Tanjiro e Juliette do BBB21

Créditos da imagem: Tanjiro/Ufotable/Divulgação Juliette/Instagram/Reprodução

Séries e TV

Artigo

Fenômenos | Demon Slayer é a Juliette dos animes e mangás

Tentando entender como uma história comum e uma participante tradicional de reality se tornaram dois grandes estouros

Fábio Garcia
03.05.2021
17h06

Assim como é difícil iver no meio nerd sem ter ouvido falar de Demon Slayer - Kimetsu no Yaiba, é impossível habitar o Brasil da atualidade sem saber quem é Juliette Freire. Enquanto um é o maior fenômeno dos animes e mangás das últimas décadas, a outra é uma das participantes cuja passagem no Big Brother Brasil explodiu as redes sociais.

A princípio não faz qualquer sentido comparar duas coisas tão distintas como um anime de sucesso e uma participante de reality show, mas o crescimento de ambos é bastante parecido e compartilham algumas similaridades.

Nasce um fenômeno

Vamos fingir que você esteve fora da órbita do planeta Terra nos últimos 3 anos e não faz ideia do que é Demon Slayer, ou então Kimetsu no Yaiba (seu nome original). A série em quadrinhos foi criada por Kyoharu Goutoge, uma autora novata, e estreou na Shonen Jump em fevereiro de 2016. Para quem não conhece como funciona a revista, os capítulos são avaliados pelos leitores e as séries menos "queridas" (ou então as que não conseguem vender bem volumes encadernados) são canceladas para que outros autores apresentem suas histórias no lugar.

Demon Slayer
Demon Slayer/Shonen Jump/Reprodução

A premissa de Demon Slayer é uma coisa bastante simples: Tanjiro Kamado teve sua família assassinada por um oni, uma espécie de demônio que não suporta a luz do Sol. A única sobrevivente do ataque é sua irmã Nezuko, que se tornou uma oni por ter entrado em contato com o sangue do demônio. Felizmente ela ainda mantém sua consciência humana, e agora os dois partem em uma jornada para caçar o responsável por isso e reverter o processo de onificação da irmã.

A trajetória de Demon Slayer nas páginas do almanaque semanal não foi um sucesso excepcional, mas passou longe de ser um fracasso. É um mangá que costumava ficar entre quinto e sexto lugar, isso em uma revista com 20 títulos, e foi garantindo seu espaço superando títulos menores, mas sem ameaçar o posto de um One Piece ou My Hero Academia.

Em meados de 2018, a Shonen Jump fez uma série de anúncios de animes baseados em seus mangás. Além de The Promised Neverland (aquele anime cuja temporada final seria muito criticada no futuro), veio a surpresa de Demon Slayer ter uma produção anunciada pelo aclamado Ufotable. O estúdio, mundialmente conhecido pela qualidade da série FATE e por notícias sobre sonegações de impostos, ficou com a responsabilidade de transpor para anime toda a trama criada por Goutoge. As expectativas estavam altíssimas, e o estúdio superou todo o hype criado. Sob a direção de Haruo Sotozaki, a equipe conseguiu transformar uma história prá lá de clichê em um dos marcos da animação japonesa da última década.

Demon Slayer
Demon Slayer/Ufotable/Divulgação

A narrativa truncada e repleta de furos da autora do mangá foi retrabalhada e se tornou um mero acessório para o estúdio exibir uma combinação primorosa de animação tradicional com efeitos tridimensionais. É essa computação a responsável por permitir Tanjiro Kamada soltar ondas de água de sua espada, ou então que leva o insuportável Zenitsu a emanar raios de suas lâminas. Sem essa tecnologia, seria impossível criar cenas como as de Tanjiro enfrentando um oni cuja habilidade é girar uma sala inteira ao toque de um tambor. Tudo sempre muito belo.

Mas se o anime já apresentava uma qualidade técnica acima de qualquer outra produção da época, tudo foi levado à enésima potência com a exibição do famoso episódio 19. A repercussão do capítulo nas redes sociais ajudou a convencer quem ainda não tinha embarcado no trem de Demon Slayer e, a partir daí, a animação se tornou um fenômeno completo. É normal esperar que um mangá tenha um aumento de vendas com a exibição do anime, mas Demon Slayer passou longe da normalidade.

Os volumes se esgotaram das livrarias e a Shueisha se viu obrigada a reimprimir repetidas vezes as edições para atender a demanda colossal. No começo de 2020, as vendas de Demon Slayer foram superiores às de One Piece e à soma de todos os outros volumes vendidos de outros oito mangás listados. O Japão foi tomado por uma onda Demon Slayer tão imensa que a Shonen Jump com o capítulo final do mangá se esgotou em 24 horas, um recorde nunca antes ocorrido na história da revista (nem na publicação dos finais de Naruto ou Dragon Ball).

Demon Slayer
Demon Slayer/Ufotable/Reprodução

Qualquer produto com Demon Slayer era garantia de vendas, e ninguém estava entendendo muito bem o motivo. A Shueisha, que não é boba nem nada, correu para garantir seu lucro e registrou até mesmo os padrões usados nas roupas dos personagens. Ou seja, se você quiser usar aquele quadriculado esverdeado e preto é bom se preparar para pagar. Ainda no ano passado foi lançado Demon Slayer - Mugen Train: O Filme, um longa metragem que continua de forma oficial a trama da série televisiva, dessa vez adaptando o arco do Trem Infinito. A empreitada cinematográfica foi um sucesso de público e superou a bilheteria de filmes como Your Name e A Viagem de Chihiro, mas o mais surpreendente foi o fato do filme ter sido lançado durante a pandemia da Covid-19, algo que deveria dificultar recordes como estes. Inclusive é preciso relembrar que houve um crescimento de casos da doença no Japão logo após a estreia do filme por lá.

Demon Slayer/Ufotable/Divulgação

Muita gente tentou entender ou explicar o sucesso de Demon Slayer, e parece não haver um consenso nem mesmo entre os japoneses. Fabio Sakuda, especialista do meio que mora no Japão, publicou uma thread no Twitter contando sobre um programa de televisão que tomou pra si o desafio de explicar o sucesso no território japonês. Muitos lá justificam a existência de uma forte identificação por parte de leitores que ainda estão no primário e que se viram espelhadas nas imperfeições e medos dos personagens de Demon Slayer. Já os mais velhos teriam sido atraídos pela forma na qual o mangá utiliza um japonês mais "tradicional", com ideogramas que foram caindo em desuso no decorrer das décadas. "One Piece cresceu no fandom otaku. Frozen foi sucesso fora dele. Kimetsu no Yaiba conseguiu os dois", explicou Fabio.

Certo, entendemos (ou não) como o público japonês abraçou Tanjiro e sua irmã que anda com um pedaço de bambu na boca, mas como explicar o sucesso de Demon Slayer no ocidente? Para isso, talvez seja interessante a gente deixar o anime de lado e contar uma outra história, que está acontecendo atualmente na casa mais vigiada do Brasil.

A Onda dos Cactos

Estamos na reta final do Big Brother Brasil 21 e, se nada de excepcional acontecer, teremos a vitória de Juliette Freire. A paraibana teve uma trajetória bastante comum para os padrões do reality show, e foi isolada pela casa a princípio por ser alguém que gosta bastante de conversar. Como já aconteceu em outras temporadas, o público se identificou com a narrativa da pessoa deixada de lado e logo Juliette se tornou (pelo menos nas redes sociais) a participante mais popular... da história do programa.

Claro, não podemos comparar com uma Sabrina Sato (do BBB3) ou uma Grazi Massafera (do BBB5) que surgiram numa época em que não havia redes sociais e muito menos competição por seguidores de Instagram, mas atualmente Juliette Freire tem cerca de 23 milhões de seguidores, e contando. Para se ter uma ideia do tamanho desse número, Juliette já superou artistas internacionais como Billie Eilish e a página oficial dos Beatles.

A jovem se tornou um às do engajamento, viralizando expressões e garantindo sucesso de vendas a marcas que se atrelaram à sua imagem. Enquanto era desprezada por Karol Conká, a "vilã" da edição, suas redes sociais abraçaram a imagem de "nordestina guerreira" e impulsionaram pelo lado de fora a popularidade da participante.

Big Brother Brasil 21
Juliette/Rede Globo/Reprodução

Assim como o já citado Demon Slayer, atualmente ninguém é capaz de explicar como se deu o fenômeno Juliette. Tal qual a história criada por Kyoharu Gotouge, a participante do BBB21 é extremamente comum ao que temos todos os anos no reality show. Por mais carisma que a maquiadora tenha, não há nada ali que a gente já não tenha visto antes em diversas outras participantes do mesmo programa.

Demon Slayer e Juliette do BBB21 se mostraram fenômenos inexplicáveis, porém muito lucrativos, mas será possível encontrar pontos em comum entre os dois?

Tanjiro Kamado e Juliette Freire, heróis com simbologia

O sucesso de Demon Slayer no ocidente tem motivos diferentes do Japão. Se lá as hipóteses apostam na identificação por parte das crianças e na utilização de um japonês mais culto, por aqui essas duas histórias parecem não colar porque recebemos a trama traduzida com uma linguagem normal e Demon Slayer tem um público adulto bem superior ao jovem. Um chute bastante pessoal de minha parte é que Demon Slayer emplacou por trazer vários elementos que as pessoas facilmente identificam como algo "japonês".

Demon Slayer/Ufotable

Séries sobre samurais ou ninjas têm um apelo grande no público ocidental porque trazem aquele tom "misterioso" aos olhos de um espectador ocidental. Demon Slayer utiliza diversos elementos que funcionam como símbolos facilmente associados a animes desse tipo, como "espadas", "demônios japoneses", "roupas típicas" e por aí vai. Somando tudo isso com uma história básica, uma animação impressionante e generosas doses de violência, chegamos a um possível sucesso entre adultos deste lado do globo.

Já a imagem de Juliette utiliza também alguns símbolos específicos para emplacar, através de seu marketing, um reconhecimento pelos brasileiros. Para começar, toda a identidade visual da sister nas redes sociais é feita com base em elementos normalmente atribuídos ao Nordeste. Muitas fotos tiradas pela participante são com um chapéu de cangaceiro e o emoji usado para marcar sua fanbase é o cacto, uma planta comum em regiões áridas. Se acrescentarmos a apropriação do cuscuz e de "Anunciação" de Alceu Valença, temos aí vários símbolos usados por Juliette para colocá-la como representação do Nordeste, mesmo esta sendo uma região muito diversa culturalmente.

Mas o sucesso de ambos não se deve apenas a uma simbologia que permite uma fácil identificação, tem mais coisa além disso. É possível observar que tanto Juliette quanto Demon Slayer passaram por uma "histeria coletiva", uma manifestação psicológica normalmente usada quando temos várias pessoas acreditando que sofrem de uma doença parecida. No caso dos nossos objetos de estudo, essa empolgação foi potencializada pela internet.

Dragon Ball é um grande sucesso, mas a explosão a nível mundial foi um fenômeno não-simultâneo. Entre o sucesso no Japão e o ápice da exibição de Dragon Ball Z na TV Globinho temos quase 15 anos de diferença. Na atualidade, por conta do acesso quase simultâneo a animes japoneses de forma oficial e acessível, muitas pessoas conseguem assistir a um Demon Slayer ao mesmo tempo, e a empolgação de influenciadores acaba levando seus seguidores a irem atrás de tudo o que gostam.

Isso causa um efeito que muitos chamam de FOMO ("fear of missing out", ou então "medo de ficar de fora" em português). Em um mundo tão conectado e cheio de interações por redes sociais, as pessoas têm receio de não estarem por dentro da sensação do momento, e essa ânsia leva mais gente para grandes fenômenos midiáticos como Demon Slayer ou o Big Brother Brasil 21.

Demon Slayer/Ufotable

Não se trata de uma forma de menosprezar o sucesso de Demon Slayer ou da participante do BBB21, mas só de mencionar que são fenômenos muito maiores que o comum e sem qualquer tipo de explicação. Talvez só daqui alguns anos tenhamos mais dados para poder explicar o que aconteceu com o estouro dessas manias tão recentes. Inclusive é até possível que daqui um tempo as pessoas se questionem sobre a qualidade do que acompanharam com tanto afinco, mas aí já será tarde e as pessoas envolvidas já terão lucrado o suficiente com pessoas que acabaram em um "efeito manada".

E daqui pra frente?

Embora pouco se saiba o motivo do sucesso, o futuro parece promissor tanto para Demon Slayer quanto para Juliette Freire. Os matadores de onis retornarão ainda em 2021 para uma nova temporada que adaptará o arco do Distrito da Luz Vermelha. Já Juliette sairá do BBB21 como a participante com mais seguidores, então terá diversas oportunidades de faturar ainda mais.

Resta ver se como os dois vão lidar com a expectativa dos fãs. A primeira temporada de Demon Slayer conquistou quando ninguém esperava alguma coisa, agora precisará manter o patamar elevado. Já Juliette precisará controlar uma grande fanbase que ficou conhecida na internet por ser às vezes bem agressiva com quem pensa diferente.

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