Entenda o final de Coringa

Créditos da imagem: Coringa/Warner Bros/Divulgação

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Entenda o final de Coringa

Novo longa da DC abre espaço para discussões inesgotáveis [Cuidado com spoilers!]

Julia Sabbaga
03.10.2019
15h13
Atualizada em
03.10.2019
17h13
Atualizada em 03.10.2019 às 17h13

O novo Coringa promete divisões no público de diversas maneiras. Antes mesmo da sua estreia, o longa de Todd Phillips protagonizado por Joaquin Phoenix conquistou diferentes feitos, vencendo o Festival de Veneza por um lado e recebendo críticas de incitação de violência por outro. Mas em um nível ainda mais básico, a trama criada por Phillips promete uma divisão sobre o que realmente acontece na história. A origem do Coringa, mostrada em um caminho acelerado à insanidade, desta vez é colocada em questão por uma narrativa parcial e por isso questionável.

[Spoilers de Coringa abaixo!]

Arthur Fleck (Phoenix) é um sujeito mentalmente perturbado, que passa os dias fazendo bicos como palhaço, trabalhando em um set de stand-up e cuidando de sua mãe, Penny (Frances Conroy). No contexto de uma greve de lixo e protestos em Gotham, e uma campanha de Thomas Wayne (Brett Cullen) para prefeito, o desenrolar da loucura de Fleck durante o longa caminha no mesmo ritmo em que Gotham descende para o caos. O crescimento das revoltas da população da cidade parece ser inspirado pela figura do Coringa, que cria o estopim contra os 1% mais ricos ao assassinar três sujeitos no metrô. No fim do filme, quando o personagem sobe em um carro e completa seu sorriso familiar feito de sangue, seu arco parece completo: ele se tornou o vilão que todos conhecemos, badernou Gotham e criou um futuro herói no pequeno Bruce Wayne, que viu seus pais assassinados no meio da violência. Este parece ser o desfecho de Coringa, que acaba sua história internado em um hospício, mas indicando o nascimento do vilão de Batman, e deixando portas abertas para futuras tramas.

O fim de Coringa pode ter sido este. Mas o filme de Todd Phillips abre portas para interpretações infinitas, já que tudo que se passa é visto pelos olhos do seu protagonista. Logo no início, quando o personagem assiste o programa de Murray Franklin (Robert DeNiro) na TV, Phillips dá o primeiro indício de que tudo pode ser colocado em questão. A imaginação do personagem vai longe e dá a primeira referência clara ao Rei da Comédia, de Martin Scorsese, um filme que mistura a realidade e a ficção de modo indistinguível.

Esta não é a única pista em relação aos delírios do Coringa. Quando é revelado que toda a relação que ele tem com a sua vizinha Sophie (Zazie Beetz) é fruto de sua mente, o filme estabelece de uma vez por todas que seu relato não é confiável. Tudo que se passa pode ser verdade. Mas pode também não ser. Em um outro momento, mais próximo ao final do filme, Arthur segura uma foto de sua mãe que traz uma mensagem de Thomas Wayne à mulher. Seria a mensagem parte da imaginação de Arthur? De sua mãe? Ou será que a mulher teria mesmo tido uma relação com o empresário?

Deste modo, a maior parte dos acontecimentos de Coringa é digno de debate. Pode ser que tudo tenha sido um delírio de Arthur, que no início é questionado sobre uma internação, e é visto batendo a cabeça na parede de um hospício, sem maiores explicações. Pode ser que suas alucinações tenham se iniciado com sua demissão ou a descoberta de sua paternidade incerta. Pode ser também que tudo tenha acontecido do modo que Phillips nos mostra. Mais importante que tudo isso é que não há uma resposta. Na última cena, em que Arthur diz que a psiquiatra “não entenderia” a piada que ele pensou, Phillips tira o último sarro do público. A única certeza de Coringa é que não há certezas.