A Força de Grayskull | Documentário é antídoto para nostalgia cega pelo He-Man

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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A Força de Grayskull | Documentário é antídoto para nostalgia cega pelo He-Man

Produção de 2017 detalha a história de muitas mudanças por trás dos Mestres do Universo

Eduardo Pereira
29.07.2021
18h21
Atualizada em
29.07.2021
19h09
Atualizada em 29.07.2021 às 19h09

Mestres do Universo: Salvando Etérnia - Parte 1 é definitivamente uma produção divisiva. Há quem admire como Kevin Smith conseguiu imprimir profundidade, maturidade e ainda organizar de alguma forma o atribulado cânone deixado pela série animada dos anos 1980, produzida pela Filmation. E há quem, por outro lado, acredite que para fazer isso ele tenha apagado o grande chamariz da série, He-Man, e traído a expectativa de quem queria ver histórias mais parecidas com as de 40 anos atrás.

O que é estranho nisso tudo, porém, é como o incômodo de alguns fãs parece direcionado pura e simplesmente a qualquer sinal de mudança ou novidade. Dar mais destaque à Teela na nova série é um movimento natural para uma personagem que, já nos anos 1980, era um sucesso de vendas de brinquedos entre meninos e meninas (e foi quem motivou diretamente a Mattel a criar She-Ra, veja só). Ou fazer de Gorpo um herói poderoso, depois de tentar e falhar tantas e tantas vezes em sua relação com a magia, é nada mais que um desenvolvimento orgânico de um arco narrativo que se anunciava há tempos. Até a decisão de colocar He-Man de lado para focar no que faz de Adam um herói não é nenhum absurdo: um personagem antes inexpressivo ganha a chance de mudar isso.

Talvez fosse mais fácil aceitar o que propõe Salvando Etérnia se todos que tanto reclamam tivessem, de fato, conhecimento da jornada histórica de Mestres do Universo, enquanto produto; uma trajetória fascinante e repleta de mudanças, mostrada em detalhes no divertido e informativo documentário A Força de Grayskull: A História Definitiva de He-Man e os Mestres do Universo, disponível no catálogo da Netflix.

Lançado em 2017 e dirigido por Randall Lobb e Robert McCallum, o documentário traz relatos de executivos da Mattel, designers, escritores, fãs, diretores e atores que fizeram com que uma linha de brinquedos pautada apenas pela necessidade (e pela vontade) de lucrar se transformasse em uma história colaborativa capaz de despertar paixão no coração de (e até revoltar) adultos de 40 e 50 anos, mundo afora. Praticamente uma fan fic que deu muito certo.

Do início como plano B para produtos licenciados dos filmes de Conan, o Bárbaro (1982), ao nascer de alguma narrativa para embalar comerciais e gibis promocionais, até a parceria com a Filmation e o fiapo de trama que amarrava os episódios de He-Man e os Mestres do Universo (1983), o documentário cativa ao revelar como personagens tão queridos tomaram forma aos trancos e barrancos graças ao trabalho de várias pessoas diferentes. É claro que vozes como a de Michael HalpernJ. Michael Straczynski vão aos poucos se tornando peças-chave para enfim estabelecer uma bíblia da saga, mas é incrível o quanto dela surgiu da necessidade e do improviso.

Pegue, por exemplo, o Gato Guerreiro. Um dos mais amados parceiros do Príncipe Adam e de He-Man, ele surgiu porque os funcionários da Mattel decidiram reutilizar um tigre de brinquedo de outra linha nos Mestres do Universo. Assim, o pintaram de amarelo e verde e improvisaram uma armadura. Nem mesmo a junção entre tecnologia e magia no mundo fantástico de Etérnia, que Salvando Etérnia explora muito bem em uma contraposição antagônica, surgiu de algum ímpeto artístico. Foi apenas o jeito que a Mattel encontrou para lucrar com a febre de Star Wars ao mesmo tempo em que investia em brinquedos de fantasia.

Mattel/Divulgação

Nesse ímpeto mercadológico de se atualizar e vender mais e mais, Mestres do Universo enventualmente se perdeu, culminando em desastres tão bizarros quanto fascinantes, como o filme Mestres do Universo (1987) e a série de animação totalmente descaracterizada As Novas Aventuras de He-Man (1990) — ambos também retratados em A Força de Grayskull. Foram mudanças drásticas demais que realmente fugiram da essência que vinha sendo construído até ali, mas que em retrospecto só reforçam como a jornada da marca como um todo sempre foi pavimentada por inovações, entre erros e acertos.

E essas inovações permanecem em Salvando Etérnia, mas ironicamente de uma forma muito menos intensa do que antes. No reboot de 2002 de He-Man e os Mestres do Universo, por exemplo, o visual assumidamente cyberpunk e as cores em tons sépia marcavam uma releitura radical e consideravelmente distante do que foi visto nos anos 1980. Em comparação, a nova animação da Netflix (que, claro, se coloca como "sequência espiritual" da série clássica) se mostra muito mais preocupada em apelar para a nostalgia justamente do público que parece ter menos boa vontade com ela.

E se o problema é, mais uma vez, a tão falada "lacração", A Força de Grayskull dá nome e rosto às muitas mulheres que construíram todo o legado de He-Man que certas pessoas dizem estar sendo ameaçado justamente por uma representação feminina mais plural em Salvando Etérnia. Erika Scheimer, Janice Varney-Hamlin, Justine Dantzer, Barbara Hambly e tantas outras, que teriam feito ainda mais se não fosse o machismo ainda mais flagrante e violento de décadas atrás, "lacraram" mesmo quando fizeram de He-Man, She-Ra e todo o panteão de amados personagens de Etérnia quem eles são hoje. Que bom!

Por isso, se você é um fã nostálgico de Mestres do Universo, ou um aficcionado pela história da cultura pop, ou um entusiasta colecionador de brinquedos, A Força de Grayskull: A História Definitiva de He-Man e os Mestres do Universo, pode ser uma opção divertida e informativa de entretenimento para investir, sem erro, umas duas horinhas do seu dia. Agora, se você é um fã chato que não aceita o novo, aí o documentário pode ser o seu único remédio.

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