Christian Slater e Rami Malek em Mr. Robot

Créditos da imagem: Mr. Robot/USA Network/Divulgação

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Mr. Robot chega ao fim com reviravolta grandiosa e respostas satisfatórias

Série se inspira em Twilight Zone para explorar a essência de Elliot, trazendo verdades intensas no processo

Arthur Eloi
24.12.2019
10h44
Atualizada em
24.12.2019
17h26
Atualizada em 24.12.2019 às 17h26

Após criar um gancho bizarro de última hora, a quarta temporada de Mr. Robot chega ao fim com um especial de duas horas que eleva o nível de estranhice da série, mas entrega respostas e grandes viradas.

[Cuidado! Spoilers do finale de Mr. Robot abaixo]

Dividido em duas partes, o “Series Finale” realmente soa como o clímax de anos de desenvolvimento ao usar a nova realidade de Elliot (Rami Malek) para explorar o cerne de quem ele é. O capítulo anterior já havia dado destaque a sua evolução ao longo das temporadas, mas aqui sua mente é colocada à mostra para o espectador cutucar. A parte um mostra a perspectiva do protagonista em meio ao mundo que foi “criado” pela máquina de Whiterose (BD Wong). Ele caminha pelas ruas de Nova Jersey, onde cresceu, mas lentamente percebe que não é o mesmo local de suas dolorosas memórias. Ao encontrar sua recém-falecida mãe, não só viva como também o tratando bem, Elliot entende que está em uma realidade onde tudo deu certo para ele: seus pais o amam, sua criação foi tranquila, arranjou um bom trabalho, é sociável, cheio de amigos e está prestes a se casar com Angela (Portia Doubleday). O hacker sente que precisa ir mais a fundo, e vai até a própria casa para conhecer essa sua versão ideal.

O encontro entre os dois Elliots tem aura surreal, que firma a pegada de The Twilight Zone do episódio. Seja na forma mais aberta e misteriosa como é gravada, a trilha sonora de suspense ou então a conclusão trágica do encontro, não seria surpreendente se a narração de Rod Serling entrasse para amarrar a jornada do protagonista ao desconhecido, assim como na série clássica de 1959. Esse tom torna a parte um bastante potente, ainda mais com uma reviravolta pesada. Em semanas anteriores, Mr. Robot deixaria as coisas assim mesmo para garantir o maior impacto e choque do espectador. Como se trata do fim, o programa então dá continuidade para entregar respostas e fechamento - mas não sem antes deixar as coisas ainda mais estranhas.

Depois de Elliot tentar assassinar seu clone perfeito e assumir seu posto nesse mundo ideal, os eventos rapidamente começam a sair do controle. Sua tentativa de esconder o corpo é frustrada pela polícia - aqui, uma versão de Dominique DiPierro (Grace Gummer) em um cargo bem mais baixo -, e o casamento em si é frequentado apenas por pessoas com a icônica máscara da fsociety. A realidade começa a derreter tal qual uma série de erros na matrix. Isso resulta em momentos de bizarrice marcante, como todas as pessoas ao redor do hacker assumindo o rosto de Mr. Robot (Christian Slater). Quando saí desse pesadelo, o protagonista “acorda” no consultório de Krista (Gloria Reuben). Enfim chegou a hora das respostas.

A psiquiatra - ou uma manifestação dela - então conta que o Elliot que o público conhece nada mais é do que mera personalidade de um Elliot real, alguém que nunca realmente deu as caras na série. É uma brincadeira com o clichê do “narrador não confiável”: mesmo que seja ele que conduza a trama, não significa que sua visão dos fatos seja a correta - seja pela sua falta de conhecimento, ou então má vontade de repassar os eventos reais. Em Mr. Robot, o impacto da revelação é intensificado pela relação que o personagem criou com o espectador, com quem se com comunica como amigo desde o piloto - apenas para aqui reconhecê-lo como voyeur que só se interessa pela ação inconsequente. Para uma série que sempre se inspirou tanto em Clube da Luta, é uma excelente inversão: ao invés de acompanharmos a descoberta do transtorno do personagem de Edward Norton, é revelado que o tempo todo a trama foi focada em Tyler Durden não sabendo que é apenas uma personalidade. Mesmo a cena final, com todas as personalidades encarrando a vista, poderia ser facilmente embalada por "Where is My Mind", assim como no filme de David Fincher. O conflito de identidade é tão grande que envolve e ilude até o público.

Mesmo assim, é uma decisão bastante arriscada de se tomar, que corre o risco de ofuscar todo o seriado nas discussões sobre o que realmente aconteceu, ou se tudo era uma grande mentira. O programa contorna isso, e apela para diálogos explicativos em que Darlene (Carly Chaikin) reforça tudo que realmente aconteceu, para garantir que ainda há um pouco de credibilidade nos relatos do narrador. Não é a melhor escrita de Mr. Robot, mas fecha muito bem tudo que foi construído até aqui, especialmente quando revisita momentos das temporadas passadas sob essa nova perspectiva. Passou muito perto de ser o contrário, mas a série alcança a tão sonhada conclusão satisfatória.

Não há previsão de estreia para a quarta temporada de Mr. Robot no Brasil. As três temporadas anteriores estão disponíveis no catálogo do Amazon Prime Video.