Imagem de Star Wars: A Ascensão Skywalker

Créditos da imagem: Star Wars: A Ascensão Skywalker/Reprodução

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Star Wars - A Ascensão Skywalker e a crise da cultura de fã

Trilogia pensada para renovar a saga termina evidenciando os problemas da nostalgia

Marcelo Hessel
19.12.2019
18h03

[Spoiles de Star Wars - A Ascensão Skywalker abaixo]

Para Mikhail Bakunin, expoente do anarquismo, a paixão para destruir é uma paixão criativa, e não é difícil entender por que Star Wars: Os Últimos Jedi é um objeto estranho na relação que Hollywood e fãs mantêm hoje em dia. Se você pensar que o filme começa com Luke jogando seu sabre de luz fora e termina com um moleque fazendo seu próprio sabre de cabo de vassoura - o maior atestado do poder da imaginação do fã - então essa iconoclastia com afeto do filme de Rian Johnson realmente não tem nada a ver com a forma como se consomem filmes de franquia na era da cultura de fã.

Star Wars é a franquia central nessa cultura, porque desde sempre soube se aproveitar dos dois principais pilares da nerdice: a curiosidade e o colecionismo. Ora, é como se George Lucas tivesse inventado mesmo a nerdice, e nos anos de ocaso  permaneceu no imaginário popular com seu Universo Expandido de livros que preenchem as lacunas deixadas pelos filmes, com suas linhas de bonecos que dão importância a personagens que são pouco mais que figurantes no cinema. Se hoje o fã reivindica o direito de ser proprietário dos filmes que ama - reivindicação essa que Hollywood incentiva para manter girando seu business no século 21 - então uma boa parcela de responsabilidade nisso recai sobre a saga dos Skywalker.

A Ascensão Skywalker funciona como uma reação ao bakuniano Episódio VIII, mais num impulso corporativo do que necessariamente artístico. É a ânsia do nerd colecionador que o filme procura apaziguar, e não do nerd curioso - este termina absolutamente alienado pelas escolhas que J.J. Abrams faz em direção à mumificação dos personagens, à reverência e à solenidade. Uma vez colocados na estante, preservados em suas embalagens originais, esses personagens se tornam intocáveis.

Chega a ser patológico e também fascinante como o Episódio IX só entende a lógica da mimese para replicar a relação que os fãs têm com Luke, Leia, Han, Lando e os droides nas dinâmicas dos personagens mais recentes. Fazer de Poe Dameron um contrabandista como Han Solo é uma das muitas cerejas nesse bolo. Todo o aproveitamento de Jannah no filme tem essa função; ela só existe porque é um duplo mimetizado de Finn (e pela lógica isso desenvolveria Finn como personagem, por aproximação) e a cena dela com Lando no final chega a ser cômica se pensarmos que Lando foi concebido na época do blaxploitation como um mulherengo inveterado. Na cabeça do fã que precisa atribuir sentidos elevados ao que vê, provavelmente esse diálogo sugere que ‬Lando é pai dela, mas se o personagem tem alguma consistência, então, quando ele pergunta do passado de Jannah, provavelmente Lando só está dando em cima dela.

A coisa fascinante nisso tudo - e que mostra que Star Wars está no ápice dessa crise cultural - é que hoje o fã prescinde do que está acontecendo na tela para atribuir sentidos ao que vê. A cena de Lando e Jannah é isso: o sentido pai-filha foi atribuído há muito tempo, já na divulgação do lançamento, e é validada porque afinal todo mundo parece ser parente de alguém nessa história toda. O comportamento do personagem, a leitura da cena - tudo isso é removido da equação. A única coisa que vale é a memória que se firma pela nostalgia; em entrevistas, o elenco vibra que em Os Últimos Jedi Poe, Rey e Finn estão em mais cenas juntos, como se isso tivesse algum dia sido uma regra em Star Wars (basta ver O Império Contra-Ataca, o episódio mais amado, para comprovar que jedis e militares seguem missões separadas quase sempre).

A memória é traiçoeira, mas a memória na era da veneração a produtos é mais ainda. É por isso também que o Luke Skywalker do Episódio VIII provocou tanto curto-circuito não só no público, mas no próprio Mark Hamill, que não gostou de ver o personagem renegando o que quer que fosse. Ora, não é assim que veteranos de guerra reagem a traumas? Luke demonstrou uma mínima evolução, a título de arco dramático, e isso bastou para deslocar toda a expectativa das pessoas em relação a como ele age, o que representa. Nesse sentido, é óbvio que A Ascensão Skywalker será imobilizado por esse impasse de encontrar no coro de descontentamento um discurso que agrade a todos. Cada um tem seu Luke Skywalker no coração, e Abrams se isenta de escolher um, ao tomar várias decisões em direção à generalização e à inflação. Ele sequer consegue escolher um único cenário para a perseguição na velocidade da luz.

Se O Despertar da Força jogava com uma coexistência de forças e uma relação lúdica de nostalgia (Rey e Finn como fãs da saga, para servirem de intérpretes para a nova geração), a trilogia se encerra aliando-se ao fanatismo: substituindo o que existia (ou o que pode existir) pelo que se pensa que existia. Não deixa de ser uma progressão esperada, numa época em que as fake news refazem o que é verdade ou não. O trailer do novo Caça-Fantasmas, que pega uma fala de Peter Venkman autoirônica e a vira do avesso para fazê-la autocelebratória, só mostra que estamos entrando numa nova fase da cultura de fã, aquela em que a idolatria se transforma em negação.