Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Divulgação

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Dicas do Hessel #028 | Olhai as crianças

Quase 18, Elefante e mais!

Marcelo Hessel
16.10.2020
10h00
Atualizada em
13.10.2020
13h10
Atualizada em 13.10.2020 às 13h10

O mundo que estamos deixando para nossos netos talvez nem dure tanto assim [risos] e não é de agora que o audiovisual sobre a adolescência no século 21 já versa sobre o fim das coisas. Há um discurso apocalíptico visivelmente articulado em produções tão diversas quanto Corrente do Mal e a série brasileira 3%. As sete sugestões das Dicas do Hessel desta semana abordam como a fúria adolescente - um motor absolutamente essencial ao amadurecimento, no melhor estilo destruir para construir - se confunde cada vez mais com o fatalismo.

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Nocturama

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Este drama do diretor Bertrand Bonello, sobre adolescentes de Paris que se refugiam em uma loja de departamentos depois de cometer atentados terroristas pela cidade, foi recebido com espanto em 2016 porque ainda era bem recente a memória dos atentados sofridos na França, como o ataque ao Charlie Hebdo em 2015. Bonello evita, porém, tanto o sensacionalismo quanto a leitura hiperssocializante; seus adolescentes estampam no rosto a Paris multiétnica mas, de resto, blasé que só, parecem mais os zumbis sem expressão de George Romero - cujo Madrugada dos Mortos é a principal influência de Nocturama, ao lado dos terrores urbanos de John Carpenter. Bonello digere conscientemente essas referências para fazer um suspense sobre o caso do Velho Mundo à luz do capitalismo tardio.

Disponível na Netflix.

O Cheiro da Gente

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Parece que a juventude parisiense, de alguma forma, é o retrato mais bem acabado da contestação autodestrutiva conscientizada. Especialista em fúria adolescente e fatalismo, o roteirista e diretor Larry Clark foi à França para fazer O Cheiro da Gente em 2014, às vésperas do aniversário de dez anos do seu clássico Kids, de 1995. Nada é muito diferente - jovens passam os dias andando de skate, fumando, brigando, dançando, transando - mas desta vez Clark parece se aproximar com mais afeto e menos condescendência, e inclusive coloca os adultos, mais do que nunca, numa posição que ele sem dúvida tenta exorcizar para si, a do velho que vampiriza a juventude dos novos, atrás de retomar as promessas desfeitas pela vida. Nesse combinado de terapia geracional e penitência, ele faz um excelente filme sobre cumplicidade.

Disponível no NetMovies e no Looke.

Quase 18

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A experiência de assistir a Fora de Série pode ser bem frustrante porque Olivia Wilde filma precariamente o bom material que tem na mão. Já Quase 18, lançado três anos antes, é o primo pobre que, embora sem prestígio, entrega plenamente o que promete. Também estreante na direção, Kelly Fremon Craig testa a habilidade comprovada de Hailee Steinfeld submetendo a personagem Nadine Franklin, de 17 anos, a um combo de ritos de passagem: ela ainda processa o luto do pai morto, não sabe como se aproximar do crush do colégio, e pra completar seu irmão popular está começando a namorar a melhor amiga de Nadine. Craig manipula com inteligência as nossas expectativas diante da vocação indie do filme: Quase 18 fica sempre no limite do drama teen que vai acabar muito mal (o professor vivido com leveza por Woody Harrelson vira os olhos nesses momentos) e a diretora usa essa linha tênue para ziguezaguear sobre os clichês do gênero sem ofender nossa inteligência.

Disponível na Netflix.

Elefante

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O diretor Gus van Sant vinha de uma leva de três filmes de prestígio (entre eles o oscarizado Gênio Indomável e o controverso remake de Psicose) quando deu uma pausa e realizou Gerry e Elefante entre 2002 e 2003, dois filmes de perfil indie. Foi o suficiente para colocar Van Sant na vanguarda do movimento de cinema de fluxo, que teve seu auge na virada do século com nomes como Claire Denis e Hou Hsiao-Hsien. À parte a polêmica de lidar com a reconstituição do massacre de Columbine, Elefante é uma obra-prima importante para entender como cinema de fluxo e fenomenologia se cruzam, e hoje é peça central na obra de Van Sant, cineasta interessado desde sempre em identificar as problemáticas da juventude na própria epiderme.

Disponível na HBO Go.

Pássaro Branco na Nevasca

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Os filmes de desabrochar para o sexo do diretor Gregg Araki frequentemente partem de um premissa irônica de violência e morte, porque afinal a descoberta do outro não deixa de ser uma deformação de si. Aí está um cineasta que sempre vale revisitar neste clima de apocalipse, porque Araki, otimista incorrigível, consegue enxergar a destruição como um processo de vida, e não é diferente neste misto de drama e mistério com Shailene Woodley. Talvez seja o filme mais acessível de Araki e é uma ótima porta de entrada para entender como ele usa temas e gêneros baratos, como o suspense sobrenatural, para organizar sua visão de mundo libertária e subverter todo tipo de fatalismo.

Disponível no Globoplay.

Virgínia

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Francis Ford Coppola não precisa provar mais nada a ninguém, e neste seu último filme, que daqui a pouco já completa uma década, ele basicamente presta uma homenagem a si mesmo e à tendência da fotografia dos seus filmes ao barroco - particularmente do seu Drácula, cuja trama vampiresca dialoga diretamente com este exercício lúdico de elogio ao poder encantador e destrutivo do amor gótico. Já se fizeram alguns filmes com Elle Fanning no papel da jovem imaculada que dribla as perversões do mundo com sua falsa ingenuidade, mas Virgínia foi o primeiro.

Disponível no Prime Video.

Thelma

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Ninguém tinha pedido uma versão de Carrie cheia de bom gosto artístico mas Joachim Trier foi lá e fez. O suspense norueguês preenche todos os pré-requisitos de um manifesto antidogmático, na trama que segue uma adolescente criada em casa por pais religiosos que descobre ter poderes telecinéticos ao sair para o mundo e se interessar sexualmente por outra mulher. Primo distante de Lars von Trier, Joachim não conseguiu ainda cumprir as expectativas que a crítica e o circuito de arte criaram sobre ele depois de seu segundo longa, Oslo 31 de Agosto, de 2011, e Thelma patina sem saber se prefere o requinte ou a sangueira. Não deixa de ser, porém, mais um filme sobre como romantizamos os potenciais (desperdiçados ou não) da juventude.

Disponível no Prime Video.

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