Rosario Dawson em The Mandalorian

Créditos da imagem: The Mandalorian/Disney+/Reprodução

Séries e TV

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Análise: Incerta sobre o futuro dos Jedi, Star Wars aposta na saturação

Nova leva de séries (e filme) deixa o futuro da saga em aberto

Marcelo Hessel
14.12.2020
14h54
Atualizada em
15.12.2020
09h05
Atualizada em 15.12.2020 às 09h05

A nova safra de produtos de Star Wars no cinema e na TV, anunciada na semana passada durante o evento da Disney para investidores, reforça a ressaca deixada pela trilogia de Rey e Kylo Ren, um reboot não assumido que, indeciso entre honrar o legado dos Skywalker e apresentar uma nova geração, alienou os fãs. A Lucasfilm não sabe direito que rumo dar aos jedi e a solução, por enquanto, é saturar a franquia com narrativas paralelas.

Quando Mandalorian estreou com sucesso ano passado, ajudado pela revelação do Baby Yoda, na mesma época em que A Ascensão Skywalker foi mal recebido no cinema, o então presidente da Disney, Bob Iger, disse que “o futuro de Star Wars está na televisão”. Isso agora se reflete na paralisia da franquia nas telonas: apenas um filme foi anunciado, Rogue Squadron, de Patty Jenkins, sobre os pilotos da Aliança/Resistência, prometido para 2023.

Historicamente, Star Wars sempre precisou dos conteúdos de apoio para dar estofo à sua mitologia junto aos fãs, porque afinal as trilogias saíam esporadicamente enquanto o Universo Expandido em games, brinquedos, livros e quadrinhos enchia o mercado. Uma nova trilogia jedi imediatamente após A Ascensão Skywalker, portanto, já parecia improvável, pelo próprio histórico da saga. A diferença é que a Lucasfilm arriscou, em anos recentes, levar ao cinema produtos que têm vocação para ser linha auxiliar (Rogue One, Solo), e agora - com o movimento dado no Investor Day - sinaliza que vai voltar ao feijão-com-arroz mais garantido.

As séries anunciadas denotam esse enfoque mais conservador; apenas uma tem o potencial de refundar a mitologia e reorganizar o universo da saga: The Acolyte, sobre o passado dos sith, com a criadora de Boneca Russa, Leslye Headland. A série terá uma protagonista feminina, segundo a Variety, e deve se passar cerca de 200 anos antes da era do Império. As demais já surgem com cara de filler, entre elas Rangers of the New Republic, que se especula ser um derivado de Mandalorian com os oficiais a serviço da Nova República (o que já é percebido em Mandalorian no arco de Cara Dune).

A não ser que a série solo de Ahsoka Tano dê uma guinada de 180 graus, e a coloque de volta à rota da Ordem Jedi, o que se espera da aventura estrelada por Rosario Dawson é também uma narrativa paralela, afinal a padawan de Anakin escolheu um caminho de independência para si. Vai ser surpreendente se Star Wars sugerir uma reorganização dos jedi a partir de Ahsoka, talvez colocando a personagem para encontrar Rey num contexto de Primeira Ordem. Ahsoka é muito querida pelos fãs, e sua entrada em Mandalorian sugere que ela tem capacidade de liderar um arco próprio e engajar os espectadores, mas isso seria suficiente para refundar os jedi?

Ao longo dos anos, os licenciamentos de ficção de Star Wars foram uma forma de dar vazão à imaginação dos fãs profissionais. Pelo menos uma série nova tem essa característica de “fanfic oficial”, Visions, com curtas-metragens animados por criadores japoneses - mais ou menos o que a WB fez com Animatrix para bombar o lançamento de Reloaded e Revolutions. De resto, a Lucasfilm aposta no carisma de personagens para sustentar e atender a curiosidade dos fãs: A Droid Story, Obi-Wan Kenobi, Andor e Lando. Até os coadjuvantes de Clone Wars têm espaço, em The Bad Batch, sobre a “leva ruim” de clones apresentados na sétima temporada do desenho.

É sintomático que Dave Filoni, o especialista em animação que prosperou como protegido de George Lucas na televisão, trabalhando com liberdade nas animações dos anos 2000 e 2010, esteja agora ganhando um protagonismo maior (Filoni deve produzir pelo menos Rangers, Ahsoka e The Bad Batch). Depois de estrear como diretor de live-action em The Mandalorian, Filoni vai ocupando o vácuo deixado por Lucas e também por J.J. Abrams como uma mente criativa por trás do universo todo. Resta saber se ele vai ganhar, eventualmente, a licença de prospectar caminhos novos, ou se vai se consagrar mesmo como o especialista nas notas de rodapé de Star Wars.

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