Os Testamentos: Das Filhas de Gilead no Disney+

Icone Fechar
Filmes
Crítica

Backrooms é um respiro de originalidade na era do “terror de trauma”

Kane Parsons sabe exatamente até onde consegue empurrar o conceito que o tornou famoso

Omelete
4 min de leitura
27.05.2026, às 07H00.
Backrooms: Um Não-Lugar (Reprodução)

Créditos da imagem: Backrooms: Um Não-Lugar (Reprodução)

Filmes de terror são sobre trauma. Para além do meme com Jamie Lee Curtis (que, como qualquer outro, não existe por acaso), a verdade é que o cinema de horror contemporâneo considerado de qualidade, como foi definido pelas produções da A24 e da Blumhouse, tem gastado demais essa tecla temática. Tanto que não seria surpresa caso um apreciador de cinema mais jovem, nutrido na base de Hereditário e do novo Halloween, achasse que isso é tudo que o gênero tem a oferecer – a relitigação dos traumas de seus personagens através da alegoria fantasmagórica da vez.

Curiosamente, é justamente a essa geração que pertence o cineasta Kane Parsons, que aos 20 anos de idade se tornou o diretor mais jovem a trabalhar com a A24 em Backrooms: Um Não-Lugar. Astro da internet desde antes da maioridade, Parsons criou em seu canal do YouTube a série de curtas The Backrooms, baseada em um conceito construído coletivamente em fóruns virtuais como o 4chan. Agora, o seu terror originalmente criado no software gratuito de animação 3D Blender faz o pulo para uma produção hollywoodiana milionária, em live-action e longa-metragem.

Omelete Recomenda

É um salto que parecia preocupante, à primeira vista. No YouTube e nos fóruns, as backrooms – uma dimensão paralela à nossa, composta por uma variedade de aposentos esparsamente populados e mobiliados, apenas ligeiramente removidos da normalidade – funcionam pela reação visceral que provocam no espectador. Embora tenha construído um tanto de mitologia em torno dessas salas, das criaturas que vivem nelas e das pessoas (e empresas…) que as exploram, Parsons nunca tentou criar uma narrativa convencional dentro das backrooms, nem responder muito diretamente o que elas significavam, seja num nível concreto ou alegórico.

Na internet, e para o tipo de usuário de internet que a encontraria, The Backrooms era uma cifra irresistível, uma manifestação distorcida dos espaços e das tecnologias onde se construíram as infâncias e adolescências de cada espectador. Mas e nos cinemas, em uma história de verdade, com personagens de verdade? A proposta de fazer um longa de Backrooms colocava Parsons no lugar desconfortável de ter que ao menos aludir ao que de fato queria dizer com este universo que lhe fez famoso.

O grande alívio de Um Não-Lugar, então, é perceber que este jovem diretor investigou os seus próprios instintos o bastante para encontrar ideias que vão além daquelas que todos os seus contemporâneos estão injetando no cinema de horror. Aqui, acompanhamos Clark (Chiweter Ejiofor), dono de uma loja de móveis que, com sonhos profissionais frustrados e um casamento fracassado, encontra no porão do seu estabelecimento uma entrada para outra dimensão. Conforme ele explora as backrooms, sua psicóloga Mary (Renate Reinsve) e outros ao seu redor se envolvem na história.

A premissa não é complicada, como dá para perceber. O texto de Will Soodik (Westworld) aborda a caracterização dos personagens sem muitas firulas: eles são, todos, pessoas que se veem presas no lugar onde chegaram em suas vidas. Clark reage de forma raivosa e violenta a essa sensação de estar em um beco sem saída, enquanto Mary representa o oposto letárgico dele. Backrooms ainda salpica algumas de suas cenas com uma narração em off, tirada de fitas de autoajuda gravadas pela psicóloga, que servem bem para elucidar e, ao mesmo tempo, tirar sarro da situação patética em que os dois se encontram.

Este impulso de certa forma bem-humorado do roteiro libera o próprio Parsons para brincar com a linguagem da forma que achar necessário, por vezes se aproximando do estilo found footage no qual baseou sua websérie (uma sequência em particular, bem no miolo do filme, demonstra bem por que The Backrooms conquistou tantos fãs), e por vezes se afastando deliberadamente dele. O resultado é um filme que oscila de forma hipnotizante em seu ritmo e nas imagens que escolhe mostrar, exibição possante dos talentos de um artista que ainda terá muito tempo e espaço para crescer.

Backrooms: Um Não-Lugar, apropriadamente, agrada por conhecer bem o seu espaço. Confortável dentro de seu gênero, consciente dos seus limites, ele também demonstra, de quebra, que o cinema de horror serve para mais do que regurgitar os traumas de suas pobres criações. 

Nota do Crítico

Backrooms: Um Não-Lugar

Backrooms

2026
110 min
País: EUA
Direção: Kane Parsons
Roteiro: Will Soodik
Elenco: Mark Duplass, Chiwetel Ejiofor, Finn Bennett, Renate Reinsve, Lukita Maxwell
Onde assistir:
Oferecido por

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Sucesso

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.