Por que, no Star Wars do Disney+, as subtramas são sempre mais interessantes?
Melhor episódio do 3º ano de The Mandalorian pouco impactou… The Mandalorian
Créditos da imagem: Omid Abtahi em cena de "O Convertido", de The Mandalorian (Reprodução)
Que lufada de ar fresco, no meio daquela que parece ser quase unanimemente a pior temporada de The Mandalorian, apertar o play em “O Convertido”. O terceiro episódio do novo ano, escrito pelo showrunner Jon Favreau ao lado de Noah Kloor (O Livro de Boba Fett) e dirigido por Lee Isaac Chung (Minari), abandona por 90% de sua metragem as aventuras de Din Djarin (Pedro Pascal) e companhia, ao invés disso nos contando uma história paralela ambientada no planeta capital da Nova República, o metropolitano Coruscant.
Por lá, reencontramos o Dr. Pershing (Omid Abtahi), que anteriormente trabalhava como cientista chefe do maligno Moff Gideon (Giancarlo Esposito), e agora faz parte de um programa republicano de reabilitação para ex-oficiais do Império. Enquanto ele tenta vender suas pesquisas - digamos - inovadoras para a Nova República e precisa se conciliar com a ideia de virar só mais uma engrenagem na máquina burocrática que é natural de um governo democrático, quem o ajuda é Elia Kane (Katy M. O’Brien), outra ex-imperial. Os dois se incentivam e compartilham dificuldades de adaptação, mas algo mais sinistro pode estar por trás dessa amizade.
O jeito mais fácil de descrever “O Convertudo” é dizer que ele é um pedacinho de Andor em The Mandalorian. Embora não tenha laços diretos com a trama da série estrelada por Diego Luna, o episódio parece emprestar dela o gosto por abordar intrigas políticas e morais a partir de um ângulo modesto, essencialmente humano, e por isso muito mais envolvente. Esta é a história do que acontece depois de revoluções, de como um sistema falho - embora sem dúvida menos cruel - substitui o outro e deixa, por distração sobrecarregada ou desdém indisfarçado, muitas pessoas caírem pelas suas margens.
O episódio entende e expressa com destreza como essa exclusão ou limitação social, essa relegação ao trabalho automatizado e insatisfatório, desperta e fomenta um ressentimento cozinhado em banho-maria que colore até o pior dos passados com a tinta da nostalgia. Se soa familiar para você que tem aquele parente ou conhecido que vive falando saudosamente dos tempos da ditadura, bom… é porque deveria soar mesmo. Dirigido com sensibilidade e atuado com carisma, “O Convertido” foi o único episódio dessa temporada de The Mandalorian que não me deu aquele soninho básico por volta da metade.
Uma pena que, no grande esquema da temporada, ele tenha sido só uma nota de rodapé. Os personagens - mais especificamente, a imperial infiltrada Elia Kane - até apareceram de novo em cenas brevíssimas, mas o seu impacto na trama é nulo, e sua ostensiva função de mostrar como o Império começou a se reerguer debaixo do nariz da Nova República é pouco para justificar tanto tempo investido. E veja só, não é que o caso de “O Convertido” e a terceira temporada de The Mandalorian se mostra simbólico de como o Disney+ tem conduzido a saga Star Wars?
Ladrões de cena (e de episódio, e de temporada, e de série)
Corta para 2020, em tempos melhores para The Mandalorian. Boba Fett (Temuera Morrison), velho favorito dos fãs de Star Wars, reconquista o seu espaço na franquia com uma entrada triunfal em “A Tragédia” (2x06), e acaba se mostrando a estrela maior da temporada - tanto que Fett é o protagonista da cena pós-créditos, que promete uma nova série só para ele. O ex-caçador de recompensas foi, ao lado de sua braço direito Fennec Shand (Ming-na Wen) e dos Jedi Ahsoka Tano (Rosario Dawson) e Luke Skywalker (Mark Hamill, rejuvenescido por CGI), o coadjuvante que fez The Mandalorian acontecer.
Para ser justo, a segunda temporada da série é melhor que a terceira por uma miríade de motivos, incluindo o desgaste técnico e pressa narrativa óbvios que marcaram o desenvolvimento dos episódios mais recentes. Mas não subestime, nessa fórmula, a ausência de um elenco de apoio significativo, com histórias nas quais a série de fato investe. Com exceção de Bo-Katan (Katee Sackhoff), cuja conversão semi-religiosa se qualifica tecnicamente como um arco de personagem, mesmo que a série tenha se mostrado receosa com os subtextos que ele podia levantar, nada do que The Mandalorian fez com seus coadjuvantes no 3º ano realmente importa.
Corta para 2021, quando a tal série prometida do personagem de Temuera Morrison se materializou em O Livro de Boba Fett, talvez o caso mais grave de produto em crise de identidade da franquia Star Wars até hoje. Hesitante em ceder aos impulsos kitsch do diretor Robert Rodriguez, a série se perdeu em correções entediantes da mitologia da saga, e só ganhou vida de fato quando cedeu espaço… bom, para The Mandalorian. Os episódios que retornaram à saga de Din Djarin ganharam ar de frescor ao lembrarem os espectadores como pode ser boa uma série que reconhece a própria identidade e a persegue sem medo.
E corta para 2022, quando Obi-Wan Kenobi entediou mortalmente até os maiores fãs do personagem interpretado por Ewan McGregor ao estender o que poderia muito bem ser um filme de duas horas em seis episódios de televisão. A graça salvadora da série? Vivien Lyra Blair na pele de uma versão mirim de Leia Organa, encarnando todo o atrevimento e a força que Carrie Fisher imprimiu à personagem em suas participações nos filmes. Quando ela estava em cena, Obi-Wan Kenobi nos fazia perguntar por que diabos a série toda não era sobre ela - apostamos que a sitcom Jovem Leia teria sido um hit.
Andor e Star Wars: Visões fogem a essa regra, mas pudera: uma delas é a história mais realmente autocontida que a Lucasfilm já ousou fazer, com um time criativo totalmente diferente dos outros títulos da franquia; a outra é uma antologia de animação que, por definição, não passa mais de um episódio em cada narrativa e não se conecta muito fortemente a nenhum outro pedaço da história maior da saga. Quando as exceções são exceções porque se afastam totalmente da fórmula que você segue, bom… parece que temos um padrão, não é mesmo?
A culpa é de quem?
Antes do Disney+ e de The Mandalorian, o padrão de ouro para como fazer Star Wars na TV era The Clone Wars (2008-2020), série de animação conduzida por Dave Filoni que abraçava a expansividade da galáxia com um elenco de personagens gigantesco, todos envolvidos no conflito espacial conhecido como as Guerras Clônicas. Os ostensivos protagonistas eram Anakin Skywalker e Ahsoka Tano, mas a série passava episódios e mais episódios sem aparições de nenhum dos dois, focando-se ao invés disso em arcos narrativos que traziam personagens secundários e terciários para os holofotes, amarrando-os muito depois ao fio de trama principal.
A produção veio em um momento histórico no qual Star Wars, já com mais de 30 anos nas costas, precisava mostrar o potencial expansivo de seu universo para abarcar mais algumas décadas de mídia. E The Clone Wars fazia isso tão bem que, quando resolveu investir de forma similar no live-action, a Lucasfilm chamou Filoni para um papel chave nesse desenvolvimento - mas as regras aqui eram outras. Os “arcos” focados em personagens viraram temporadas, às vezes séries inteiras desenvolvidas através de múltiplos anos (The Mandalorian estreou em 2019!), e o esquema vitorioso do showrunner encontrou barreiras.
Acima de tudo, essa distensão da abordagem deixa à mostra a falta de centro no Star Wars do Disney+. Conforme acompanhamos aventuras e desventuras aqui e ali, não há nenhum lugar para o qual essas histórias possam convergir, uma direção narrativa maior para a qual todas elas estão se caminhando. É verdade que Filoni foi confirmado para dirigir um filme da saga recentemente, dando a entender que o longa-metragem pode ser a culminação do universo construído nas suas séries, mas enquanto o projeto não se concretiza o problema na condução dessas produções persiste - falta um elemento aglutinador, um senso de propósito.
Pior ainda é que, mesmo com essa falta de centro, a franquia continua insistindo - sem dúvida inspirada pela Marvel, que é um animal narrativo totalmente diferente e não devia servir de parâmetro para Star Wars - em usar episódios e cenas de uma série para estabelecer ou dar dicas do que pode vir em outra, ainda longe de se materializar. É um jogo perdido, porque resulta em frustração dupla: a trama principal fica sem brilho porque a série não tem tempo ou vontade de aprofundá-la, e as tramas secundárias ficam sem resolução por anos a fio.
Não que a culpa seja exatamente Filoni, que fique bem claro. O que me parece é que a Disney não contratou o roteirista por seu talento criativo, com a ideia justificada que, se alguém poderia descobrir como fazer Star Wars live-action na TV, seria ele. Ao invés disso, Filoni tem trabalhado sob a demanda de aplicar uma ideia que funcionava brilhantemente no lugar onde foi concebida em um outro lugar onde ela simplesmente não se encaixa. É uma missão ingrata, da qual ele tem tentado tirar o melhor resultado possível - mas, conforme o tempo vai passando, fica cada vez mais claro que, nesse caso, “o melhor possível” não passa nem perto de ser bom o bastante.
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