O desabafo de uma pessoa sã em um mundo de fãs de The Last of Us

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O desabafo de uma pessoa sã em um mundo de fãs de The Last of Us

Um rant feito para você que também se sente sozinho no mundo (será que você existe?)

Omelete
7 min de leitura
22.02.2023, às 11H00

[cuidado com spoilers até o episódio 6 de The Last of Us]

Recentemente, discutindo um dos episódios de The Last of Us com uma fã do jogo, eu comentei quão absurdo era que um personagem apresentado e aprofundado em um capítulo é morto no episódio seguinte. “É tudo muito aleatório e descartável, amiga”, eu disse. “Sim! TLOU é brutal!” foi a resposta que recebi. Fiquei confusa. O tempo passou e esta não foi a única vez que uma crítica minha à série da HBO foi mal-compreendida. Em outra conversa, eu expliquei que o episódio três não fazia sentido para qualquer pessoa que não conhecesse Frank e Bill, e que The Last of Us não tinha um foco narrativo claro. “Sim! Cada lugar vai ter uma história!” me disseram. Eu retruquei que isso se chama videogame, e a resposta foi “Sim! É um videogame!”. Desisto. 

Quer dizer, não desisto de verdade, porque afinal aqui estou eu. E estou aqui porque existe algo cutucando a minha cabeça, e é um sentimento comum de quem odiou ou amou algo que é sentido absolutamente de modo oposto por todos ao redor. Até hoje, não encontrei ninguém que compartilhasse meu incômodo com The Last of Us, o que me parece surreal, já que a série - além do talento de seus protagonistas - não apresentou nada realmente marcante. Para mim, esse amor todo deve vir de gamers, amigos de gamers ou pessoas que têm alguma familiaridade com a história (algo que, pelo que aprendi nos últimos meses, abrange o mundo inteiro menos eu). E, por isso, ao ver a expansão do universo de personagens conhecidos, as pessoas se emocionam. 

Mas comecemos pelo começo, meu fator único e peculiar, aparentemente: eu nunca vi nada do jogo de The Last of Us. Antes da estreia da série (ou melhor, antes das notícias que eu, como funcionária de anos do site Omelete, sou contratualmente obrigada a escrever), eu não fazia a menor ideia do que era este universo, seus personagens, ou da alta reverência que existe por esse jogo. Mas a notícia da adaptação da HBO parecia empolgante, não só porque eu sou fã declarada e orgulhosa de qualquer coisa que sai da HBO, mas porque a série vinha acompanhada do nome mais lindo da TV recente: Craig Mazin. Se você esteve por aqui durante a cobertura de Chernobyl, pode perceber que eu caí de joelhos pela série de Mazin, e aguardava por seu retorno há algum tempo. Julgando pela empolgação dos gamers, a história de TLOU também era belíssima. Só apostas certeiras, pensei. 

E começou o primeiro episódio de The Last of Us, com repórteres conversando na TV sobre um possível apocalipse pandêmico. Eu imediatamente gostei. A cena tinha um gosto de Chernobyl e, conforme o episódio foi passando, me vi admirada com a ideia do apocalipse zumbi fungo. Baita ideia, pensei. Que pena que esse episódio dura tempo demais, e que pena que eu não entendia muito mais além disso. A construção do universo, para mim, soava estranha, até que Marlene entrou em cena e me explicou tudo que eu precisava saber. Alívio, pelo menos. 

E então veio o segundo episódio, mais ação, bons zumbis e - principalmente - um ótimo começo. O retorno ao pré-apocalipse, a cientista percebendo a ameaça do zumbi fungo, tudo isso era bom, era o caminho certo. O segundo episódio, para mim, foi um avanço claro e eu estava pronta para dar a chance para The Last of Us. Até que eu testemunhei o episódio três e, desde então, me tornei aquela pessoa solitária e amarga em um mundo que transbordou de amores por The Last of Us. 

Não entendi nada. Por que eu deveria me importar com aquelas pessoas? Segundo a série, não há motivos, realmente. Além de um veículo e suprimentos que acabam em menos de um episódio para frente, Frank e Bill não me impactaram na jornada e isso até não me incomodaria se a história tivesse me tocado em algum nível. Mas - novamente, e eu preciso reiterar isso porque já sinto o sangue nos seus olhos, leitor - eu nunca tinha ouvido falar de Bill e Frank antes. Eu vi um amor bem estranho se desenvolver de uma narrativa construída rápida e pobremente e entendi que o episódio queria que eu chorasse. Mas… por quem? Por essas pessoas que não conheço e não me tocaram? Para mim, tudo do episódio três foi brega, estranho e zero convincente. E para nada. Retomemos a jornada, esqueçam essas pessoas, não voltaremos a elas. Tanto faz. 

Mais do que tentar me convencer desse romance estranho, o terceiro episódio também não me compensou com a única coisa que eu realmente gostava até ali: a ciência. Se no primeiro episódio tivemos cientistas debatendo e no segundo a moça responsável por investigar o primeiro zumbi, daí para frente The Last of Us simplesmente abriu mão desse caminho. Episódios e episódios se passaram e nunca mais vimos relances desse passado científico. Tudo bem, é uma escolha. Mas… a desistência não soa meio estranha? Eu achei que estávamos indo para algum lugar. Não fomos. Mazin largou minha mão e me deixou sozinha rumando episódio atrás de episódio de The Last of Us, esperando que ele retornasse. 

Acontece que a desistência de tramas é parte fundamental da adaptação de The Last of Us. E antes que alguém me venha com “episódios episódicos funcionam”, respondo que essa série não tem nada de procedural. Não, ela não é uma história episódica, em que cada capítulo funciona isoladamente. Ela está no meio-termo entre o episódico e a trama longa, se assemelhando com uma estrutura de fases. Olha só, seria coincidência? Uma adaptação de videogame que funciona como fases? Isso não é resposta, nem justificativa - isso é desculpa. A palavra “adaptação” não deveria ser gratuita. Ao levar uma obra de uma mídia a outra, espera-se que exista alguma adaptação quanto ao seu formato para que ela faça sentido. Uma série que funciona como videogame existe no limbo entre-mídias. Nem aqui, nem ali. 

O episódio da última semana, inclusive, é um perfeito exemplo do que digo. No sexto capítulo, finalmente testemunhamos o encontro entre Joel e Tommy, propósito da existência de Joel e principal objetivo do nosso protagonista desde o primeiro episódio de The Last of Us. Para quê? Não sei também: o encontro veio e se foi, como o vento. Tudo bem, o fã argumenta, Tommy mudou e a ideia é mostrar o distanciamento dos dois. Ok, eu cedo, então peguemos outro exemplo do mesmo episódio: o auge do conflito silencioso entre Joel e Ellie. Em uma cena forte, os dois dizem o que sentem há tempos e um rombo se forma entre os dois. “Eu não sou Sarah!”, ela diz. “Eu não vou te levar!”, ele responde. Corta para a próxima cena, nem um minuto depois, e ele muda de ideia. Então tá bom.

Novamente, como funcionária do Omelete, também tive o privilégio (e a obrigação) de acompanhar The Last of Us com antecedência, o que de certa forma até ajuda no sentimento de revolta que cresce dentro de mim. Pelo menos vendo antes de todo mundo, não há com quem discutir, e quando um episódio vai ao ar, eu já assisti há tempos e não tenho mais tanta reclamação pedindo para sair da garganta. Mas digo tudo isso para argumentar que não tenho um coração gelado. Mesmo desgostando da trama, chorei com a Ellie no episódio sete (aliás, em todo e qualquer lugar que eu escrever de The Last of Us, eu sempre vou pausar para dizer que Bella Ramsey é fator redentor da produção) e, mais do que isso, adorei um personagem apresentado no episódio oito. Espero que você assista logo o penúltimo episódio, leitor. Adianto: ele é ótimo, é tudo que The Last of Us queria ser, desde o começo. Mas demorou tempo demais para chegar, e se eu não fosse funcionária do Omelete, nem teria chegado até ali. 

Eu reitero: fã do game, não estou gritando com você, eu juro. Não duvido que o jogo de The Last of Us seja incrível, inovador, bonito e comovente. Eu, claramente, não teria a menor propriedade para criticá-lo. Estou aqui para questionar a trama televisiva que resultou de The Last of Us. Uma história onde nada leva ao nada, onde tudo é apresentado e imediatamente resolvido, onde não há construção de tensão que dure ou problemática que renda. Entendo que The Last Of Us seja sobre a relação entre Joel e Ellie. Entendo que devo me sentir comovida pelo estado delicado de Joel. Mas para construir isso na televisão, para um público novo, eu preciso de apresentação, estrutura, argumento, desenvolvimento e recompensa. E enquanto The Last of Us insistir em abrir mão de qualquer coisa duradoura, seguirei aqui para criticá-la. 

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