Daisy Ridley e Adam Driver em Star Wars: A Ascensão Skywalker

Créditos da imagem: Lucasfilm/Divulgação

Filmes

Crítica

Star Wars: A Ascensão Skywalker

Resposta a Os Últimos Jedi, A Ascensão Skywalker busca conforto na simplicidade, atendendo expectativas para encerrar um ciclo sem se comprometer

Natália Bridi
18.12.2019
14h00
Atualizada em
18.12.2019
20h33
Atualizada em 18.12.2019 às 20h33

Por mais que a retórica cinéfila se valha do argumento de que um filme deve ser uma obra fechada, suficiente em si, esse nunca foi o caso com Star Wars. Ainda em 1977, George Lucas estabeleceu que a criação de um imaginário compartilhado — e sua consequente exploração comercial — não está restrita ao enquadramento de câmera ou ao tempo de exibição. Inspirado por filmes seriados como Flash Gordon e também pela intensidade/simplicidade da literatura pulp e folhetinesca (que por ser publicada em partes precisava constantemente e sem rodeios lembrar o público do seu apelo), Uma Nova Esperança começa no meio da ação para depois seguir a jornada do seu herói, deixando pelo caminho subtramas, droides, veículos e criaturas para livros, brinquedos e continuações.

Dessa construção episódica e dos seus temas simples (o bem contra o mal, o oprimido contra o opressor, aprendizado, fé, traição, amizade, amor e redenção), Lucas entendeu como criar uma relação emocional entre o público e obra. A elaboração desse conceito pode não ter sido unanimidade entre a crítica na época, mas assegurou uma base de fãs disposta a levar Star Wars para além da sala de cinema, comprando todos os seus respectivos derivados.

Toda essa contextualização é fundamental para falar de A Ascensão Skywalker. Proclamado como o capítulo final de uma série de nove longas, seria deveras pretensioso não levar em conta 40 anos de história apenas para “julgar o filme pelo filme”. Ainda mais quando o roteiro de Chris Terrio e J.J. Abrams depende tanto da nostalgia da primeira trilogia quanto da lógica muitas vezes questionável estabelecida ao longo dos anos pela franquia. Star Wars é, afinal, uma novela espacial e A Ascensão Skywalker não nega essa essência.

Também é necessário considerar toda a controvérsia envolvendo Os Últimos Jedi, filme antecessor dessa conclusão. Quem preza pela ousadia de Rian Johnson, que deixou muitos fãs enfurecidos com o seu comentário sobre quebra de expectativa em uma franquia baseada em atendê-las, pode facilmente inverter seu discurso para A Ascensão Skywalker, que em nenhum momento se preocupa em surpreender, ainda que muitas reviravoltas componham sua trama.

O contraste entre os dois filmes, inclusive, soa muitas vezes como um bate-boca de luxo entre dois diretores com visões inconciliáveis. Abrams não só desfaz muito dos conceitos apresentados por Johnson, como alfineta sem dó as escolhas do seu predecessor, o que deve gerar o mesmo número de aplausos e reviradas de olho no cinema, dependendo apenas da preferência do espectador. Para não dizer que Os Últimos Jedi é renegado completamente, alguns elementos visuais são aproveitados, como a conexão entre Rey e Kylo Ren, mas no geral há um esforço explícito para ignorar o capítulo, reforçado pela ambientação captada pelo diretor de fotografia Dan Mindel, que refaz o visual estabelecido em O Despertar da Força. Essa necessidade de “correção” leva a um filme apressado em conter muitas ideias em 2h21min, com explicações sendo jogadas e limitadas à boca dos personagens, além, é claro, de soluções mirabolantes facilmente justificadas pela “vontade da força”.

É, de certa forma, um retorno à falta de planejamento narrativo que criou tantas mudanças inusitadas ao longo dos anos — o beijo entre Luke e Leia se tornar um ato incestuoso de um filme para o outro, por exemplo —, mas que não deixa de ser uma marca registrada. Como em qualquer novelão, a precisão dos roteiros em nenhum momento foi determinante para o sucesso de Star Wars, responsabilidade que sempre coube à qualidade dos seus personagens. Se existe uma conexão emocional com o público é por conta de Luke, Leia, Han Solo, Chewbacca, C3PO, R2-D2, Darth Vader e Cia.

O que, aliás, foi o grande desafio da nova trilogia: criar novos personagens tão bons quanto os antigos. Em A Ascensão Skywalker esse objetivo se concretiza em parte, não por Rey, Finn, Poe Dameron e Kylo Ren terem se tornado necessariamente tão icônicos quanto os personagens originais, mas por terem espaço em cena para finalmente desenvolver as suas próprias personalidades além da descrição inicial da catadora que descobre a Força, do Stormtrooper que deixa a Primeira Ordem, do piloto símbolo da Resistência e do Jedi prodígio que se volta para o lado sombrio. Do equilíbrio entre novatos e personagens clássicos surgem os melhores momentos, extrapolando o que seriam apenas cenas de ação para novamente fazer de Star Wars uma aventura.

Enquanto retoma essa qualidade, A Ascensão Skywalker precisa se justificar como conclusão de uma saga. Palpatine ressurge então como uma carta mágica, um deus ex machina para amarrar tudo e qualquer coisa, principalmente os destinos de Rey e Kylo Ren. O desfecho é deduzível, o que não significa que seja insatisfatório. Mais uma vez, é o esperado de Star Wars. Daisy Ridley e Adam Driver se esforçam para dar intensidade ao final, o que se traduz em uma verdade que ameniza os problemas criados por essa ser mais uma continuação de O Despertar da Força do que de Os Últimos Jedi. Há claramente uma lacuna que Abrams, sempre apoiado pela trilha de John Williams, preenche com a disposição do seu elenco.

Retomando elementos apresentados em Star Wars Rebels e deixando espaço para o desenvolvimento de inúmeros derivados (em séries do Disney+ ou em livros e HQs), há também uma preocupação em mostrar a vastidão de histórias da galáxia para esclarecer que esse é o fim de uma era, não da franquia. Há espaço para que coexistam o lado da luz e o lado sombrio, assim como o coração do público e as estratégias de mercado.

Considerando então a formação do imaginário de Star Wars, a necessidade de concluir uma saga iniciada em 1977 e retomar a o arco iniciado em 2015, conciliando passado e presente sem perder a perspectiva de novas possibilidades narrativas dentro do que já foi apresentado, além de contornar com sensibilidade a morte de Carrie Fisher (com cenas elaboradas para aproveitar o máximo da sua presença), ficou difícil para A Ascensão Skywalker ser inovador ou autossuficiente. A solução foi um retorno à simplicidade, ainda mais reverente a tudo que o precede, mas extremamente satisfatória por recuperar pelas linhas básicas da luta do bem contra o mal, do conforto da amizade, da busca por aceitação/realização, o grande tema de Star Wars: esperança. Foi assim que uma ópera espacial ultrapassou os limites da tela do cinema, é assim que essa história segue em frente, sem nunca realmente acabar.

Nota do Crítico
Ótimo