Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Reprodução

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Dicas do Hessel #006: Uma não-celebração de Star Wars

Na coluna desta semana, confira dicas de filmes lançados em 1977

Marcelo Hessel
08.05.2020
12h01
Atualizada em
29.05.2020
17h39
Atualizada em 29.05.2020 às 17h39

Como era o mundo em 1977, o ano em que Star Wars mudou as lógicas da indústria do cinema americano e, por extensão, o nosso imaginário popular? Em todo 4 de maio se celebra o Dia de Star Wars, sempre se renovam os eventos de fãs, as novidades sobre os filmes e os lançamentos de brinquedos, mas há quatro décadas esse fenômeno ainda era um objeto fora da curva. Eram os anos dos primeiros blockbusters modernos, das discotecas, das desilusões políticas e das experimentações da Nova Hollywood.

Nas Dicas do Hessel desta semana, separo sete filmes de 1977 que estão disponíveis nos streamings brasileiros e ajudam a recontar a história daquele ano. Filmes sempre são um instantâneo do seu tempo, não importa se sejam fantasias espaciais ou novos capítulos de franquias longevas. A seleção abaixo refaz parte do imaginário setentista que Star Wars tomou de surpresa. Boas sessões e não deixe de assinar nossa newsletter para receber as dicas antes de todo mundo.

Contatos Imediatos de Terceiro Grau

Foto de Contatos Imediatos de Terceiro Grau
Contatos Imediatos de Terceiro Grau/Divulgação

A carreira de George Lucas seria muito diferente sem a ficção científica de Steven Spielberg, porque Contatos Imediatos tomou parte da equipe técnica que Lucas almejava aproveitar em Star Wars, o que o forçou a desenvolver fora da Fox uma estrutura de efeitos visuais própria (e assim criou-se a Industrial Light & Magic). Na carreira de Spielberg, o filme, sobre um eletricista que tem contato com um OVNI e se vê "iluminado" por questões que não compreende, é central para entender as obsessões temáticas do diretor e suas carências parentais mal resolvidas.

Disponível na Netflix.

Eraserhead

Foto de Eraserhead
Eraserhead/Divulgação

Falando em traumas de família, o mesmo vale para o primeiro longa-metragem de David Lynch, que desenvolve todo um universo surrealista para dar conta do horror de ser pai de primeira viagem. Estudante de arte, o cineasta usou a experiência para dar vazão a seus experimentos com pintura (a cenografia de Eraserhead tem elementos que se repetem até hoje em suas obras), a partir das oportunidades dadas pelo American Film Institute, onde Lynch tinha uma bolsa. Se nos anos 1970 boa parte da produção americana usufruiu de uma certa liberdade criativa, isso frequentemente tem a ver com as bases acadêmicas dos profissionais que saíam das escolas de cinema de Los Angeles e Nova York na época.

Disponível no Telecine Play.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Foto de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa/Divulgação

O filme de 1977 talvez seja o mais importante da carreira de Woody Allen. Foi a partir desta parceria com a atriz Diane Keaton que Allen deixou um pouco de lado as sátiras comportamentais e políticas e passou a abraçar neuroses que inclusive tinham forte carga biográfica. Foi também a primeira colaboração de Allen com o diretor de fotografia Gordon Willis, nome forte do cinema americano do período e um dos principais responsáveis por moldar o visual barroco de O Poderoso Chefão. Se Allen se tornou depois de 1977 um sinônimo de intelectualidade, isso se deve muito à elegância de câmera e ao capricho de Willis, com quem o cineasta trabalhou também em outros dos seus filmes mais prestigiados, como Interiores, Manhattan, Zelig e A Rosa Púrpura do Cairo.

Disponível no Telecine Play.

Os Duelistas

Foto de Os Duelistas
Os Duelistas/Divulgação

É curioso que, aos 82 anos, Ridley Scott esteja retornando este ano em The Last Duel à temática de época dos desafios de honra, porque sua estreia como diretor de longas foi justamente com um filme assim, Os Duelistas. A trama inspirada no conto de Joseph Conrad é instigante: Keith Carradine e Harvey Keitel fazem dois rivais cujo duelo de espadas, interrompido continuamente, se estende por anos para contar uma história das guerras napoleônicas. O preciosismo do registro histórico, marca de Scott em filmes diversos, de Gladiador a Cruzada, já podia ser sentido nesta sua estreia.

Disponível na Amazon Prime Video.

Os Embalos de Sábado à Noite

Foto de Os Embalos de Sábado à Noite
Os Embalos de Sábado à Noite/Divulgação

Puxando pela memória é fácil lembrar deste musical pelos temas dos Bee Gees, pela dança de John Travolta, mas a pista da discoteca era só uma pequena parte do filme de John Badham. A exemplo de filmes muito variados como Rocky e Serpico, com seus protagonistas quixotescos ostracizados pelo sistema, Embalos sintetizou uma realidade de desilusão nos anos 1970. Travolta estava sempre impacável no terno branco de Tony Manero, mas ao mesmo tempo lidava com um subemprego sem futuro, pais alienados e vizinhança racista. Talvez seja o filme mais popular, até hoje, dentre aqueles que souberam radiografar a Nova York da época.

Disponível na Netflix.

Suspiria

Foto de Suspiria
Suspiria/Divulgação

Quando Dario Argento realizou o horror de 1977, o gênero do giallo (histórias de suspense, terror e exploitation no cinema italiano) já começava uma curva descendente, então Suspiria é como uma súmula hiperestilizada dos temas e tons que popularizaram os gialli. Se o cinema daquela década - seja na Hollywood de Brian de Palma, na Alemanha de Fassbinder ou na Itália de Argento - marcou-se muito pelo maneirismo e por um esgotamento das narrativas tradicionais, Suspiria leva isso ao limite. O mistério de assassinatos em uma escola de dança não obedece muitas lógicas além da principal, a do impacto sensorial, representado em uma variação de cores e nos excessos sonoros da trilha da banda Goblin.

Disponível na Amazon Prime Video.

O Espião que me Amava

Foto de O Espião que me Amava
O Espião que me Amava/Divulgação

O décimo filme de 007 foi o auge de uma certa forma de encarar a franquia, com aventuras mirabolantes que se aproximavam (no humor, na caricatura dos vilões, nas reações faciais de Roger Moore) do universo dos desenhos animados. No geral a fase Moore já é conhecida por ser a mais galhofeira dentre todos os James Bonds, mas O Espião que me Amava é o filme que sintetiza melhor isso, num pacote pop irresistível, desde a escolha da trama (sobre planos envolvendo uma civilização submarina que não tinham nada a ver com o livro-base) até a canção-tema grudenta de Carly Simon, passando obrigatoriamente pela entrada crocante de Jaws, talvez o capanga mais carismático da vasta galeria de vilões de 007.

Disponível no Telecine Play.