Não, nós não tivemos um Batman emo - e ainda não entendemos o que emo significa

Créditos da imagem: Batman e sua maquiagem borrada (Reprodução)

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Não, nós não tivemos um Batman emo - e ainda não entendemos o que emo significa

O Bruce Wayne de Robert Pattinson é um ótimo personagem, mas não é um ícone emo

Omelete
4 min de leitura
Caio Coletti
18.04.2022, às 11H12

Foi a sombra de olho que virou o mundo (bom, o mundo nerd…) de cabeça para baixo. Mesmo que todos os Homem-Morcego antes dele também tenham usado maquiagem para escurecer os olhos por baixo da máscara, Robert Pattinson foi provavelmente o primeiro Batman a exibir o look “borrado” para a câmera, já no trailer do filme de Matt Reeves. O frisson foi tão real, positiva e negativamente, que o diretor teve que “justificar” o uso de maquiagem pelo herói em uma entrevista. 

Junte a isso o cabelo escorrido e ensebado que o ator cultivou para o longa, e o status geral de Pattinson como ícone da mesma geração que viveu o fenômeno emocore com mais intensidade, no início dos anos 2000, e pronto: o mito do "Bat-emo" estava construído. Mas Batman, que chegou hoje (18) ao catálogo da HBO Max após arrecadar pouco mais de US$ 750 milhões nos cinemas ao redor do mundo, conta uma história diferente. 

De forma inclusive muito próxima a algumas visões do herói nos quadrinhos, o Bruce Wayne de Reeves é um jovem retraído e traumatizado, com uma veia autodestrutiva. Pattinson é excelente no papel porque canaliza, nele, aquele que sempre foi o seu maior talento como ator (inclusive, um talento que poucas vezes ficou mais em evidência do que no primeiro Crepúsculo): traduzir pelo rosto e pelo corpo uma profunda angústia interna que, pelo bem das aparências ou da sobrevivência psicológica do personagem, não pode ser botada para fora - e que por isso, eventualmente, é sublimada em violência.

Este é o conflito fundamental de Batman, o filme de 2022, mas também do Batman, o personagem, como ele existe no imaginário popular. É por fazer um retrato tão envolvente desse conflito que o longa de Reeves agradou tanto a maior parte dos fãs e dos críticos, mesmo que às vezes eles não admitam isso abertamente, preferindo focar em aspectos mais técnicos ou jogar o jogo seguro das referências cinematográficas. Essas virtudes também estão ali, é claro, mas o verdadeiro trunfo de Batman é quão bem ele entende seu protagonista.

Acontece que, para os propósitos do tal “Bat-emo”, bom… esse ethos do longa é completamente oposto ao do emocore como gênero musical/discursivo, e do emo como movimento que surgiu a partir dele. Acima de qualquer coisa, falta vulnerabilidade ao Bruce Wayne de Pattinson para clamar esse título: passeie pela discografia de um My Chemical Romance, de um Dashboard Confessional, de um Panic! At the Disco, e você não vai encontrar emoções reprimidas. Pelo contrário, você vai encontrá-las exibidas em plena vista, gritadas ao microfone, atiradas do palco em movimentos convulsivos coordenados com o compasso da bateria.

E sim, há um elemento de teatralidade forte nessa expressão, como há um elemento de teatralidade forte em colocar maquiagem e um traje de morcego para espancar bandidos pelas ruas de Gotham City - mas é fácil enxergar como são teatralidades com objetivos e efeitos diferentes, não? Gerard Way, Pierre Bouvier e Patrick Stump faziam um espetáculo de suas angústias (e as de toda uma geração, ou até as de todo mundo que já passou pela adolescência) não para fugir delas, mas para enfrentá-las. Havia raiva e um impulso de destruição no emo, com certeza, mas o gênero usava a vulnerabilidade, a abertura radical desses sentimentos, como uma arma para que eles não se voltassem para dentro como os de Bruce Wayne.

Não foi à toa que, após décadas prosperando no underground americano, o emo alcançou o mainstream no início dos anos 2000. O massacre de Columbine, que deu visibilidade global inédita à epidemia de tiroteios em escolas nos EUA, aconteceu em 1999; dois anos depois, o país viveu o ataque terrorista do 11 de setembro; mais dois anos se passaram e, em 2003, a guerra do Iraque começou. Se o primeiro evento criou uma preocupação intensa com a saúde mental dos jovens americanos, os seguintes mostraram porque essa preocupação era justificada - quem consegue manter a sanidade em um mundo como esse?

O emocore surgiu, nesse cenário, como um escape seguro e, acredite ou não, saudável. O chavão do adolescente emo que reclama de não ser compreendido pelos pais (não é só uma fase!) é engraçado na superfície, mas também expressa uma realidade: esses jovens não eram compreendidos pelos pais, e o caos político-social que herdariam deles não era só uma fase. Pode parecer patético visto de fora, mas ter rapazes maquiados extravasando toda essa angústia no palco e nos videoclipes, sem perder nem o bom humor, nem a atitude de desafio às normas, foi essencial para a sobrevivência psicológica de boa parte dessa geração.

E aqui está esse termo de novo, “sobrevivência psicológica”. No fim das contas, se Batman tem alguma conexão narrativa com o movimento emo, a chave para entendê-la está nesse termo, e não naquele take infinitamente retuitável de Pattinson com lápis de olho borrado dentro de sua Bat-caverna. Não, o Bruce Wayne dele não é emo - mas, especialmente na tocante subtrama em que aprende a se conectar de verdade com Alfred (Andy Serkis) e em sua jornada de trocar a vingança pela esperança, está aprendendo a ser.

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