Como O Esquadrão Suicida pode juntar nazistas e latinos no filme

Créditos da imagem: WB/Divulgação

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Como O Esquadrão Suicida pode juntar nazistas e latinos no filme

Homenagem à fase oitentista da HQ fica mais clara com o novo trailer

Marcelo Hessel
26.03.2021
13h05
Atualizada em
26.03.2021
13h58
Atualizada em 26.03.2021 às 13h58

Quando disse que seu Esquadrão Suicida prestaria uma homenagem à fase clássica da equipe nos quadrinhos, o roteirista e diretor James Gunn inicialmente não deu detalhes sobre como isso aconteceria. A primeira pista foi o logo oficial do filme, que evoca o título da série escrita por John Ostrander a partir de 1987 - que reapresentou os personagens da DC Comics e é tida pelos leitores como a segunda origem do Esquadrão, já que a fase anterior ainda remontava à Segunda Guerra Mundial.   

Pois agora temos outra pista, que aparece no novo pôster e também no recém-lançado trailer de O Esquadrão Suicida: uma torre de pedra com cara de prisão é demolida enquanto os anti-heróis correm. Se essa é a missão principal do filme, e Gunn se inspira na fase de Ostrander, então fica fácil calcular que se trata de Jotunheim. Seria uma forma de fazer um belo serviço aos leitores e, de quebra, encaixar uns nazistas como potenciais vilões do filme.

Em outubro passado, em entrevista à revista Empire, o produtor Peter Safran já havia indicado que Jotunheim está no filme, “uma prisão e laboratório da época dos nazistas, onde presos políticos são mantidos e experimentos são feitos”, diz Safran. Jotunheim aparece logo na primeira edição da HQ escrita por Ostrander; a fortaleza vertical se localiza no Oriente Médio, na nação fictícia de Qurac, e leva esse nome em referência à terra dos gigantes da mitologia nórdica. Os nazistas a construíram na Segunda Guerra e a fortaleza está sob o controle do grupo terrorista Jihad na HQ oitentista. Um legado nazi, as experiências científicas, permanece ativo em Jotunheim, onde um laboratório é dedicado a criar novos humanos superpoderosos.

É provável que uma adaptação fiel da história fosse mal recebida em tempos pós-11 de Setembro. Qurac foi concebido pela DC em 1985 como uma menção óbvia ao Iraque, e o seu presidente, Marlo, era desenhado com as feições de Saddam Hussein. Ao longo dos últimos 20 anos, a DC suavizou essa relação e Qurac hoje é retratada mais como uma nação genérica do Oriente Médio. No filme, James Gunn parece aproveitar basicamente o conceito de Jotunheim como uma prisão laboratório (inclusive a ameaça de Starro poderia surgir a partir desses experimentos) e só modifica sua localização.

No trailer, vemos o Esquadrão entrando em combate num cenário tropical que emula os filmes de ação dos anos 1980 com missões em repúblicas da América Central e no Vietnã. Segundo Safran, no filme trata-se de Corto Maltese - o país fictício numa ilha sulamericana que a DC usa vez ou outra para evocar essas ambientações da geopolítica real. Não por acaso, a ilha foi criada em 1986, quando Frank Miller decidiu homenagear a série francesa Corto Maltese de Hugo Pratt em O Cavaleiro das Trevas.

Temos no trailer um personagem com perfil de ditador sulamericano, o militar vivido por Joaquín Cosio, e uma figura próxima de revolucionária latina, interpretada por Alice Braga. Nos anos 1980, tornou-se infame a interferência dos EUA em questões do continente, como o financiamento à insurreição armada contra o governo socialista da Nicarágua. James Gunn está traçando uma ponte com esse período, e a própria participação de Sylvester Stallone no filme, ainda misteriosa, evoca as missões tropicais de Rambo nos anos 1980.

Embora tenha recriado o Esquadrão nesse contexto histórico, John Ostrander não associa jihadistas e nazistas com o palco latinoamericano da Guerra Fria. Fica então a serviço de James Gunn essa licença poética, que adapta alguns elementos da HQ de Ostrander, esquiva-se de mencionar o islamismo, e em paralelo se filia ironicamente aos filmes de guerra e intervenção americana como Trovão Tropical fez em 2008. 

Uma das perguntas que ficam: quem Stallone pode interpretar, afinal? Starro? Um velho cientista nazista? O próprio John Rambo? Na HQ, quando Ostrander tenta fazer uma menção ao Esquadrão Suicida original da Segunda Guerra, Rick Flag (vivido por Joel Kinnaman no filme) diz que seu pai havia invadido Jotunheim ainda na época dos nazistas. Seria então Stallone um potencial Rick Flag Sr., o líder do Esquadrão Suicida original? Se Gunn optar por esse caminho, seria irônico que ele deu a Stallone basicamente o mesmo papel em Guardiões da Galáxia 2...

[Atualizado] E James Gunn acabou logo com o mistério, dizendo que Stallone vai dublar o Tubarão Rei. A dúvida fica respondida, portanto, mas não custa lembrar que alguns atores fazem jornada dupla, como o comediante Steve Agee, que fez a captura de movimentos do Tubarão Rei e também vive John Economos, o auxiliar de Amanda Waller que chama Starro de kaiju no trailer. [Atualizado] 

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