O Senhor das Moscas | Jack Thorne fala sobre mudanças do livro para série
A série da BBC está disponível no Brasil pelo Globoplay
Créditos da imagem: O Senhor das Moscas (Divulgação)
Em 2026, o livro O Senhor das Moscas, publicado por William Golding em 1954, ganhou a sua primeira adaptação televisiva pelas mão do roteirista Jack Thorne e do diretor Marc Munden.
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Nesta nova versão, as histórias dos meninos que tentam sobreviver em uma ilha deserta — ao mesmo tempo em que assistem às suas noções de civilidade ruírem — são aprofundadas ao longo de quatro episódios focados em cada um dos quatro personagens principais.
Em conversa com o Omelete sobre as mudanças realizadas nesta adaptação em relação ao livro original, Thorne falou sobre as inspirações por trás de certas cenas e seu amor pela obra de Golding. Leia o bate-papo abaixo, mas cuidado com spoilers!
OMELETE: Olá, Jack, como você está?
THORNE: Muito bem. E você?
OMELETE: Estou ótima. Vou direto ao ponto, ok?
THORNE: Claro.
OMELETE: O livro original é completamente focado na ilha, então eu queria saber se, como leitor, você chegou a pensar que faltava contexto para entender quem aqueles garotos realmente eram.
THORNE: Não, nunca pensei isso. Existem pequenos vislumbres do passado na descrição, especialmente perto do final, quando Ralph fala sobre sua infância. E me pareceu que havia possibilidades ali. Eu tinha uma tela um pouco maior do que Golding teve, porque eu dispunha de quatro horas de televisão, então parecia haver coisas úteis que poderíamos explorar para entendê-los.
Mas a ideia nunca foi que os flashbacks fossem extremamente explicativos. Eles eram apenas momentos, pequenos lampejos de uma vida anterior, e não uma forma de dizer: "Ah, é por causa disso que os garotos são assim", ou "Porque Jack vem desse contexto, ele necessariamente se tornou dessa maneira". Então era sempre algo como: "Vou apenas esboçar um pequeno círculo aqui". Nunca foi a intenção dizer: "Vou recontar a história". Acho que o romance é perfeito. Apenas senti que havia algo que a televisão poderia fazer.
OMELETE: Entendo. Bem, Jack está constantemente em conflito com Ralph, e Roger se torna cada vez mais cruel conforme a história avança. Você acha que existem verdadeiros vilões nessa história? Ou todos os garotos são, na verdade, vítimas das circunstâncias?
THORNE: Não acho que exista um vilão. Não. Acho que essa não era a história que Golding queria contar. É interessante. Quando li o livro na infância, eu odiava o Jack. Odiava mesmo, porque sentia que o conhecia. Eu sentia que o reconhecia do parquinho da escola. Sempre me vi um pouco como o Simon. Eu olhava para aqueles garotos fazendo algazarra e os odiava por isso.
Mas acho que Jack é um personagem extremamente complexo. Na verdade, quando reli o livro mais tarde, percebi que Golding o escreve com enorme ternura. E eu queria capturar justamente essa ternura, essa confusão que existe dentro do Jack. Não é como se ele decidisse deliberadamente fazer algo. Não acho que Jack tenha plena consciência do que está criando ou destruindo na ilha. Acho que ele toma uma série de decisões que vão se acumulando, uma alimentando a outra, até que ele acaba em um lugar muito sombrio.
OMELETE: Essa era justamente a minha próxima pergunta. Jack é o meu personagem favorito. Eu ia comentar que o romance já demonstra certa delicadeza ao descrevê-lo, mas a série acrescenta novas camadas ao personagem. Então como você encontra o equilíbrio entre dar mais dimensão a um antagonista e justificar as ações dele?
THORNE: Esse equilíbrio foi estabelecido pelo próprio Golding. Quando estava adaptando o livro, meu objetivo nunca foi, como você disse, preencher todas as lacunas de forma que tudo ficasse simples. Pelo contrário: eu queria escrever dentro da complexidade que Golding já apresentava. Então esse era o único limite que eu seguia.
OMELETE: Certo. Entre todas as mudanças da série, acho que, na minha opinião, a maior delas é a relação entre Simon e Jack. Eu queria saber de onde surgiu essa ideia e qual foi sua inspiração, já que os dois personagens praticamente não interagem no livro.
THORNE: Sim! Existem duas razões para isso: uma técnica e outra emocional. A razão técnica é que decidimos contar a história por meio de quatro protagonistas, acompanhando os pontos de vista de Jack, Ralph, Piggy e Simon. E parecia que Simon, que é um personagem tão importante para mim — porque eu era um Simon —, era justamente aquele que quase nunca tinha oportunidade de interagir com ninguém.
No livro, o papel principal de Simon é observar, escutar, permanecer atento, mas raramente ultrapassar esses limites. Então pensamos: "Ele precisa de cenas. Precisa realmente participar." Só que muitas cenas com Ralph acabariam interferindo na relação entre Ralph e Piggy.
Então percebemos que certamente existia algo entre Jack e Simon. Há alguma coisa ali, porque sentimos o desprezo que Jack demonstra por Simon praticamente desde o início do livro, quando Simon desmaia. E há vários momentos em que pensamos: por que Simon se afasta tão rapidamente de Jack? Por que Simon enxerga algo em Jack antes de qualquer outra pessoa? Então pensamos que, se passássemos mais tempo acompanhando os dois juntos, isso ajudaria nessa compreensão e também permitiria que Simon tivesse cenas de diálogo, em vez de ficar apenas sentado observando em silêncio.
OMELETE: Ok, falando de outra mudança: a morte do Piggy na série é muito diferente da do romance. Queria saber, novamente, o que motivou essa alteração e se você achava que Ralph e Piggy mereciam aquele momento de despedida.
THORNE: A resposta curta é: sim. Mas, além disso, senti que a jornada de Ralph na série, e acho que isso também está presente no livro, é justamente aprender a compreender Piggy cada vez mais. Ao longo da história, vemos Ralph dispensando Piggy logo de início. Ele não o leva realmente a sério, até chegar ao momento final, quando percebe tudo o que Nicky representava para ele.
Então procurei enfatizar um pouco mais essa trajetória e dar a Ralph a oportunidade de... Nós enxergávamos a jornada dele como a transformação de alguém que via Piggy apenas como "Piggy" para alguém que finalmente enxerga Nicky como Nicky. Essa era a evolução dele.
Além disso, do ponto de vista técnico, isso também significava que Ralph não ficaria sozinho. Nos livros, você pode acompanhar um personagem sozinho por muitas páginas e isso continua absolutamente envolvente. Na televisão, em determinado momento, sentimos a ausência de outra pessoa em cena. Então permitir que Nicky permanecesse vivo por um pouco mais de tempo também deu a Ralph um companheiro enquanto ele enfrentava todas as pressões daquele episódio final.
OMELETE: Só um comentário sobre esse assunto, uma das minhas falas favoritas da série é quando Nicky diz algo como: "Você não tinha como saber que acabaria gostando tanto de mim."
Então, também queria perguntar sobre a minha frase favorita do romance, que é: "Roger afiou a estaca nas duas pontas." Eu realmente queria saber como você estruturou toda a perseguição no final e a conversa com Sam e Eric, porque esse é o meu trecho favorito do livro.
THORNE: Eu também adoro essa passagem. Ela dá arrepios. É aquele momento em que você pensa: "Meu Deus. Agora ele não está mais tentando apenas erguer barreiras. Ele quer machucar." E Roger é um personagem fascinante. Existe uma história de um professor que contou ao Golding que estava fazendo uma peça de O Senhor das Moscas na escola e havia escalado o próprio filho para interpretar Roger. E Golding respondeu: "Por que, em nome de Deus, você faria isso?". Porque acho que, de todos os personagens do livro, o único de quem Golding realmente tinha medo era Roger. Acho que Golding tinha medo de Roger, e isso me parece extremamente interessante.
Quanto à estrutura do final, havia duas coisas em jogo. A primeira era entrar na jornada emocional de Ralph e garantir que acompanhássemos sua crescente compreensão do que realmente havia acontecido, para que, no fim, a ideia de ele ser um animal caçado e decidir que a única saída era desistir fizesse sentido. Porque acredito que, quando ele caminha até a praia no final, Ralph desistiu da possibilidade de ser resgatado. Acho que ele desistiu da própria vida naquele momento. Era preciso construir todos os elementos que levassem até isso.
A segunda questão era aproveitar ao máximo a ilha onde estávamos filmando. Nós amávamos aquela ilha. Era uma ilha desabitada. Queríamos explorar cada canto dela durante a perseguição. Marc Munden, nosso brilhante diretor, foi fundamental nisso. Ele dizia: "Agora vamos para os pântanos. Vocês não vão acreditar no que encontrei aqui e como podemos usar isso nesta sequência." Esses dois aspectos tiveram um papel enorme no resultado final.
OMELETE: Essa é minha última pergunta. Quais personagens você acha que refletem com mais fidelidade seus equivalentes do livro? E quais mudaram mais? E, aproveitando, qual é sua cena favorita do romance original? E qual passou a ser sua cena favorita da série?
THORNE: Espero que a resposta para a primeira pergunta seja o Jack. Espero que ele seja o personagem que mais reflita o original, porque foi aquele sobre quem passei mais tempo pensando. Acho que, em muitos aspectos, ele é o personagem mais importante do livro. Então espero ter conseguido refletir aquilo que Golding pretendia.
O personagem que provavelmente mais se afastou do original, mas espero que de uma forma respeitosa, foi o Simon. Porque Golding escreveu Simon como um garoto envolto em silêncio, e eu precisava fazê-lo falar mais. Então diria Simon.
Minha cena favorita do livro é o momento em que Piggy e Ralph se conhecem pela primeira vez, seguido da primeira reunião de todos os garotos. Adoro o fato de que a primeira coisa que Ralph faz, justamente o protagonista, aquele por quem devemos torcer e nos importar, é trair Piggy. Acho uma decisão brilhante de Golding. É uma escrita incrivelmente sutil. E ela estabelece desde o início que esses garotos não vão agir de maneira perfeita. Eu adoro isso. Você perguntou sobre uma cena criada para a série, foi isso?
OMELETE: Não necessariamente criada para a televisão, mas a forma como ela foi realizada na série.
THORNE: A caçada ao porco. Não pelo que eu escrevi, mas pela forma como Marc dirigiu a sequência. Há um momento em que os garotos emergem do capim alto e depois mergulham novamente nele, desaparecendo completamente. Acho aquilo um verdadeiro feito de direção. Fico impressionado toda vez que assisto. Mas eu adoro o Marc Munden. Acho que ele é um diretor extraordinário.
OMELETE: É realmente uma cena lindíssima. E o Lox [Pratt]... Não sei, há algo no olhar dele que é simplesmente perfeito.
THORNE: Concordo. Acho que o Lox é um ator extraordinário. E todos eles terão carreiras incríveis. Vai ser muito interessante acompanhar como cada um deles vai atravessar essa próxima fase da vida e da carreira, construindo projetos diferentes.
OMELETE: E eu pretendo acompanhar todos eles.
THORNE: Ótimo! Foi um prazer conversar com você. E obrigado por assistir à série com tanta atenção. Foi muito bom conversar com você sobre tudo isso. Obrigado!
OMELETE: Obrigada! Também foi um prazer falar com você!
O Senhor das Moscas narra a jornada em busca de sobrevivência de um grupo de meninos britânicos que fica preso em uma ilha deserta após a queda de seu avião. Sem adultos ou sociedade civilizada por perto, as crianças se esforçam para estabelecer uma rotina guiada por ordem e cooperação. O plano funciona inicialmente, mas logo cede espaço aos instintos mais sombrios da natureza humana e o caos se instaura na ilha.
O livro de Golding, autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, foi originalmente publicado em 1954 e possui duas adaptações cinematográficas amplamente conhecidas; a primeira foi lançada em 1963 com direção de Peter Brook e, posteriormente, veio o filme de Harry Hook, em 1990.
Desenvolvida e roteirizada por Jack Thorne (Adolescência), com direção de Marc Munden (The Sympathizer), a minissérie de 2026 é uma produção da Eleven Films e One Shoe Films, tendo sido originalmente exibida no Reino Unido pela BBC e na Austrália pelo Stan.
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