Imagem promocional de Liga da Justiça/Warner Bros.

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

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Snyder Cut é um retrocesso para Warner e desrespeito com o DCEU

Ignorando bons trabalhos de outros diretores do universo cinematográfico da DC, estúdio aposta fichas nos barulhentos fãs de Zack Snyder

Nicolaos Garófalo
25.05.2020
18h52
Atualizada em
25.05.2020
19h06
Atualizada em 25.05.2020 às 19h06

Não há por que ser delicado: o mundo simplesmente não precisa do Snyder Cut. Embora a versão de Liga da Justiça que foi aos cinemas esteja muito abaixo do que os heróis da DC merecem, é difícil imaginar que o corte de Zack Snyder seja muito melhor. Afinal, poucos meses após o lançamento do filme, foi noticiado que a própria Warner julgou o longa apresentado pelo cineasta “inassistível” e já planejava substituí-lo antes mesmo de seu afastamento por motivos pessoais.

A falta de confiança do estúdio no trabalho do diretor retorna mesmo com a confirmação do lançamento do Snyder Cut, que chegará em 2021 na HBO Max. Além da incerteza se a história será apresentada como filme ou série, a plataforma de streaming barrou filmagens adicionais pedidas por Snyder. Embora tenha proporcionado um adicional de até US$ 30 milhões para finalização de efeitos especiais e gravação de diálogos, a Warner trata a nova versão de Liga da Justiça apenas como um atrativo para novos assinantes, assim como o especial de Friends.

O estúdio capitalizou a barulhenta base de fãs de Snyder que, apesar de inundar sessões de comentários dizendo que “Henry Cavill é o verdadeiro Superman” ou que a paleta cinzenta do diretor representa “histórias adultas”, parece nunca ter aberto um quadrinho da DC. Grandes Astros Superman, Alienígena Americano e O Homem de Aço trazem algumas das histórias mais maduras da história do personagem, sem nunca abdicar de sua personalidade alegre ou das cores da mídia. Snyder e seus fãs parecem ignorar nomes como Jack Kirby, George Perez, John Byrne, Dave Gibbons e Brian Bolland, que entregaram algumas das histórias mais adultas e, ao mesmo tempo, coloridas da DC, entre elas Watchmen, Contrato de Judas e Piada Mortal. Em toda trilogia de Snyder, aliás, o único momento em que o kryptoniano de Cavill se aproxima das HQs é assinada por Joss Whedon, que comandou a cena em que o azulão diz “eu realmente gosto de estar vivo”.

Essa idolatria cega por Snyder também impede esses fãs de verem algo extremamente óbvio: sua saída foi benéfica para o DCEU. Enquanto o diretor era visto como “arquiteto” do universo compartilhado, a Warner entregou o mediano O Homem de Aço, o intragável Batman v Superman e alterou o terceiro ato de Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins, para se encaixar no tom de Snyder. Isso sem contar as várias picotadas em Esquadrão Suicida, alterado para fugir da atmosfera típica do cineasta. Após o afastamento do diretor, o estúdio entregou divertidos longas em Aquaman, Shazam! e Aves de Rapina, melhor filme do DCEU até agora, embora as campanhas de boicote na internet tentem dizer o contrário. Até mesmo o trailer de Mulher-Maravilha 1984 tem mais identidade do que todo o universo cinematográfico na época em que Snyder reinava.

Longe do diretor, a DC também tem produzido algumas de suas melhores séries e filmes em anos. No DC Universe, plataforma de streaming com produções originais da editora, Titãs tem equilibrado violência e cor de um jeito que Snyder nunca conseguiu na carreira, enquanto Patrulha do Destino tem provado que é possível criar uma série live-action para maiores sem apelar para violência ou sexualização de personagens. O recém-encerrado universo animado da editora também conquistou por sua fidelidade às HQs e tom único de cada filme.

Além disso, ficou claro nas últimas semanas que a editora não gosta muito do trabalho feito por Snyder com seus maiores heróis. Embora Jim Lee, chefe criativo da editora, tenha parabenizado o cineasta pela chegada do Snyder Cut, o Twitter do selo zombou do infame momento “Martha!” no Dia das Mães, enquanto Patrulha do Destino e Arlequina tiraram sarro do destaque dado a um filme que nunca foi visto.

Além de apoiar vozes que não conseguem superar o fracasso de um simples filme, lançar o Snyder Cut abre um perigoso precedente para a Warner. Com a chegada do novo Liga da Justiça na HBO Max, o estúdio se abre para a reclamação de outros diretores que alegam que suas visões para determinados trabalhos eram diferentes, e exijam seu próprio “Snyder Cut”. David Ayer, de Esquadrão Suicida, vem, desde o anúncio de Snyder, praticamente implorando para que seu filme seja revisitado, a ponto de um seguidor dizer “por favor, pare”.

Embora o Snyder Cut seja a realização de um sonho para fãs de Zack Snyder, seu significado é um desrespeito para profissionais como Patty Jenkins, David F. Sandberg, Cathy Yan e James Wan, que dificilmente receberiam o mesmo tratamento do estúdio, mesmo com filmes objetivamente melhores. Lançar uma versão previamente chamada de “inassistível” pelo próprio estúdio prova que a Warner vê a rica biblioteca da DC seus cineastas apenas como cifras e está aberta a se dobrar a qualquer balbúrdia que apareça aos assuntos mais comentados do Twitter.