Mulan

Créditos da imagem: Disney/Divulgação

Filmes

Crítica

Mulan

Menos remake e mais releitura da lenda chinesa, versão de 2020 da Disney merecia uma tela de cinema

Mariana Tramontina
04.09.2020
13h58
Atualizada em
04.09.2020
22h37
Atualizada em 04.09.2020 às 22h37

A pressão sobre o novo Mulan é alta. Além da já habitual expectativa em cima de uma nova versão para um clássico, o filme é também o remake mais caro da Disney até hoje, com um orçamento de US$ 200 milhões. Cada centavo gasto, porém, é percebido na tela. É um filme majestoso com um nível de sofisticação e beleza único, que, sem ter o cinema como apoio por causa das restrições de combate à pandemia de covid-19, perde muito de sua característica épica ao ser visto em telas menores. E, ainda assim, é uma produção emocionante. 

Mulan é bem diferente do que já se viu na Disney. É um filme próprio que deixa para trás diversos elementos de sua identidade animada, mas que oferece muito mais em sua ausência. O filme dirigido por Niki Caro é menos um remake direto da animação de 1998 e mais uma releitura da lenda folclórica chinesa sobre Hua Mulan.

No filme, quando conhecemos Mulan - interpretada como criança pela australiana Crystal Rao e como adulta pela chinesa Yifei Liu - ela é a filha indisciplinada de Zhou (Tzi Ma) e Li (Rosalind Chao). Li acredita que Zhou compromete o futuro da filha, deixando-a cavalgar nos campos e exercer suas habilidades inerentes de artes marciais em vez de prepará-la como noiva para algum jovem. “Mulan é uma filha, não um filho. Uma filha traz honra através do casamento”, Li relembra Zhou.

Até que, certo dia, a pequena vila recebe a notícia de que o Imperador (interpretado pelo ícone das artes marciais Jet Li) precisa formar um exército para combater os invasores liderados pelo implacável Böri Khan (Jason Scott Lee) e cada família deve enviar um membro do sexo masculino para servir ao Exército Imperial. Zhou e Li têm apenas duas filhas, então cabe ao pai, um veterano de guerra com uma perna já ferida pelas batalhas, aceitar a chamada. Questão de honra, afinal.

Mas antes do amanhecer, Mulan rouba a espada, armadura e o cavalo do pai e parte em seu lugar. Fingindo ser um rapaz e engrossando a voz como um adolescente na puberdade, ela se apresenta ao comandante do exército como Hua Jun. No local, Mulan e seus colegas soldados passam por um treinamento rigososo de combate e são ensinados a serem leais, corajosos e verdadeiros, os três pilares da virtude. Essa é a base mais importante do seu povo, e Mulan honra dois deles, mas luta com o alicerce da verdade: ela sabe que está vivendo uma mentira, escondendo sua identidade tanto de seus líderes e colegas quanto dela mesma.

A história de Hua Mulan habita o imaginário dos chineses desde a Dinastia Tang (618-907), quando a guerreira foi descrita no poema A Balada de Mulan, do século VII. E quando Mulan, a animação, foi lançada na China há duas décadas, a recepção no mercado chinês foi bem controversa. O filme era basicamente uma representação estereotipada e fantasiosa do ponto de vista ocidental sobre os elementos culturais daquele povo, incluindo o dragão falante de Eddie Murphy, Mushu.

O Mulan de 2020 corrige muitos desses equívocos culturais e faz uma homenagem aos filmes chineses, em especial às suas lutas. Uma outra cena logo no início, em que Mulan e sua irmã Xiu (Xana Tang) se maquiam para um encontro com o casamenteiro da aldeia, também é um espetáculo em si, repleto de cores, trajes fabulosos e detalhes primorosos. Está ali uma rápida demonstração de uma tradição chinesa.

Mulan também faz escolhas ousadas. O público que vem pela nostalgia da animação certamente vai sentir falta das canções clássicas. Há versões instrumentais bem sutis dos números musicais ao fundo de algumas cenas, mas a música mesmo fica reservada para os créditos finais: Loyal Brave True, nova canção de Christina Aguilera para o filme; Reflection, a famosa balada de Aguilera para a animação; e, por fim, uma bela versão da mesma Reflection cantada em chinês por Liu.

O filme retrata as dificuldades do treinamento de Mulan e seus esforços para esconder seus traços femininos: se descoberta, ela será expulsa do acampamento e envergonhará sua família, trazendo desonra e desgraça. Mas Mulan não se transforma em homem: não há maquiagem caricata ou tentativa de transfigurar sua imagem. A virtude da produção foi colocá-la ao lado de soldados jovens e menos robustos, o que permite com que ela se misture mais facilmente entre eles.

Mulan é determinada e tem um poderoso chi (a palavra chinesa que eles usam para denominar a força interior). E se não há tanta personalidade a ser trabalhada em seu personagem no filme é porque Mulan está lutando contra sua própria natureza, já que assim ela foi ensinada desde sempre. “Seu chi é forte, Mulan. Mas chi é para guerreiros, não para filhas. Logo você se tornará uma jovem mulher e será hora de silenciar essa voz, esconder seu dom, para te proteger”, diz seu pai à ela, ainda uma criança.

Por isso não se espera que Mulan se torne de repente um ícone de empoderamento feminino sem que ela tenha desenvolvido essas características. Ela ainda precisa aprender a ser ela mesma. E seu primeiro contato com uma mulher poderosa é a vilã Xianniang (Gong Li), uma feiticeira inventada para o filme como uma espécie de Lado Negro da Força, exilada por uma sociedade sexista. “Eu era uma garota como você quando as pessoas se viraram contra mim”, diz ela a Mulan.

O Mulan de Niki Caro é como uma história de origem sobre uma heroína que está aprendendo a lidar com sua própria força e construindo sua identidade, enquanto transforma (ainda que sutilmente) o mundo ao seu redor. Mas, mais do que isso, Mulan de 2020 é uma bela história sobre família, tradições, respeito e cumplicidade. E que merece ser visto em uma grande tela.

Mulan está disponível no Disney+, nos países que possuem o streaming, com a opção de pagamento à parte. Em dezembro, o longa entrará de vez no catálogo para todos os assinantes da plataforma. No Brasil, o serviço será disponibilizado em 17 de novembro.

* Mariana Tramontina é jornalista, especializada em cultura pop e vive em Lewisburg (EUA), onde assistiu a Mulan no Disney+ a pedido do Omelete

Nota do Crítico
Ótimo

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