Cássia Kiss em Desalma, série de terror da Globoplay

Créditos da imagem: Desalma/Globoplay/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Desalma | Série de bruxas do Globoplay investe em horror europeu feito no Brasil

Seriado sobre comunidade pagã ucraniana traz interpretação brasileira do terror pastoral

Arthur Eloi
21.10.2020
15h26

Algo macabro acontece na televisão. Algumas semanas após The Third Day levar uma boa dose de folk horror para a telinha, agora a Globoplay demonstra como o subgênero pastoral do terror funciona no Brasil com Desalma, série escrita por Ana Paula Maia (Enterre Seus Mortos).

A trama pega um ângulo pouco explorado no audiovisual brasileiro. Ao invés das ruas de São Paulo, ou das praias do Rio de Janeiro, o programa mergulha na mata sulista para acompanhar uma comunidade de imigrantes ucranianos. O nacionalismo pela pátria deixada corre solto na cidade de Brígida, onde os habitantes, isolados da sociedade, tentam manter seus velhos hábitos e rituais pagãos enquanto lidam com os fantasmas de uma tragédia que marcou a população.

Como conta a criadora da série ao Omelete, a ambientação não foi uma escolha aleatória, já que não só o Brasil tem a maior comunidade ucraniana fora do país, mas também pela tradição folclórica do Leste Europeu. “Quando você começa a buscar e pesquisar na história, você vê que a Ucrânia era o berço da bruxaria e do paganismo. Essa bruxa que a gente conhece hoje - a bruxa da floresta - vem de lá”, explicou Ana Paula Maia. “É um lugar que para mim é fascinante, e temos um pedaço desse lugar no Brasil.

Durante toda a coletiva de imprensa, a equipe descreveu o projeto como um “drama sobrenatural”, e é possível entender isso a partir do primeiro episódio. O tipo de horror que Desalma parece buscar é muito mais frio, lento e sombrio. O foco é construir uma atmosfera bastante densa, da agonia dos moradores de um local assombrado. Isso é muito bem entregue por direção de arte e fotografia de altíssimo nível, que não deixam nada a desejar quando comparadas com séries estrangeiras, como a recente The Third Day.

Na verdade, o objetivo todo do programa é criar esse desconforto pelo deslocamento. A série entende que há certo choque em contar na TV brasileira uma trama profundamente europeizada, através de um subgênero do terror tradicionalmente inglês. Seja por Cássia Kiss como bruxa soltando maldições em russo, ou pelos complicados sobrenomes eslavos, a ideia é passar ao espectador a mesma sensação de desconjuntura que sentem os habitantes de Brígida, isolados no país que habitam e distantes de sua terra natal.

Como explica a atriz Maria Ribeiro, que vive a protagonista Giovana Skavronski, reinterpretar esses símbolos europeus na televisão nacional também dá uma chance do resto do mundo ver facetas diferentes da produção brasileira. A decisão, por sinal, já deu resultados, uma vez que o seriado foi escolhido para ser exibido no Festival de Berlim. “Ir para Berlim com uma série de TV assim foi muito incrível, e importante, porque normalmente os festivais consomem uma brasilidade mais óbvia, de violência, da pobreza ou do Nordeste”, falou aos jornalistas. “Aí a gente chegou lá com uma série tipo dinamarquesa, que podia ser de qualquer lugar do mundo. Não tem um 'Selo Brasil'. Amamos esse selo, mas é muito legal mostrar que podemos fazer qualquer tipo de dramaturgia.

Tema o Sangue Antigo

Durante toda a coletiva, através de termos como “pós-horror” ou o já citado “drama sobrenatural”, é possível ver um esforço dos criadores de distanciar Desalma da imagem de um terror tradicional. Mas a série mesmo abraça o gênero sem medo. Logo no primeiro episódio é possível sentir um gostinho de influências como O Iluminado (1980), A Profecia (1966) ou então O Homem de Palha (1973), o maior nome do folk horror. No âmbito pessoal, a equipe do seriado também não esconde o carinho por obras clássicas do terror.

"Eu cresci na década de 1980, e fui uma criança que consumia filmes de terror”, relembrou Ana Paula Maia. “De verdade, minha mãe deixava eu ver. Então muito pequena, com cinco ou seis anos, eu já via filmes de terror, e até hoje eu assisto todos os subgêneros, tudo relacionado a terror, suspense ou sobrenatural”. Quando se trata de horror televisivo, a criadora tem uma enorme influência em sua vida: “Sou muito fã de Arquivo X, assisti durante nove anos. Saí da adolescência e entrei na fase adulta vendo Arquivo X. [...] Aquilo muda minha vida. Isso que me deu vontade de começar a escrever para a televisão".

O carinho pelo gênero, combinado com o desejo de explorar o meio televisivo, preparou o caminho da autora até Desalma. Mas o grande ponto de virada para Ana Paula Maia foi quando ela deixou o Rio de Janeiro e se mudou para Curitiba em 2015. “Quando vim para cá, primeiro você depara com comidas esquisitas, e depois vê uma igreja diferente, e começa a identificar esses elementos que eram muito ricos. Aqui tem festa folclórica, que é uma coisa muito estranha em que as pessoas se vestem e dançam como há dois mil anos. Isso está acontecendo hoje, agora, e como alguém vindo do Rio de Janeiro e se deparando com isso, foi muito impactante e muito positivo. O resto do Brasil precisa saber que isso existe.

Terror no Brasil ainda é um assunto muito discutido. Por aqui, o gênero é muito carregado por curtas e produções underground que conquistam festivais afora, e os últimos anos viram um aumento em um filmes nacionais chegando aos grandes circuitos. No entanto, ainda há muito a melhorar. Para a criadora, buscar diferentes abordagens, culturas, tons e locais para as obras é o segredo para dar o próximo passo.

Nunca acreditei que o brasileiro não poderia escrever histórias de terror. É uma coisa que sempre escutei, e realmente o que eu havia visto até então era ruim. Por que não tentar escrever uma história com os temperos e dramas corretos, e com o lugar certo?”, questionou Ana Paula Maia.

Já viajei para a Sérvia e para a Croácia, porque eu já publiquei por lá, então já tinha ido ao Leste Europeu, já tinha visto essa cultura de lá. Quando esbarrei com a Ucrânia dentro do Brasil, achei que dava para contar algo através de um elemento com o qual já tinha me identificado muito”, relembrou. “Encontrei o que eu queria para contar essa história dentro do meu país.

Desalma estreia no catálogo do streaming Globoplay em 22 de outubro.

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