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Dicas do Hessel #008: O horror, o horror

Na nova edição da coluna, confira dicas de filmes de terror de grandes nomes do cinema

Marcelo Hessel
22.05.2020
16h44
Atualizada em
29.05.2020
17h39
Atualizada em 29.05.2020 às 17h39

O cinema americano de horror tem muitas matrizes, mas a influência da geração de Tobe Hooper, John Landis e Wes Craven, muito atuante entre os anos 1970 e 1980, é determinante para os tipos de filmes que se fazem hoje no gênero. Dos cineastas dessa era, dois moldaram nosso imaginário do terror e do horror: John Carpenter e David Cronenberg. Foi com clássicos como Halloween, Eles Vivem, Scanners e Videodrome que esses dois diretores deram forma ao mal-estar social e às paranoias urbanas que nos marcaram no fim de século e nos acompanham até hoje.

Apesar das trocas mútuas de elogios, já estava meio latente nos anos 80 que os dois seguiriam caminhos distintos nas décadas seguintes; Carpenter seguia a linha de George Romero, abraçava o espírito dos filmes B e tentava subvertê-los de dentro para fora, enquanto Cronenberg não se entendia como um diretor de horror, mas como um contador de histórias comprometido com sua arte, sem rótulos. Os filmes abaixo - alguns deles pedras fundamentais do gênero - ajudam a contar a história dessa cisão. Boas sessões e não deixe de assinar nossa newsletter para receber as dicas antes de todo mundo.

A Mosca

Foto de A Mosca
Divulgação

Um elemento que sintetiza o cinema de Cronenberg até hoje é a análise do corpo humano como o palco principal dos nossos pavores, onde se manifestam mais vivamente as neuroses modernas.

Se o ator Jeff Goldblum sempre teve associada à sua figura a imagem do tipo excêntrico, isso se deve muito ao filme de 1986, em que ele vive um cientista que se sujeita a um experimento de teletransporte e acaba tendo seu DNA mesclado ao de uma mosca. Este remake de A Mosca da Cabeça Branca, marco dos filmes B de 1958, é provavelmente a maior metáfora já criada para o senso de inadequação dos nerds, feito na década em que os EUA viveram o auge da cultura da competição.

Disponível no Telecine.

O Enigma de Outro Mundo

Foto de O Enigma de Outro Mundo
Divulgação

A obra-prima de John Carpenter é provavelmente o filme de horror mais influente dos últimos 40 anos. Assim como A Mosca, também é uma releitura de um clássico B, e o fato de ter sido mal recebido em 1982 só prova como Carpenter esteve à frente do seu tempo neste auge artístico da sua carreira.

A trama sobre um perigo alienígena que domina os corpos de um grupo em expedição na Antártica atualiza H.P. Lovecraft para a era das paranoias (o medo da AIDS, a fadiga do fim das ideologias, a masculinidade tóxica - o cardápio de leituras é amplo) numa demonstração vigorosa de niilismo. Juntos, ao lado de Um Lobisomem Americano em Londres (de 1981, também disponível nos streamings daqui), A Mosca e O Enigma de Outro Mundo são os filmes que firmaram o chamado body horror, o subgênero das mutações, que tanto fez prosperar o ramo dos especialistas em efeitos visuais com próteses, vísceras e sangue falso.

Disponível na Netflix.

Crash - Estranhos Prazeres

Foto de Crash - Estranhos Prazeres
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Cronenberg tinha acabado de vir de uma adaptação da peça M. Butterfly quando realizou este divisor de águas na sua cinematografia. Crash é a sua obra-prima e é o filme que melhor combina os potenciais do terror com uma dramaturgia mais sofisticada; a partir desde longa de 1996, o cineasta canadense conseguiu entender melhor o caminho que escolheria no futuro, abrindo mão das soluções mais gráficas do horror em favor de conflitos mais internalizados.

Não por acaso, ao adaptar o romance de J.G. Ballard, sobre um grupo de pessoas que têm tara por acidentes de carro, o diretor tira a questão das deformidades físicas do ambiente do fantástico e a traz para o dia a dia. É um filme já para iniciados em Cronenberg.

Disponível no Telecine.

Os Aventureiros do Bairro Proibido

Foto de Os Aventureiros do Bairro Proibido
Divulgação

Enquanto estreava A Mosca, em 1986, John Carpenter aproveitava o bom momento na carreira para testar os caminhos da indústria do entretenimento. Testar, obviamente, ao seu modo: ele tinha acabado de fazer Starman, indicado ao Oscar de melhor ator, e escolheu em seguida se reunir com Kurt Russell numa aventura B completamente descompromissada, sobre seitas secretas em Chinatown, monstros do esgoto e sacrifícios de escravas sexuais.

Muito antes de Cronenberg ressignificar suas obsessões autorais, Carpenter já fazia suas escolhas para o futuro: a forma como Aventureiros brinca com faroeste, comédia, fantasia e artes marciais indicavam o tom irônico revisionista que o cineasta assumiria a partir dos anos 90.

Disponível no Telecine.

Um Método Perigoso

Foto de Um Método Perigoso
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Lançado em 2011, Um Método Perigoso trata da amizade de Freud e Jung nos anos que definiram a psicanálise como a conhecemos hoje, e mesmo pelo valor de narrativa histórica pode ser enquadrado entre os filmes "de respeito" de Cronenberg.

Há momentos brilhantes de horror corporal interiorizado, especialmente na atuação muito subestimada de Keira Knightley, mas dentro da cinematografia do cineasta este drama serve mais como um novo ponto de virada. Imediatamente antes dele, o diretor fez policiais muito elogiados que flertavam com narrativas mais tradicionais (Marcas da Violência, Senhores do Crime) e depois dele, Cronenberg começou uma fase de radicalismo formal que ainda permanece pouco compreendida.

Disponível no Amazon Prime Video.

Fuga de Los Angeles

Foto de Fuga de Los Angeles
Divulgação

John Carpenter e Kurt Russell voltam ao mercenário Snake Plissken quinze anos depois de Fuga de Nova York, e a continuação, depois de tanto tempo, só poderia ter uma relação de farsa com o original. É engraçado assistir a este filme de 1996 hoje em dia, quando tratamos as franquias como produtos de serviço ao fã que não envelhecem.

Pois Snake envelheceu, sim, e por mais que os efeitos visuais de Fuga de Los Angeles sejam pitorescos hoje (parecem pré-visualizações de CGI) a forma como Carpenter revisita do faroeste ao filme de gladiador com um pessimismo atroz pelo fim do século (e, no limite, pelo fim da civilização mesmo) não deixa esta grande pérola de metalinguagem envelhecer.

Disponível na Netflix.

Mapas para as Estrelas

Foto de Mapas para as Estrelas
Divulgação

Se Fuga de Los Angeles marca um ponto tardio da carreira de John Carpenter, de desilusão com a máquina e os sonhos de Hollywood, vale o mesmo para David Cronenberg. A seu modo, porém, ele faz de Mapas para as Estrelas um filme-cabeça muito estranho que não abraça a ironia nem as piadas internas, e sim se aproxima do universo de aparências de Los Angeles com uma lente de alta definição, que capta todas as feiúras que a cidade das ilusões trata como embelezamento.

Na comparação, é possível dizer que Cronenberg não tenha esgotado ainda, como Carpenter, a curiosidade com que investiga as superfícies das coisas; Carpenter tem um olhar que já parte de relações aprofundadas (com o mundo, com o passado), enquanto Cronenberg parece sempre obcecado com os efeitos do tempo presente.

Disponível no Amazon Prime Video.