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Créditos da imagem: DC Comics/Divulgação

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Não, o Batman não funciona melhor sozinho (pelo menos nas páginas)

Há mais de 80 anos, o Cavaleiro das Trevas conta com a ajuda de uma crescente família para combater criminosos e seus próprios demônios

Nico Garófalo
01.11.2021
15h21
Atualizada em
01.11.2021
15h32
Atualizada em 01.11.2021 às 15h32

Visto como uma das figuras mais intimidadoras da DC Comics, o Batman passou mais de oito décadas derrotando inimigos poderosos usando sua inteligência e habilidade de aterrorizar criminosos. Apesar de sua abordagem violenta e sombria de combate ao crime, Bruce sempre contou com uma grande quantidade de parceiros para ajudá-lo em sua missão contra o submundo de Gotham e, quando necessário, manter em xeque sua tendência à violência. E, embora já não trabalhe sozinho há mais de 80 anos, ainda existem fãs do Cavaleiro das Trevas que acreditam que ele funcione melhor sem seus parceiros. Por mais que essa visão seja corroborada, até certo ponto com a icônica fase dos anos 1970 iniciada por Dennis O’Neil e Neal Adams, é preciso lembrar que o Batman, em seu cerne, é um personagem definido por suas ligações familiares.

Dentro das páginas, o Batman nasceu da vontade de Bruce de vingar o assassinato de seus pais e impedir que outras pessoas passem pelo mesmo trauma, e desde cedo foi ajudado por pessoas de confiança, que vão desde seu mordomo e figura paterna, Alfred, ao comissário Gordon. Quem acompanha os quadrinhos da DC dificilmente consegue imaginar um universo em que o Batman sobrevive mais do que alguns dias em sua guerra contra o crime sem a ajuda dos vários membros de sua bat-família.

Desde a estreia de Dick Grayson como o primeiro Robin, em 1940, o Cavaleiro das Trevas raramente trabalhou sozinho no cânone da editora. De lá para cá, ele teve a companhia de outros quatro Meninos-Prodígio e três Batgirls, além de fazer parte de equipes como a Liga da Justiça e Os Renegados e inspirar uma série de vigilantes que adotaram o morcego no peito para combater o crime. Compensando o fato de ter crescido sem proximidade com sua família de sangue, Bruce criou sua própria família, com pessoas a que confia até seus segredos mais sombrios e por quem enfrenta alguns dos vilões mais terríveis do mundo.

Mesmo em histórias não-canônicas, como O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Klaus Janson ou O Longo Dia das Bruxas de Jeph Loeb e Tim Sale, mostram o Batman criando e fortalecendo alianças que o ajudam a combater o crime. Apesar de frequentemente apresentarem um tom mais sombrio e, às vezes, pessimista do que as histórias narradas nos títulos mensais do herói, esses contos raramente ignoram a importância que personagens como Carrie Kelley, Jim Gordon e até Harvey Dent/Duas-Caras têm na carreira de vigilante do Homem Morcego.

Hollywood vs a Bat-família

Enquanto o Batman está em sua melhor forma quando acompanhado de seus parceiros nos quadrinhos, suas parcerias nunca alcançaram o mesmo sucesso narrativo nas telonas. Desde 1989, quando Tim Burton dirigiu o primeiro blockbuster estrelado pelo personagem, o Morcegão protagonizou nove filmes em live-action. A bat-família, no entanto, só foi realmente importante em dois deles: Batman Eternamente e Batman & Robin, ambos universalmente tidos como os piores longas do Cruzado Encapuzado. As versões de Dick Grayson (Chris O'Donnell) e Barbara Gordon (Alicia Silverstone) foram os principais alvos da fúria de críticos e fãs, que também condenaram os trabalhos de Joel Schumacher por abandonar a visão gótica criada por Burton.

Quando Christopher Nolan ficou encarregado de reiniciar a franquia, o diretor optou pela construção de uma narrativa menos fantasiosa que a de seus antecessores, tentando criar uma versão mais realista do personagem. Em Batman Begins, o cineasta reservou cenas inteiras para explicar o funcionamento de cada equipamento usado por Bruce Wayne (Christian Bale), abrindo mão, até certo ponto, da suspensão da descrença que tradicionalmente acompanha histórias de super-heróis. Celebrado por fãs e críticos na época, esse cenário dominado por racionalidade e tons pastéis foi rapidamente adotado como uma versão absoluta do Batman por toda uma nova geração, que, consequentemente, passou a ver os vários ajudantes do personagem como dispensáveis.

Essa visão de “lobo solitário” criada pelo sucesso da trilogia O Cavaleiro das Trevas de Nolan acabou sendo refletida em outras produções do herói. Em Batman vs Superman, por exemplo, Zack Snyder viu na morte do Robin a melhor forma de encaixar o colorido Menino-Prodígio em seu estilo sombrio sem necessariamente ignorá-lo. Esse apagamento relativo da bat-família, que deve seguir no Batman de Matt Reeves, influencia diretamente a forma como os fãs menos assíduos interpretam as relações de Bruce de modo geral - inclusive nos quadrinhos.

Não é raro ver novos leitores, atraídos aos gibis pelo Batman das produções de cinema e TV, expressarem sua confusão com a grande quantidade de ajudantes que o personagem alistou ao longo dos anos e o papel de apoio emocional e psicológico que eles representam nas páginas. Mesmo a amizade de Bruce com Clark Kent/Superman e Diana Prince/Mulher-Maravilha, duas das poucas pessoas de fora da bat-família em quem ele confia plenamente, é recebida com confusão por fãs das versões das telonas, mais acostumados com a faceta isolada do Cruzado Encapuzado.

Obviamente, ninguém precisa consumir todas as mídias existentes de um personagem para se considerar um fã - especialmente quando o personagem em questão já foi até peça de teatro e audiodrama. É importante, no entanto, entender que uma adaptação nem sempre conseguirá traduzir todas as nuances desenvolvidas por décadas nas páginas e, por isso, raramente apresentará uma “versão absoluta” de heróis e vilões clássicos. E, por mais que o Batman tenha se dado melhor nas bilheterias sem nenhum de seus filhos, é apenas uma questão de tempo até que alguém, enfim, encontre a maneira correta de reunir a bat-família na mesa de jantar da Mansão Wayne.

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