Velozes e Furiosos | Como a galhofa salvou e mantém viva a saga de filmes

Créditos da imagem: Universal Pictures/Divulgação

Filmes

Artigo

Velozes e Furiosos | Como a galhofa salvou e mantém viva a saga de filmes

Absurdos de Velozes e Furiosos 9 são exatamente o que franquia precisa para durar mais

Eduardo Pereira
01.07.2021
07h00

Quando Velozes e Furiosos chegou aos cinemas, em 2001, era fácil comparar a história de um policial infiltrado em um grupo de fanáticos por corridas com a de filmes de ação de sucesso na década anterior, como Traindo o Inimigo (1992) ou principalmente Caçadores de Emoção (1991). Hoje, 20 anos depois, apenas o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) se presta a uma comparação com a franquia encabeçada por Vin Diesel, que leva o absurdo à altura do espaço sideral (literalmente) em Velozes e Furiosos 9, sem medo de abraçar a galhofa.

Esse é o resultado de um processo gradativo de expansão de escala e redirecionamento temático da franquia que encontrou seu maior ponto de virada na transição entre Velozes e Furiosos 4 (2009) e Velozes e Furiosos 5: Operação Rio (2011). Ambos dirigidos por Justin Lin, de volta à saga no mais novo filme, os longas trabalharam em conjunto para sepultar a trama policial e transformá-la em uma aventura fantástica, forçando a barra da suspensão de descrença estabelecida até então e colocando-a muito mais próxima daquela vista em histórias de super-heróis.

É no quarto filme que Brian O’Conner (Paul Walker) rompe de vez com sua ligação com a lei norte-americana em nome do que entende ser a verdadeira justiça ao lado de Dominic Toretto (Diesel), dando início à “família” que, até hoje, é central a absolutamente tudo que sai da boca do careca fortão. É também nele que o status quo da franquia é alterado de forma mais drástica pela primeira vez, tirando as corridas de uma posição de co-protagonismo em relação aos personagens e fazendo dos carros uma mera ferramenta ilustrativa dos arcos dramáticos de Dom e companhia.

A mudança fica mais clara com o quinto filme, que praticamente não contém corridas memoráveis, mas sim perseguições. Velozes e Furiosos (2001) era uma história sobre uma investigação policial no submundo dos “rachas”, enquanto + Velozes + Furiosos (2003) espelhava a mesma trama, partindo do universo dos carros tunados para se tornar uma história de polícia contra bandido. Em Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio, Lin se permitiu uma pausa da trama ancorada em Walker e Diesel para fazer um filme realmente focado em corridas e uma das muitas culturas em torno delas, a do drift. Já em Velozes e Furiosos 4, o diretor teve de retomar os dois primeiros longas só para amarrar um fechamento de ciclo, justamente com uma corrida em seu terceiro ato.

Esse encerramento permitiu que o quinto filme fosse uma tela em branco, oferecendo a possibilidade de redefinir parâmetros e respirar novo fôlego em uma franquia limitada. O trabalho foi bem feito: Operação Rio deu início à tradição de rodar o mundo a cada aventura, possibilitando tramas mais dinâmicas e variadas. A universalidade da temática familiar, colocada em primeiro plano em relação às lutas entre bem e mal e às corridas de alta octanagem, fez com que o apelo da história fosse além dos nichos e atingisse um público cada vez mais diverso. Mais do que isso, um senso de ridículo afiado, que conseguiu fazer com que a franquia passasse a navegar um tom quase satírico em relação a si mesma, solidificou a saga iniciada com um filme de ação policial como uma máquina de fazer dinheiro ao redor do mundo todo.

O mais absurdo de tudo isso talvez seja como toda essa mudança veio em menos de dois anos, com o salto de um filme cujo ponto mais absurdo foi uma corrida mal iluminada dentro de túneis de escavação no deserto, para um que colocou um deserto com cânions ao lado do Rio de Janeiro e um carro arrastando um cofre inquebrável em plena ponte Rio-Niterói, sem trânsito. A saga foi de US$ 360 milhões ganhos com Velozes e Furiosos 4 para US$ 626 milhões, com Velozes e Furiosos 5. Claro, no caminho houve um Dwayne “The Rock” Johnson para ajudar, mas o que realmente garantiu esse sucesso financeiro (que só cresceu, a ponto de quebrar a casa do bilhão duas vezes com Velozes e Furiosos 7 e Velozes e Furiosos 8), foi entender as limitações da história e, sem medo de fazer o impossível acontecer em tela, atropelá-las como fariam Toretto e O’Conner.

E é aí que chega Velozes e Furiosos 9. Se lá em 2001 a cena mais distante da realidade do filme mostrava dois carros de corrida pulando em frente a um trem, desafiando a física apenas se você calculasse o tempo da ação em relação à velocidade dos carros, hoje, a cada sequência de ação da saga é possível preencher uma lista de momentos inacreditáveis. De personagens alvejados com centenas de balas que nunca são atingidos a carros que saltam de penhascos como o Tarzan em um cipó, chegando, claro, à ideia de grudar um foguete em um carro e ir ao espaço, Velozes deixa claro ter entendido mais uma barreira e ter feito mais um salto para permanecer relevante.

Com a trágica morte de Paul Walker, dissipou-se também o último laço que mantinha o coração da franquia ainda preso a alguma parte da seriedade que guiava o primeiro Velozes e Furiosos. Mesmo que Brian O’Conner permaneça vivo e, de certa forma, presente no universo dos filmes (uma escolha que eu, particularmente, acho bizarramente errada), a perda de impacto emocional da história, que encontrou seu ápice no filme-evento que foi Velozes e Furiosos 7 e sua despedida do astro original, é inegável. Resta, portanto, abraçar o espetáculo, o divertimento e a sensação de aconchego que traz a repetição da temática de união, amizade, perdão e cumplicidade que todo o mote da família representa.

Por isso, por mais que seja compreensível que alguns fãs se incomodem com o crescente absurdo do mais novo filme da franquia (seja por seus ímãs superpoderosos, pela ressurreição de Han ou por colocar Tyrese Gibson para falar que talvez todos ali sejam mesmo invencíveis), esse era o único caminho viável para que conseguíssemos chegar aos prometidos 11 filmes da saga: abraçar a galhofa e se divertir com ela. Nessa toada, que venham não só mais dois, mas três, quatro, cinco novos filmes, com dinossauros, viagens no tempo, vampiros e o que mais Dom Toretto e sua família decidirem enfrentar.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.