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Scarpetta equilibra morbidez e sofisticação com os clichês do thriller criminal

Com Nicole Kidman, série do Prime Video eleva aposta da plataforma no gênero

Omelete
3 min de leitura
11.03.2026, às 16H14.
Nicole Kidman em Scarpetta (Reprodução)

Créditos da imagem: Nicole Kidman em Scarpetta (Reprodução)

É difícil colocar Scarpetta no mesmo balaio de Detetive Cross, Reacher ou Jack Ryan, embora a princípio pareça muito instintivo fazer isso: são as três, afinal, séries com pique de thriller (algumas mais puxadas para a ação do que outras), produzidas pelo Prime Video, e inspiradas em séries de livro best-seller nos EUA. Mas só uma delas tem três vencedoras do Oscar (Nicole Kidman, Jamie Lee Curtis e Ariana DeBose) no elenco, e digo isso muito mais como um sinalizador de prestígio, de intenção, do que certificado de qualidade.

Dito e feito: Scarpetta demonstra, já em seus primeiros episódios, a ambição de introduzir algo de mais sofisticado nesse filão da série criminal de streaming com origem literária. A começar pela classificação indicativa – para maior de 18 anos –, escancarada nas sequências iniciais do primeiro capítulo, nas quais o diretor David Gordon Green (da nova trilogia Halloween) exibe sem pudor um cadáver feminino nu largado na beira de uma ferrovia, revisitado mais tarde em flashes entrecortados de violência.

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É apropriado, claro, porque Scarpetta acompanha não um espião internacional ou detetive de polícia, mas sim uma médica-legista. É a profissão da personagem título, vivida por Kidman, que volta a trabalhar para o governo da Virgínia (EUA) após dez anos afastada, assumindo logo de cara um caso de assassinato que se conecta, surpreendentemente, a outro investigado por ela em 1998. A série não tem medo de se embrenhar nos miúdos sangrentos da função de Scarpetta, mas essa é só a ponta do iceberg.

Para solidificar a conexão entre os dois casos, a roteirista Liz Sarnoff (Deadwood, Fringe, Lost) lança mão de pulos temporais demarcados com sutileza através de elementos cênicos chave – um telefone mais antigo, uma forma diferente de fazer café, o uso recreativo de ofensas homofóbicas no diálogo. E a escalação é certeira: Rosy McEwen (Black Mirror) está ótima como a Scarpetta de 1998, e lembra assombrosamente a jovem Kidman em certos ângulos de câmera.

O texto, por fim, se mostra hábil o bastante para criar intriga ao abordar os dois casos paralelamente. Quando os créditos sobem, o impulso para dar play no próximo episódio está sempre presente, não importa o quanto alguns elementos da trama segurem o potencial da série. A vida familiar caótica de Scarpetta, que inclui uma irmã extrovertida (Curtis) e uma sobrinha enlutada (DeBose), é o principal freio nesse sentido, e as tentativas que a série faz de conectar esse núcleo com a investigação principal se dissolvem rápido.

Aí, e também na obsessão que demonstra pela tecnologia (uma subtrama importante mostra a sobrinha de Scarpetta conversando com uma versão IA de sua falecida esposa), a série vai descambando para um caminho previsível para o seu subgênero. Na tentativa de se elevar a uma relevância que não tem, ela se aproxima de tópicos quentes com pouca garra, lançando mão de diálogos rígidos que só fazem distrair do que mais interessa. 

Sempre houve, no thriller criminal televisivo, certa inaptidão de tom, uma vontade de falar do corrente sem a fluência necessária para fazê-lo. Série sobre o agora, para gente desconectada do agora. Por vezes, esse desajuste faz até parte do charme do gênero –  mas Scarpetta não é NCIS, e Nicole Kidman não é David Caruso. Aqui, os chavões só se colocam no caminho de uma série que poderia ser mais.

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