Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Reprodução

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Dicas do Hessel #007: Uma vida iluminada

Nesta semana, confira dicas de ótimos documentários

Marcelo Hessel
15.05.2020
12h13
Atualizada em
29.05.2020
17h39
Atualizada em 29.05.2020 às 17h39

Olá! É bem considerável a oferta de documentários nos streamings brasileiros, desde os filmes sobre grandes temas até as produções mais urgentes, com o dedo no pulso do mundo de hoje.

Nas Dicas do Hessel desta semana, eu recomendo sete filmes com um tipo de registro que costuma me agradar, o dos documentários "menores". São enfoques que se aproximam do perfil jornalístico, que elegem personagens de carne e osso e revelam a grandeza, a presença de espírito ou a complexidade por trás de questões mundanas e de pequenas obstinações do dia a dia. Iluminar as vidas dessas pessoas, e transformar gestos frequentemente tímidos em verdadeiras jornadas humanas, é uma coisa que os filmes abaixo fazem bem. Boas sessões e não deixe de assinar nossa newsletter para receber as dicas antes de todo mundo.

Shirkers - O Filme Roubado

Foto de Shirkers - O Filme Roubado
Shirkers - O Filme Roubado/Divulgação

O tipo de documentário que se justifica pela sucessão de absurdos e pelo colorido quase caricatural dos seus personagens, Shirkers começa devagar (que interesse pode haver, além da vaidade, nessa história sobre meninas de Cingapura que decidiram fazer um filme caseiro, como milhões de outras pessoas ao redor do mundo?) e logo envolve o espectador pela entrega emocional, pela franqueza de propor uma terapia coletiva em cena. Uma grande história sobre pessoas que se espelham na potência das nossas ficções para reinventar suas próprias vidas, por mais enroladas ou incertas que sejam.

Disponível na Netflix.

The B-Side

Foto de The B-Side
The B-Side/Divulgação

Um dos mais celebrados documentaristas americanos, Errol Morris já entrevistou de Ed Gein a Robert S. McNamara para seus projetos, mas neste filme ele escolhe uma personagem bem mais modesta, a fotógrafa Elsa Dorfman. O pretexto é a decisão da Polaroid de parar de produzir filmes instantâneos, o que afeta diretamente o trabalho de Dorfman, especializada em fazer retratos pagos com um formato da Polaroid de grandes dimensões.

Considerada uma pária entre a intelectualidade de Nova York por conta do seu trabalho prosaico de encomenda, Elsa Dorfman se agiganta diante de Morris no seu apertado escritório-arquivo, com a autoridade de quem viu a história americana passar por perto e mesmo assim optou, na sua arte, por celebrar a intimidade e os detalhes.

Disponível na Netflix.

Castanha

Foto de Castanha
Castanha/Divulgação

Não é exatamente um documentário, mas um misto de ficção e relato factual - uma combinação que o cinema brasileiro deste século fez bem, para borrar os limites entre um gênero e outro. No filme de Davi Pretto, o ator João Carlos Castanha, 52 anos, se mantém trabalhando na noite de Porto Alegre como transformista em uma boate gay, enquanto se preocupa com sua mãe idosa no dia a dia.

Pretto e Castanha injetam dignidade em personagens marginalizados que a exclusão social trata como tipos que perderam sua identidade. Um filme bem interessante sobre a melancolia, que continua a ecoar o Brasil de hoje, seis anos depois do seu lançamento.

Disponível no Amazon Prime Video.

Being Elmo

Foto de Being Elmo
Being Elmo/Divulgação

Parece um especial de TV o filme sobre Kevin Clash, o marioneteiro autodidata que reinventou o boneco Elmo e o transformou em um dos Muppets mais famosos do mundo. A narração é quadrada, engrandecedora, com efeitos e material de arquivo bem protocolares. Tudo isso, porém, só faz ficar mais envolvente a história por trás da figura tímida de Clash, que se esconde nos momentos de holofote e ao longo do filme nunca é olhado sob uma luz psicologizante que explicaria sua obsessão pelas marionetes.

Pela própria fascinação que o filme tem por questões triviais do ofício (como o segredo da costura dos muppets), Being Elmo é acima de tudo a celebração do mistério e da impossibilidade de desvendar a "verdade" sobre tipos aparentemente transparentes como Clash.

Disponível na Netflix.

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Foto de Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar
Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar/Divulgação

O documentário de Marcelo Gomes é muito atual no recorte que faz para mostrar a precarização do trabalho: uma comunidade no interior do Pernambuco produz calças jeans o ano inteiro, para folgar no maior feriado nacional e aproveitar o Carnaval com algum dinheiro no bolso.

Os personagens do filme, porém, evitam qualquer tentativa de paternalismo e reivindicam para si a consciência do seu labor e a consequência de suas escolhas. Um filme muito forte sobre muitas coisas, desde a construção de um imaginário nacional calcado no prazer culposo até as sinucas de discurso que se apresentam hoje diante da esquerda brasileira.

Disponível na Netflix.

O Equilibrista

Foto de O Equilibrista
O Equilibrista/Divulgação

Na gaveta dos filmes sobre mortais comuns que almejam ser maiores que a vida, sem dúvida cabe o documentário de James Marsh sobre a famosa travessia das Torres Gêmeas realizada por Philippe Petit em 1974. É evidente que Petit - ao subir clandestinamente no World Trade Center para montar e subir na sua corda bamba - tem plena consciência do que seu gesto representa.

O que Marsh faz, para amplificar a megalomania, é estruturar a narrativa como uma audaciosa trama de assalto. Num filme que não está tão interessado nos mitos da imparcialidade e do relato isento, o diretor acaba fazendo, assim como o citado Shirkers, um documentário irresistível sobre como tornamos pelos caminhos da ficção a nossa vida mais grandiosa.

Disponível no Amazon Prime Video.

O Sushi dos Sonhos de Jiro

Foto de O Sushi dos Sonhos de Jiro
O Sushi dos Sonhos de Jiro/Divulgação

Se O Equilibrista é o filme sobre homens maiores que a vida, então Jiro Dreams of Sushi é o documentário do pequeno gesto. O diretor David Gelb vai atrás de um personagem óbvio (o sushiman Jiro Ono é um dos mais celebrados de Tóquio, seu nome presente no maior guia de restaurantes do mundo), cuja lenda pessoal não precisa ser mais inflacionada, e o que encontra é um senhor dedicado a um ofício sem virtuose.

Jiro faz seus sushis com método e disciplina num balcão de dez lugares, dentro de uma galeria comercial, e na falta de uma tradução visual precisa para o sabor da comida, o que temos é o retrato de uma obsessão. A seu modo, Jiro também almeja ultrapassar os limites, mas a demonstração de sua arte é sensivelmente menos espetaculosa.

Disponível na Netflix e Amazon Prime Video.