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Festival do Rio | Julia Rezende impressiona com thriller de seqüestro à moda irmãos Coen

“Este é um filme sobre pessoas que estão à margem”, diz diretora de Como É Cruel Viver Assim

Thiago Romariz
12.10.2017, às 14H07
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37

Campeã de bilheteria com a franquia Meu Passado Me Condena (2013-15), conhecida por retratos das crises afetivas da juventude (Ponte Aérea), Julia Rezende embaralhou todas as certezas que o cinema brasileiro tinha sobre sua estética ao levar para a competição nacional do Festival do Rio 2017 um thriller criminal à moda Irmãos Coen. Engraçado, mas desesperançoso e violento, Como É Cruel Viver Assim é uma adaptação da peça teatral homônima de Fernando Ceylão, sobre quatro fracassos profissionais, de Nilópolis, que se envolvem num sequestro.

É difícil não pensar em Fargo (1996) vendo as viradas surpreendentes do enredo filmado por Julia. Houve quem chamasse o longa de "Fargo da Via Dutra". Nele, Fabíula Nascimento é o destaque do elenco, como a dona de uma lavanderia que embarca com o namorado falido (Marcelo Valle) no projeto do rapto de um ricaço da Barra. Existem sacadas cômicas hilárias no roteiro, mas sua reflexão sobre a falência moral é mais forte (e alarmista) do que o riso.

Quando eu li a peça do Ceylão, encontrei nela uma história muito universal, que poderia ser ambientada tanto na periferia de Londres quanto em Tóquio. Por isso, precisava ir até um Rio não caracterizado, um Rio que a gente vê pouco”, diz Julia Rezende ao Omelete. “Tem uma história de amor que permeia essa trama, sobre esse outro Rio, mas este é mais um filme sobre pessoas que estão á margem”.

Com traços de investigação antropológica em seu olhar para Nilópolis, Como é Cruel Viver Assim se impôs na tela pelo colorido esmaecido da fotografia de Dante Belluti, capaz de valorizar a arquitetura pouco explorada da Baixada Fluminense. No elenco, o veterano Otávio Augusto pode (e deve) papar um prêmio especial pelo conjunto de sua carreira no papel do poderoso chefão, fã de doces de Cataguases, chamado Velho.

Antes da projeção de Como é Cruel Viver Assim, um documentário de tintas geopolíticas, em concurso, recebeu uma ovação em seus momentos finais, acompanhada de gritos de “Bravo!” e de “Fora Temer!”: Dedo na Ferida, de Silvio Tendler. Único documentarista blockbuster deste país, que nos deu os sucessos de bilheteria Jango e Anos JK, Tendler colhe frases ferinas sobre o papel cancerígeno do capitalismo e da especulação bancária em nossa sociedade. Até o cineasta Costa-Gavras (de Z) entra nesse papo, falando sobre democracia.

A melhor das frases vem do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “O Capital Financeiro é o inimigo de qualquer Justiça”.  A jornada de um podólogo que vai, dia a dia, de Japeri para Copacabana, num trajeto de 1h44m de trânsito pelo Rio de Janeiro, calça a narrativa jogralesca do veterano cineasta.

O melhor curta-metragem de todo o Festival do Rio até agora pintou também na noite de quarta: Alcibíades, produção dirigida pelo ator maranhense Breno Nina (premiado por O Último Cine Drive-In). Com um lirismo singular, capaz de englobar altas doses de erotismo sem perder o prumo lúdico, o filme aborda a relação nasce entre uma trocadora de ônibus e um palhaço que ganha a vida em coletivos de diferentes formas. 

Até o momento, o único filme de ficção da Première cercado de favoritismo em múltiplos flancos é As Boas Maneiras, terror sobre um bebê lobisomem dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra. Embora tenho rachado o público, O Animal Cordial tem potência de sobra para ganhar prêmios, sobretudo o de melhor ator, para Murilo Benício.

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