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Marley | Crítica

Pesquisa exaustiva ajuda documentário a evitar muitos exageros e omissões

Marcelo Hessel
20.10.2014
15h41
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

A piada que se conta é que ninguém sabe de verdade na Jamaica como o ska virou reggae: se a música se desacelerou em um verão particularmente quente, e ninguém aguentava dançar, ou se a maconha bateu tão forte que o ritmo precisou se adequar à leseira. O fato é que fazer uma historiografia da música no país é complicado, não há registros e os relatos dos sobreviventes não batem, e não seria diferente mesmo em relação a um ícone como Bob Marley.

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O diretor escocês Kevin Macdonald passa, então, 144 minutos juntando fragmentos em Marley para recontar a vida do cantor e guitarrista mestiço que popularizou o reggae e o rastafarianismo pelo mundo. É um esforço trabalhoso e por vezes exaustivo de acompanhar; fotografias e depoimentos obsessivamente coletados para suprir a falta de arquivo (da primeira década de carreira de Marley não há vídeos, segundo Macdonald), muitos deles negociados individualmente com cada dono desses materiais.

Ainda assim, Macdonald - que começou no gênero com documentários como One Day in September e Touching the Void, e depois migrou para a ficção, com filmes como O Último Rei da Escócia e Intrigas de Estado - consegue formular uma narrativa fundamentada e coesa sobre as condições que ajudaram Robert, filho de um inglês branco com uma jamaicana negra, a se tornar Bob Marley, e especialmente sobre as negações na infância (a família do pai não lhe tomou conhecimento, e os negros o refutavam por Marley ser "branquinho") que desenvolveram sua voz em favor da comunhão e dos excluídos.

Marley está longe de ser definitivo, porém, embora o filme - apoiado pela família do cantor - seja vendido dessa forma. Há buracos de contexto que Macdonald deixa vazios para aumentar a importância do documentado (havia outros trios vocais em Kingston na época e outros artistas jamaicanos bem sucedidos em Londres, não só Marley e os Wailers) e conflitos que passam em branco (como Marley não ter convidado os parceiros de banda para seu casamento).

Dois depoimentos dão uma boa medida da armadilha que este documentário poderia se tornar. No primeiro, um dos entrevistados relembra a viagem do Imperador Haile Selassie, o Cristo reencarnado dos rastafáris, pela Jamaica: "[Quando Selassie passou em carro aberto] eu me lembro! Ele olhou nos olhos de cada uma das pessoas!", jura a testemunha. Já outro entrevistado, falando sobre a época de conflitos políticos nos anos 1970, olha para uma fotografia e diz que, dentre as quatro pessoas presentes na foto, ele é o único ainda vivo - e portanto não há um "outro lado" da história.

Esses dois riscos opostos - os exageros e as omissões - pairam sobre Marley o tempo inteiro, mas Kevin Macdonald os evita na medida do possível. São os dois riscos, de qualquer forma, que cercam qualquer documentário sobre lendas que se tornam maior que a realidade, e sem dúvida Bob Marley é uma dessas lendas. E a versão que o filme dá para a transformação do ska em reggae é bem mais plausível também.

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Marley (2012)
Marley
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Ano: 2012

País: EUA / Reino Unido

Classificação: LIVRE

Duração: 144min min

Direção: Kevin Macdonald

Nota do Crítico
Bom

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