Obsessão é o terror psicológico que faz o simples virar assustador
Dirigido por Curry Barker, filme chega aos cinemas com premissa direta e uma atuação que pode definir uma geração no gênero
O terror contemporâneo vive um bom momento. Nos últimos anos, filmes como Corrente do Mal, Noites Brutais e A Hora do Mal ajudaram a renovar o gênero com propostas autorais, atmosferas densas e uma disposição clara de incomodar sem depender de fórmulas prontas. É nessa leva que Obsessão, de Curry Barker, chega aos cinemas e se encaixa com naturalidade, sem forçar a comparação.
Como seus pares mais recentes, Obsessão não aposta em sustos mecânicos nem em roteiros inflados. A trama é direta: Bear (Michael Johnston) é um jovem apaixonado pela melhor amiga, Nikki (Inde Navarrette). Quando encontra um objeto misterioso chamado One Wish Willow, capaz de realizar um único desejo, ele pede o que qualquer romântico desesperado pediria: que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O pedido é atendido, e é aí que o filme começa de verdade. O amor absoluto que Bear tanto queria rapidamente se revela sufocante, invasivo e aterrorizante, tanto para Nikki quanto para o espectador que observa a situação escapar do controle.
O que Obsessão compartilha com Corrente do Mal e A Hora do Mal, em especial, é a capacidade de transformar o cotidiano em algo profundamente perturbador. Barker não precisa de cenários grandiosos nem de criaturas elaboradas para criar tensão. O diretor trabalha com jogo de luzes e trilha sonora, construindo uma atmosfera que cresce de forma quase sufocante a cada cena sem precisar de recursos fáceis para isso. Não há apelo para se apoiar somente em jump scares. O desconforto é emocional e psicológico, e a tensão surge de um simples jantar a dois ou em um lampejo de falta de sono durante a madrugada. Obsessão faz o simples e encontra sua excelência através disso.
Vale, porém, um olhar mais atento para uma escolha do roteiro que pode incomodar parte do público. Ao colocar Nikki como a figura que perde o controle, que se torna obsessiva e ameaçadora, o filme flerta com um território já bastante explorado no cinema (ou na vida em si): o da mulher perturbada como fonte do perigo. Barker não constrói um discurso machista, e o contexto sobrenatural justifica a virada da personagem dentro da lógica da narrativa. Mas a opção pela vítima feminina como vetor do horror é, no mínimo, a mais fácil entre as disponíveis, e um olhar crítico pode questionar por que, mais uma vez, é a mulher quem carrega o peso de ser considerada problemática na tela.
Se há um nome que vai sair desse filme na boca de todo mundo, é o de Inde Navarrette. A atriz, conhecida do público pela série Superman & Lois, entrega aqui uma das performances mais perturbadoras do gênero nos últimos anos. Sua Nikki oscila entre doçura, terror e uma intensidade física quase insuportável, retratando com precisão a agonia de uma mulher que perde o domínio sobre si mesma. É uma atuação de camadas, que transita entre vulnerabilidade e inquietação sem que nada pareça forçado. Uma atuação que coloca Navarrette para ser uma das grandes scream queens da década.
Michael Johnston sustenta bem o lado de Bear, entregando um protagonista que gera empatia sem jamais se livrar completamente da culpa pelo que desencadeou. Mas o filme não se limita ao duo central. Os personagens ao redor, especialmente os amigos que observam de fora a relação distorcida entre Bear e Nikki, funcionam como um espelho lúcido para o espectador, reforçando aquilo que o roteiro não precisa dizer em voz alta: quem está dentro da situação raramente enxerga seus próprios excessos.
Obsessão não é apenas mais um exercício de terror: é uma reflexão sobre desejo, posse e os limites do amor que provoca e desconcerta em igual medida. Curry Barker estreia no circuito com a segurança de quem já sabe exatamente que tipo de história quer contar. E o resultado é perturbador da melhor forma possível.
Obsessão (2026)
Obsession
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