Batman na animação Harley Quinn

Créditos da imagem: Harley Quinn/HBO Max/Reprodução

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Batman, não seja egoísta: O problema de dizer que “heróis não fazem isso”

Ao vetar cena de sexo oral envolvendo Bruce Wayne e Mulher-Gato, DC evidencia como é difícil para homens se permitirem serem submissos e se entregar tanto quanto suas parceiras

Mariana Canhisares
17.06.2021
17h02
Atualizada em
17.06.2021
21h14
Atualizada em 17.06.2021 às 21h14

“Heróis não fazem isso”. Roubar? Torturar? Chantagear? Matar? Não. Acredite se quiser, mas essa frase virou manchete essa semana ao se referir a uma situação muito mais mundana: fazer sexo oral. De acordo com Justin Halpern, o co-criador da animação Harley Quinn, os executivos da DC censuraram uma cena na terceira temporada que sugeriria que o Batman -- no bom português -- chuparia a Mulher-Gato. E a justificativa veio nessa forma: “heróis não fazem isso”.

Antes de entrar no mérito se essa frase faz sentido ou não -- spoiler: ela não faz --, é importante um breve contexto. A série é explicitamente indicada para maiores de 18 anos em razão das cenas de violência e até das relações românticas entre seus personagens. Logo, essa decisão não vem para preservar o público infantil, ou impedir que os roteiristas corrompessem o espírito da produção. Pelo contrário, o momento estaria de acordo com as temporadas anteriores de Harley Quinn. Além disso, a cena em questão ficaria apenas no sugestivo, ou seja, a DC não estaria financiando um vídeo pornô estrelado por suas criações. Seria, realmente, só mais um trecho explorando a vida cotidiana e adulta do casal. Por que, então, impedir que algo do tipo fosse para o ar?

Vender boneco definitivamente não é o que está por trás desse discurso, embora tenha sido usado no pacote de justificativas dos executivos. Se fosse esse o caso, uma boa parcela de obras da cultura pop com classificação etária baixa ou livre sequer teria saído. A Viúva Negra nunca teria sido hipersexualizada na sua apresentação no MCU, em Homem de Ferro 2, nem a Mulher-Maravilha teria sido enquadrada de baixo para cima no primeiro Liga da Justiça -- para citar dois exemplos do universo de super-heróis. Afinal, sugestivo pelo sugestivo, tudo leva ao sexo. Trata-se, portanto, de uma questão que vai além da dita decência. Mais do que o moralismo dos representantes da editora, o que está em jogo é uma relação de poder: a mulher pode ocupar uma posição de submissão, mas o homem não.

Veja bem, não estou aqui discutindo preferências sexuais alheias, muito menos de personagens ficcionais. O ponto é que esse discurso, atribuído ao Batman, não é surpreendente para a maioria das mulheres que já estiveram em relações heterossexuais. É um fato: alguns homens adoram a ideia de ver uma mulher ajoelhada na sua frente, mas retribuir a “gentileza” é impensável. Colocar-se numa posição de servir ao prazer da parceira não seria certo. Não seria coisa de herói.

Essa fala dos executivos ecoa, portanto, não apenas como o desejo da mulher é posto em segundo plano -- senão completamente desconsiderado --, mas também essa ideia de que nas relações, principalmente as héteros, a mulher é um objeto a serviço do seu parceiro, e não um sujeito que dá e recebe afeto. Além de ser ultrapassado e, honestamente, ofensivo, perpetuar esse raciocínio normaliza relacionamentos desbalanceados e impõe restrições toscas às possibilidades e aos prazeres do sexo. A mulher perde, óbvio, mas o homem também!

Tendo em vista que ficção e realidade se retroalimentam, não dá para desvencilhar a decisão final da DC de um ponto de vista machista sobre o que cabe à mulher e ao homem. É um olhar restritivo que, embora não represente nenhum grande dano à trama da série, desperdiça uma oportunidade de humanizar a figura do Batman e, em última instância, de quebrar o status de tabu de algo tão agradável quanto o sexo oral. A boa notícia é que essa censura repercutiu bastante nas redes sociais e o debate extrapolou o cercadinho da cultura pop. Talvez seja uma boa lição para os executivos da editora: os fãs esperam que um herói, sim, se preocupe com o prazer da sua parceira. No imaginário coletivo, o Batman pode até ser riquinho e mimado, mas esse tipo de egoísmo ele não tem.

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