Coringa: como a trilha sonora estabelece a identidade do filme

Créditos da imagem: Hildur Gudnadottir/Amy Sussman/Getty Images North America/AFP/Coringa/Warner Bros/Divulgação

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Coringa: como a trilha sonora estabelece a identidade do filme

Hildur Gudnadottir compôs a trilha antes do início das filmagens

Julia Sabbaga
09.10.2019
16h56
Atualizada em
09.10.2019
18h09
Atualizada em 09.10.2019 às 18h09

Um dos maiores nomes em ascensão no mundo de trilhas sonoras atualmente é de Hildur Gudnadottir. Pouco conhecida há alguns meses, a violoncelista islandesa já fez turnê com algumas bandas (como Animal Collective e Sun o)))) e lançou álbuns solos, mas foi com seu trabalho de compositora para as telas que ela roubou os holofotes, tendo trabalho nas composições de Sicário: Dia do Soldado e Maria Madalena no ano passado. Em setembro deste ano, a musicista entrou em outra fase de sua carreira levando dois prêmios gigantes: pela trilha sonora de Chernobyl no Emmy, e pela trilha sonora de Coringa no Prêmio Soundtrack Stars Award, do Festival de Veneza.

Os dois trabalhos são únicos em sua própria maneira. Enquanto a música de Chernobyl foi admirada pela sua inovação – através da captura de sons de usinas nucleares abandonadas – Coringa é um trabalho à parte quando se fala de trilhas sonoras no cinema por seu papel fundamental em estabelecer o tom do filme. Ao contrário da maioria dos trabalhos de Hollywood de hoje em dia, a trilha sonora de Gudnadottir foi composta antes do início das filmagens. 

A maior parte das produções atuais introduz o compositor na fase final do processo, deixando que a pessoa responsável pela trilha assista ao produto bruto para que a trilha seja criada em cima, em um ritmo já criado pelo diretor nas filmagens. Ao inverter o processo, longas que trabalham com composições já feitas produzem em cima da trilha, criando um produto movido pelo ritmo musical, estabelecido pelo compositor. A estratégia, que exige uma relação muito maior entre diretor, roteirista e compositora, resulta em uma relevância maior da trilha sonora, que estabelece tanto passo quanto tom do filme.

“Todd me mandou o roteiro assim que ele terminou e me pediu para responder com uma música, de imediato”, ela explicou à Esquire. “Eu compus com o que eu estava sentindo, imaginando o som e o ritmo da narrativa. Ele entendeu muito bem o que eu escrevi e acabou filmando a maior parte do material com as músicas que eu já tinha escrito. Isso foi incrível porque a música e o filme crescem juntos”. 

O diretor Todd Phillips explicou a simbiose entre as cenas e suas músicas, dizendo que a tática se provou certeira para todos os aspectos da produção [via Blackfilm]: “Nós usamos a trilha enquanto filmamos, o que foi incrível para Joaquin [Phoenix], para mim, os operadores de câmera e toda a equipe. [A trilha] ajudou a formar o filme e a cinematografia de um jeito que eu nunca tinha experimentado antes”. 

Em Coringa, o resultado de um trabalho mais colaborativo fica transparente na tela. O ritmo claro que o filme tem do começo ao fim, assim como o seu clima sombrio, não são apenas complementados pelas músicas; eles foram estabelecidos por ela. A transição da psicologia de Arthur Fleck e o seu caminho à uma insanidade cada vez mais intensa fica ainda mais enraizada por ter sido trabalhada em conjunto com a música. A compositora explica este processo perfeitamente [via NPR]: “No começo, você só ouve o violoncelo. A medida em que vamos progredindo, a orquestra fica cada vez mais alta, até chegar um ponto em que ela sufoca o violoncelo. É como se a empatia que sentimos pelo personagem fosse o instrumento, e seu lado sombrio fosse a orquestra, quase inaudível no começo, até que ela se aprofunda totalmente no desenrolar do filme”.