Yahya Abdul-Mateen II em cena de A Lenda de Candyman

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A Lenda de Candyman | Conheça o personagem antes de ver o novo filme

Ícone do horror foi criado por Clive Barker e adaptado às telonas por Bernard Rose

Eduardo Pereira
26.08.2021
20h29
Atualizada em
27.08.2021
12h22
Atualizada em 27.08.2021 às 12h22

Diga o nome dele cinco vezes na frente de um espelho, e ele aparecerá para te matar. Essa é a base da lenda urbada do Candyman, criada pelo escritor britânico Clive Barker no conto "The Forbidden", de 1984, e adaptada ao cinema em uma trilogia de filmes iniciada com O Mistério de Candyman (1992), do diretor conterrâneo Bernard Rose (Minha Amada Imortal). Se nas páginas a figura do vilão era predominantemente envolta em mistério, nas telonas ele ganhou um rosto, uma raça e um passado, desenvolvidos na colaboração entre Rose e sua estrela, o ator norte-americano Tony Todd (A Noite dos Mortos-Vivos).

Quase 30 anos depois de sua primeira aparição nas telonas, Candyman volta à vida em A Lenda de Candyman, filme escrito por Nia DaCosta, Jordan Peele e Win Rosenfeld. Retomando a trama do original, bem como as influências do conto de Barker, esse novo capítulo na saga de horror pretende não só modernizar o personagem, como oferecer a ele uma abordagem até hoje inédita: partindo de um ponto de vista artístico negro. Com um cânone já rico em informação, o Omelete organiza abaixo tudo que você precisa saber sobre o personagem, antes de assistir ao novo filme. Confira:

The Forbidden (1984)

Ilustração publicada na primeira edição do conto "The Forbidden", de Clive Barker
Reprodução

No conto de Barker, Candyman é o nome de um ser temido pelos moradores de um decadente conjunto habitacional de classe média em Liverpool, na Inglaterra. Presa a um relacionamento infeliz, a jovem Helen Buchanan chega ao local por conta de uma pesquisa acadêmica sobre pichações, que abundam nas moradias da região. Só que, conforme mergulha na realidade do local, ela passa entender que mensagens grafitadas como "doces para o doce" se referem à crença coletiva na sinistra figura. Cética, é só quando confrontada por ele que ela passa a acreditar.

Simples e direta, a história foca exclusivamente na anatomia de uma lenda urbana, partindo do pressuposto que o consciente coletivo seria capaz de dar vida a um mito como o de Candyman. O monstro é descrito como um homem de pele amarelada, com um gancho no lugar de uma mão, voz suave e aroma como o de algodão doce, o que o faz ser constantemente rodeado por abelhas. O uso dos insetos como artifício narrativo se amarra diretamente às descrições detalhadas da estrutra de colmeia que compõe as residências do conjunto habitacional, servindo também à temática da união de crenças.

O Mistério de Candyman (1992)

Tony Todd como Candyman em O Mistério de Candyman (1992)
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Determinado a fazer um filme de terror diferente dos que movimentavam o cinema hollwoodiano nos anos 1990, Rose aproveitou a amizade que tinha com Barker para adquirir os direitos de adaptação, e decidiu mover a trama para os Estados Unidos para evitar que o filme fosse redublado em sotaque norte-americano (como havia acontecido com Hellraiser, filme escrito e dirigido pelo autor de "The Forbidden"). Ao explorar Chicago, o cineasta achou fascinante o conjunto habitacional de Cabrini-Green, um espaço famoso na região por ser "barra pesada", mas que era na realidade alvo de grande preconceito por abrigar em sua grande maioria pessoas negras de baixa-renda.

Rose, decidido que Candyman deveria ser interpretado por um homem preto, escalou Tony Todd no papel principal, que aproveitou a oportunidade para construir a trágica história por trás do mito. No filme de 1992, é revelado que Candyman foi Daniel Robitaille, o filho de um escravo que cresceu para se tornar um talentoso e culto pintor, eventualmente torturado e morto por racistas depois de se apaixonar pela filha de um rico fazendeiro branco. Embora a ligação com Cabrini-Green não seja explicada a fundo, já que Robitaille era nativo de Nova Orleans, a descoberta dava uma nova profundidade temática à história, que passava a incorporar discussões sobre raça, classe e gênero.

Candyman 2 - A Vingança (1995)

Tony Todd como Candyman em Candyman 2 - A Vingança (1995)
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Nesse segundo filme, que revela em maiores detalhes (mostrando, pela primeira vez) o passado de Candyman, ele retorna à cidade de Nova Orleans. Em cenas de flashback, vemos como um grupo de ricos e brancos moradores da região o atacaram, cobriram de mel e soltaram sobre ele um enxame de abelhas. Depois, cortaram fora sua mão direita, a substituindo por um gancho. Então, o incendiaram e assistiram à sua morte. Ao revelar a intensidade da dor de Daniel Robitaille, o filme expandiu a tragédia por trás do vilão, mas também viu um pouco do mistério que fazem dele tão magnético se esvair.

O que acabou prejudicando mais do que ajudando o mito de Candyman, entretanto, foi a trama sobre um espelho específico que guardava a alma da entidade. Em teoria, ao destruí-lo, Candyman morreria de uma vez por todas; conceito que ia de encontro à ideia de que, para existir, bastaria que sua lenda continuasse a circular. O filme ainda dispensava a ambiguidade do original, fazendo com que as ações de Candyman parecessem sempre ditadas pelo seu passado. Fracasso de crítica, o filme fez dinheiro o bastante para garantir uma última continuação lançada diretamente em Home Video.

Candyman 3: Dia dos Mortos (1999)

Tony Todd como Candyman em cena de Candyman 3: Dia dos Mortos (1999)
Reprodução

Nessa despedida, a bagunça se consolida em um filme terrível que desmancha toda a mística em torno do personagem ao associar sua existência a pinturas. Não mais uma lenda urbana sustentada por boatos, nem uma maldição de um espelho, ele agora é a manifestação de quadros que, quando destruídos, o destroem junto. É uma coisa ótima que A Lenda de Candyman ignore tanto Candyman 2: A Vingança, quanto Candyman 3: Dia dos Mortos, e ainda adicione mais profundidade à mitologia já rica quando apresentada lá em 1992. Ainda assim, tendo lido este resumo, você poderá encarar a nova versão do personagem sabendo exatamente quais horrores narrativos felizmente ficaram de fora, e podendo curtir tranquilamente os mantidos em tela por serem realmente bons.

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