O Divino Baggio é oportunidade tão perdida quanto pênalti na Copa de 1994

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Crítica

O Divino Baggio é oportunidade tão perdida quanto pênalti na Copa de 1994

Cinebiografia do craque italiano não encontra foco e entrega cenas de futebol pífias

Eduardo Pereira
03.06.2021
19h01
Atualizada em
03.06.2021
21h38
Atualizada em 03.06.2021 às 21h38

O italiano ex-jogador de futebol Roberto Baggio poderia ser um pária em sua terra natal. Maior esperança do país na Copa do Mundo de 1994, o então atacante de 27 anos protagonizou um dos lances mais bisonhos da história na final contra o Brasil: chutou a bola por muito cima do gol defendido por Cláudio Taffarel, em cobrança de pênalti decisiva que garantiu o tetracampeonato brasileiro. Só que o "divino", como é chamado pelos fãs, nunca deixou de ser amado. Fã de rock'n'roll, com um senso de moda peculiar, budista, controverso, genial e genioso, jogou a vida toda na Itália, mesmo tendo sido cobiçado internacionalmente depois de ganhar a Bola de Ouro de 1993. Uniu em admiração torcedores rivais dos gigantes Juventus, Milan e Inter de Milão, além de ter sido o maior jogador do Brescia. Talvez por tudo isso, tenha se tornado uma espécie de filho mais querido do país que parece uma bota. Um deus que sangra e falha, como os seus fiéis.

A jornada desse homem (quase) santo é o foco da cinebiografia O Divino Baggio, produzida pela Netflix. Ou deveria ser, já que a produção italiana, escrita por Ludovica Rampoldi, Stefano Sardo e dirigida por Letizia Lamartine, claramente não sabe qual história quer contar. Baggio, o filho, o ídolo, o marido, o vilão e o herói: ao invés de todas essas versões de uma figura fascinante se unirem em um retrato rico, elas trabalham para tirar o brilho umas das outras, em um dínamo dos roteiros mal estruturados.

Abrindo com uma cena do futuro craque ainda criança, nos anos 1970, que prenuncia o fatídico pênalti contra o Brasil, o filme rapidamente salta para 1985, às vésperas da transferência que levaria o jovem e talentoso jogador (vivido por Andrea Arcangeli) à primeira divisão do futebol italiano, na Fiorentina. Somos introduzidos à família de Baggio, da qual o filme parece ter um pequeno interesse apenas em dois integrantes: o pai, Florindo (Andrea Pennacchi), e sua futura esposa, Andreina Fabbi (Valentina Bellè). O primeiro é a motivação para Baggio perseguir o sucesso no futebol; ele busca aprovação. A segunda, a rocha na qual se sustenta quando a ansiedade pelos sonhos distantes toma conta.

Baggio se lesiona, se recupera, e mais uma vez saltamos anos no futuro, para 1988, sem sequer termos visto o craque já recuperado mostrar por que é tão badalado em campo. É algo que O Divino Baggio insiste em fazer ao menos outras duas vezes até seu encerramento: dar saltos temporais que engolem e escondem os momentos mais importantes de amadurecimento do protagonista, lançando o espectador em um ponto-futuro em que conflitos já foram resolvidos ou extrapolados, sem trabalhar uma relação de causa e efeito.

No meio dessa bagunça, mais e mais elementos da história de vida do ex-jogador são apresentados, mas nunca aprofundados: a aproximação e, por fim, devoção ao budismo, o casamento e o crescimento familiar, os conflitos com treinadores e as trocas de clube, a estreia pela seleção italiana e a consolidação como titular, a repercussão da derrota na Copa do Mundo e o declínio levando ao final da carreira. É uma narrativa que corre mais rápido do que o próprio Baggio corria em campo, mas não tem um fiapo da elegância e qualidade com a qual o camisa 10 desfilava. É como se Rampoldi e Sardo tivessem assistido a Steve Jobs (2015) e achado legal pinçar apenas alguns momentos da vida de uma personalidade para construir uma cinebiografia, mas sem entender que precisa haver a sensação de evolução de um momento para o outro para que não vire tudo irrelevante.

Ainda assim, o maior pecado de O Divino Baggio é ser um filme sobre um craque do futebol que mal tem futebol. Você ouve repetidamente personagens falarem sobre o potencial do jogador, a qualidade e a importância dele em campo, mas ela só aparece em imagens de arquivo inseridas em televisores, aqui e ali. Quando as câmeras de Lamartine entram nas quatro linhas, não são capazes de convencer ninguém de que aquilo ali é futebol, ou sequer um estádio de verdade, ou até mesmo que o astro Arcangeli sabe jogar alguma coisa. Com exceção dos figurinos, que recriam uniformes de época de clubes e especialmente seleções, a ambientação, fotografia e direção das cenas com bola rolando são pífias. É de fazer os filmes da Trilogia Gol! (2005-2009) parecerem dignos de Oscar.

A única passagem desenvolvida de forma razoável pelo filme é a jornada na Copa do Mundo de 1994, muito graças à atuação de Antonio Zavatteri. Como o lendário técnico italiano Arrigo Sacchi, ele parece ser o único ator em todo o filme que está se divertindo, aparentemente ciente da qualidade duvidosa do produto e abraçando a ideia de ser uma caricatura de uma figura histórica peculiar. Isso ajuda até a atuação insossa de Arcangeli, cujo Baggio enfim mostra alguns sinais de personalidade nas cenas de atritos entre os dois. O problema é que toda essa passagem, prometida na abertura como clímax do filme, acontece na metade, fazendo com que o terceiro ato gire em torno da relação de Baggio com o pai; resolvida com doses cavalares e artificiais de melodrama. É como se a trama principal e uma das muitas subtramas deixadas de lado pelos lapsos temporais se invertessem na escala de prioridade, uma prejudicando o impacto emocional da outra.

O resultado é uma oportunidade perdida, um filme sobre uma figura fascinante e repleta de ângulos ricos e interessantes a serem explorados que consegue a façanha de abordar todos e nenhum, tudo ao mesmo tempo. Os entusiastas mais nostálgicos do futebol dos anos 1990 certamente encontrarão algum divertimento em O Divino Baggio, nem que seja na comparação dos figurantes que dão vida a Romário e Dunga com os jogadores reais da seleção brasileira. Para os demais, na hora de buscar um filme sobre futebol bem planejado e executado para conferir na Netflix, fica a clássica sugestão: melhor ver o do Pelé.

O Divino Baggio
Il Divin Codino
O Divino Baggio
Il Divin Codino

Ano: 2021

País: Itália

Classificação: 12 anos

Duração: 91 min

Nota do Crítico
Regular

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