Robert Pattinson como Batman em The Batman

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

Filmes

Artigo

Batman | Duelo entre vingança e justiça deve moldar amadurecimento do herói

Novo trailer do filme dirigido por Matt Reeves contrapõe conceitos centrais ao personagem

Eduardo Pereira
28.12.2021
10h00
Atualizada em
28.12.2021
11h03
Atualizada em 28.12.2021 às 11h03

Embora figure ombro a ombro com os grandes super-heróis da DC, o Batman sempre pôde ter seu status nesse grupo posto em cheque por conta de alguns traços centrais à sua caracterização. Ainda que dotado de um intelecto extraordinário, uma fortuna inimaginável e treinamento de combate e estratégia de darem inveja no Superman, Bruce Wayne é um ser humano comum, sem poderes que o tornem realmente "super". E, se salvou e salva o mundo diversas vezes ao lado de seus colegas da Liga da Justiça, o Homem-Morcego tem em seu heroísmo uma raiz mais egoísta, que o equipara a um vigilante: a vingança pelo assassinato de seus pais. O que permite ao personagem figurar na esfera do sobre-humano, portanto, é justamente o renegar dessa luta por Justiça como uma jornada pessoal; é a capacidade de se distanciar de um trauma que o definiu e permitir-se ser movido apenas pela necessidade de terceiros, com objetividade.

Paralelos entre os métodos heróicos do Batman e aqueles empregados pelos criminosos que ele combate são tema frequente das histórias do personagem não só nas páginas, como também na televisão e no cinema. São nuances que explicam o apelo inabalável que o Cruzado Encapuzado tem com o público há mais de 80 anos, uma vez que conversam diretamente com o alicerce do arquétipo heróico nas raízes dos dramas gregos (a figura humana, falha e identificável, mas capaz de realizar o que parece impossível) — e o trailer mais recente de Batman (2022), próximo filme dedicado a adaptar o personagem às telonas, parece indicar um novo ângulo sobre essa discussão. Intitulada The Bat and the Cat ("O Morcego e a Gata", em tradução livre), a prévia foca na relação de poder, desejo, desconfiança e cumplicidade que o longa do diretor Matt Reeves deve apresentar entre Wayne (Robert Pattinson) e Selina Kyle, a Mulher-Gato (Zoë Kravitz).

Assim como havia sido com o primeiro trailer do novo longa-metragem, além da prévia divulgada durante o DC FanDome 2021, o novo vídeo promocional traz destaque à palavra "vingança" — ecoando na admissão do personagem-título de que ele é a personificação do sentimento, o direcionamento que essa versão deve ter à autodestruição. A novidade, entretanto, fica por conta de uma clara contraposição à palavra "justiça", desenhando justamente a jornada de amadurecimento necessária para fazer Bruce Wayne ascender do vigilantismo ao heroísmo pleno, tirando das Trevas completas seu mais icônico Cavaleiro.

Pode soar como exagero ou desejo de fã, mas há mais elementos que corroboram essa análise. Voltando ao segundo trailer do filme, fica claro que a intenção de Reeves ao reunir em tela Selina e Bruce é oferecer ao torturado herói um espelho onde se reencontrar. "Você e eu não somos tão diferentes", ela diz, enquanto o sol nascente ilumina em dourado as vestes pretas de ambos. "Quem é você sob a máscara?", questiona a ladra, em seguida. A pergunta, embora aparentemente prática, pode ser também representativa da jornada na qual Reeves quer lançar o Homem-Morcego: a de autoconhecimento.

Declaradamente contrário à ideia de recriar a origem do personagem nos cinemas, Reeves situa seu filme no segundo ano de atividades de Wayne como o Cavaleiro das Trevas de Gotham City. "Eu não me importo com o que aconteça comigo", diz o personagem, entre cenas que o mostram enfrentando rajadas de tiros de peito aberto e espancando jovens delinquentes a ponto de quebrar ossos. Quando o Charada o força a mergulhar em uma espiral investigativa que revela segredos sobre o passado da cidade e da sua própria família, o Morcegão parece mais uma vez ceder à raiva e ao ódio, espancando o vidro de contenção que guarda seu rival, preso pela polícia, mas ainda no controle da situação.

Esse é, claramente, um Batman inexperiente, longe ainda de ser digno da alcunha de O Maior Detetive do Mundo, de ser capaz de liderar um grupo tão plural e complexo quanto a Liga da Justiça (ao lado de Superman e Mulher-Maravilha, é claro) ou de sequer ser chamado de "herói", quem dirá "super". Mas é, também, um Batman que oferece muito espaço para mudança, abrindo alas para o estudo de personagem intenso e veloz que o cineasta da mais recente trilogia de O Planeta dos Macacos é conhecido por fazer. Nos três filmes que a compõem, A Origem (2011), O Confronto (2014) e A Guerra (2017), Reeves foi capaz de desenhar uma psiqué tão cativante quanto complexa para o chimpanzé César (Andy Serkis, que agora será o mordomo Alfred), ancorando na humanidade de um primata super-inteligente toda uma franquia (brilhante) sobre macacos andando a cavalo enquanto disparam metralhadoras.

Propenso ao salto temporal entre um filme e outro, guardando nas elipses obrigatórias que surgem desse processo um amadurecimento de personagens que propulsiona suas tramas a um constante movimento de progresso, inquietante e surpreendente, Reeves deve fazer da desconstrução desse Bruce Wayne raivoso, autodestrutivo e solitário o principal mote de sua proposta trilogia para o personagem. Começando, claro, com Batman, e o processo de entendimento necessário de que uma vingança pessoal será sempre uma obstrução à busca pela verdadeira justiça — e que, se quiser lutar em nome desta, assim tornando-se de fato um herói — precisa fazer o sacrifício de renunciá-la, ainda que isso seja algo que deve fazer toda vez que coloca o capuz.

Se, aliado a isso, tivermos o Bruce Wayne de Reeves deixando a posição de mártir solitário, usando a relação com Selina como um trampolim para a compreensão de que há para ele um lugar no mundo, é possível que a trilogia de Reeves se torne o melhor exemplo cinematográfico da importância de não isolar o personagem desde LEGO Batman: O Filme (2017). Ao menos até que haja coragem por parte do cineasta, ou de quaisquer outras equipes criativas que forem adaptá-lo nos próximos anos, de retratar em toda sua glória a Bat-Família; justamente o elemento essencial para resgatar Wayne das trevas de seu passado e catapultá-lo de volta ao heroísmo pleno, sempre que necessário.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.