no set de It: Capítulo Dois, exibindo sua camiseta do Clube dos Perdedores. Sim, nem mesmo após 10 semanas de filmagens, o diretor argentino maneirou seu lado fan boy. Talvez ele sequer devesse. No primeiro filme, sua paixão pela obra original do Stephen King se traduziu bem na tela, sobretudo na sua atenção aos detalhes. Então, se para repetir o carisma e o terror do confronto inicial contra Pennywise ele precisa literalmente vestir a camisa do projeto, que tenha todo o merchandising que precisar.

Na continuação, Muschietti revisita Bill, Bev, Richie e companhia 27 anos depois dos eventos do verão de 1989, com todos já muito distantes da magia de Derry. Bem-sucedidos e alguns já casados, os protagonistas não têm qualquer memória do Palhaço Dançarino. Na verdade, eles mal lembram uns do outros. Entretanto, tudo começa a voltar à tona quando Mike, o único perdedor que ficou na cidade, liga avisando que o vilão iniciou um novo ciclo. Sem outra alternativa a não ser retornar à Derry, o grupo se reúne para uma revanche contra o vilão e, consequentemente, contra seus traumas de infância.

Na primeira vez que leu a icônica cena entre o Palhaço Dançarino e o pequeno Georgie, o cineasta tinha 14 anos. “Lembro que quando li, me envolvi muito na história daquele triângulo amoroso”, afirmou. Desde então, de acordo com sua irmã e parceira de produção Barbara Muschietti, os dois juntos revistaram a obra completa de 10 a 15 vezes - “diria de 13 a 15, para ser mais exata”. “É interessante, porque agora você vê a partir da perspectiva do adulto. Você entende o subtexto, porque você o viveu”, ponderou Andy.

Com tamanha ligação emocional e após tantas releituras, não é de se impressionar que Andy Muschietti seja minucioso. "Com ele, tudo é difícil", riu o diretor de fotografia Checco Varese, amigo de longa data do diretor. "Ele é preciosista sobre cada canto do frame. Andy não pinta com um pincel grande, pinta com um pequeno fio de cabelo". Dessa vez, inclusive, esse seu traço da personalidade do diretor extrapolou e influenciou até mesmo o número de referências no Capítulo Dois. "No primeiro filme, não estava no modo easter egg. Estava tentando fazer um filme [risos]. Agora estou mais relaxado, então penso 'vamos colocar um easter egg aqui'. Talvez tenha exagerado", contou.

Até It: A Coisa, Muschietti não era um nome muito conhecido em Hollywood. Na realidade, antes de se propor a adaptar as mais de mil páginas assinadas por King, ele teve uma carreira enxuta na indústria, chamando alguma atenção apenas em 2013 por causa de outro terror, Mama. A história sobre duas garotas abandonadas que recebem os cuidados de uma entidade misteriosa e ciumenta trouxe Guillermo del Toro para o projeto como produtor executivo, assim como os atores Jessica Chastain e Nikolaj Coster-Waldau, na época já conhecido como Jaime Lannister. A produção, porém, não fez nem de perto o sucesso que a jornada de Bill Denbrough e seus amigos, arrecadando US$ 146,4 milhões no mundo todo - It, por sua vez, fez impressionantes US$ 700,3 milhões.

O começo, embora tardio, rendeu bons frutos. Mais do que o sucesso de bilheteria com a adaptação, Andy Muschietti conseguiu um relacionamento com o autor dos seus livros preferidos. Na época da visita ao set, ele e Stephen King não tinham se conhecido pessoalmente - este privilégio só tinha sido de sua irmã, que o encontrou por acaso nas ruas de Toronto. No entanto, os dois já eram íntimos o suficiente para ele mandar e-mails com “ei, Steve!”. “É muito estranho [risos]. Ele é meu ‘pen pal’. Tio Steve”, brincou.

Esta relação começou entre longas. Segundo o diretor, ele não teve chances de perguntar nada para o escritor durante o desenvolvimento do primeiro capítulo - mas também isso não o interessava, nem ao autor, que preferiu manter uma distância do projeto. “Queria focar na minha visão do filme em vez de ficar pedindo a permissão dele. Não era sobre arrogância”, explicou. “Quando se faz uma adaptação, você basicamente precisa trazer sua própria experiência emocional e achar ao que você reagiria dessa história para colocar no filme”.

Para o Capítulo Dois, Muschietti já teve uma postura diferente. Tendo criado uma amizade com King, o cineasta o envolveu um pouco mais no processo de escrita da história - não como roteirista, mas como um colaborador. “Ele basicamente me deu uma lista com pontos que considerava importantes. Estávamos praticamente na mesma página”.

Se pudesse, o diretor comandaria uma nova adaptação de Cemitério Maldito após It. No entanto, segundo Barbara Muschietti, “a Paramount não quis esperá-los” e o longa saiu em maio deste ano sob a direção de Kevin Kölsch e Dennis Widmyer. Ainda assim, os irmãos trabalham em outra adaptação de King, o conto A Excursão. “Não sei se vocês leram, mas é devastador. É uma das minhas preferidas”, analisou Andy, que atuará apenas como produtor no projeto. Na cadeira de diretor ele senta agora somente em The Flash, produção que deve contar com o retorno de Ezra Miller no lugar do Velocista Escarlate.

Em entrevista no estúdio do Omelete, os irmãos Muschietti explicaram que este não será longa comum de herói. "É uma história bem íntima e emocionante. Os fãs de filmes de ação não ficarão decepcionados, mas é uma história com coração. Não é só sobre salvar o mundo de forças alienígenas". Confira: