Obsessão e Backrooms: Futuro do cinema não vem de Hollywood, mas do YouTube?
Sucesso impressionante de filmes de diretores vindos do YouTube mostram um caminho que a meca do cinema estadunidense nunca enxergou
Há alguns anos, Hollywood tenta responder à mesma pergunta: como levar de volta ao cinema uma geração que cresceu vendo tudo em casa, no celular, sob demanda e em pedaços cada vez menores? A resposta, curiosamente, pode não estar apenas em telas maiores, poltronas melhores ou franquias mais conhecidas. Ela talvez esteja em uma renovação muito mais profunda: quem cria, como cria e de onde vêm essas novas vozes.
Dois filmes recentes ajudam a entender esse movimento. Obsessão, de Curry Barker, e Backrooms, de Kane Parsons, são casos diferentes, mas apontam para a mesma direção. Barker saiu de um universo de vídeos e curtas de terror na internet para realizar um longa de orçamento minúsculo, estimado em menos de US$ 1 milhão, que já ultrapassou US$ 100 milhões apenas nos Estados Unidos. Parsons, por sua vez, transformou um fenômeno nascido no YouTube e na cultura das creepypastas em um longa da A24 que abriu com mais de US$ 80 milhões no mercado americano e passou de US$ 100 milhões no mundo logo no primeiro fim de semana. O jovem de 20 anos também é o diretor mais novo a liderar um final de semana na história do cinema estadunidense.
Esses números impressionam por si só. Mas o mais importante não é apenas a matemática do lucro. O que eles revelam é que a internet amadureceu como território de formação artística. Durante muito tempo, Hollywood olhou para criadores digitais como celebridades úteis para marketing, não necessariamente como criadores capazes de estar dentro da indústria. A internet sempre foi canal, nunca um meio de criação. E mesmo quando foi assim olhada, era algo menor, menos importante. Não merecia atenção de quem trabalhava com cinema. A diferença agora é que alguns desses nomes não estão apenas levando seus seguidores às salas; eles estão chegando ao cinema com linguagem, domínio de atmosfera e compreensão clara de que um longa-metragem exige outra gramática.
É isso que separa fenômenos como Obsessão e Backrooms de uma simples extensão de canal. Eles não parecem apenas “conteúdo de internet em tela grande”. Há neles uma tentativa real de construir ritmo, mise-en-scène, tensão, imagem e experiência coletiva. São filmes que nascem de uma cultura digital, mas não se limitam a reproduzi-la. Eles entendem que o cinema ainda tem uma força própria.
O terror, nesse cenário, virou o laboratório perfeito. É um gênero que permite baixos orçamentos, alto risco criativo e grande retorno potencial. Mais do que isso: o terror conversa muito bem com a lógica da internet. Ele vive de comunidade, curiosidade, boato, reação, teoria, meme e boca a boca. Quando essa energia é bem canalizada, ela não substitui a ida ao cinema; ela empurra o público para a sala escura.
Fale Comigo, dos irmãos Philippou, já havia sinalizado esse caminho. Iron Lung, de Markiplier, reforçou a ideia de que criadores digitais podem mobilizar plateias. Agora, Obsessão e Backrooms tornam o fenômeno mais difícil de ignorar. Não se trata mais de exceção simpática ou curiosidade de mercado. Trata-se de uma nova geração de autores que cresceu entendendo audiovisual de forma intuitiva, direta e comunitária.
A lição para a indústria talvez seja simples, mas desconfortável: a renovação da audiência não virá apenas dos mesmos nomes, dos mesmos temas e das mesmas estratégias de lançamento. O público jovem quer experiências coletivas, sim - inclusive há um desejo reprimido voraz para tal. Quer ir ao cinema, sim, mas ele também quer reconhecer ali uma linguagem, uma energia e uma sensibilidade que dialoguem com o mundo em que vive.
O sucesso desses filmes mostra que a internet não é necessariamente inimiga do cinema. Nunca foi, por mais que a própria Hollywood e seus magnatas tentem assim eternizar esta narrativa. O fato é que ela é exatamente o contrário: pode ser uma das principais fontes de renovação para uma mídia tradicional que, em muitos momentos, pareceu perdida tentando entender o próprio futuro. O cinema não precisa virar YouTube, mas precisa aceitar que o começo de uma nova fase pode estar ali.
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