Meu Amigo Bussunda | Como amigo, filha e fã construíram tributo tocante

Créditos da imagem: Pepe Schettino/Divulgação

Séries e TV

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Meu Amigo Bussunda | Como amigo, filha e fã construíram tributo tocante

Cláudio Manoel, Júlia Besserman e Micael Langer revelam bastidores da série do Globoplay

Eduardo Pereira
26.06.2021
12h00

Meu Amigo Bussunda, a série documental do Globoplay que revisita vida, obra e legado do humorista Cláudio Besserman Vianna é, para o público, uma viagem por três sentimentos: a alegria gerada pela brilhante carreira dele, a dor de sua morte abrupta e a saudade que hoje encapsula sua memória. Para seus realizadores, entretanto, é mais do que isso: trata-se do produto de um reencontro com um amigo, um pai e um ídolo, que teve sua vida tragicamente abreviada, 15 anos atrás.

Quando Bussunda morreu, em 17 de junho de 2006, durante a cobertura do Casseta & Planeta, Urgente! na Copa do Mundo da Alemanha, a amizade entre ele e Cláudio Manoel já durava mais de 30 anos. Juntos, foram parceiros em brincadeiras na infância, no jornal Casseta Popular, nos bastidores do humorístico TV Pirata, à frente das câmeras no malfadado Dóris Para Maiores e, claro, com a trupe do revolucionário Casseta. Cláudio estava junto com Bussunda no país europeu, quando o coração do humorista parou de bater; um trauma e uma dor que o impediram, por uma década e meia, de sequer assistir aos plantões de notícias que anunciaram a perda do amigo. O desejo de homenageá-lo, entretanto, foi capaz de lançá-lo não só nesses, como em outros registros emocionantes, fazendo-o assumir o papel de narrador-personagem e co-diretor por todos os três episódios de Meu Amigo Bussunda que reconstroem a vida dele.

Júlia Besserman tinha só 12 anos de idade quando perdeu o pai. A notícia chegou a ela ao abrir os olhos, acordada pela mãe, Angélica Nascimento. Na série documental, ela conta como o trauma acelerou o avanço de sua miopia, impedindo-a de seguir sozinha a tradição que tinha fortalecido sua relação com Bussunda: ir à praia e curtir o mar. Mesmo sendo graduada em Cinema, ela ficou surpresa ao ser convidada por Cláudio para dirigir o último dos quatro episódios da produção. Ainda assim, Júlia não só aceitou, como mergulhou na ideia, transformando-a em um epílogo que mostra mais do que só lembranças, mas também discussões atuais acerca de heranças espirituais e profissionais.

Entre as fortes emoções envolvidas nas experiências de Cláudio e Júlia, Micael Langer surgiu como o olhar mais distante e objetivo dos três, assumindo o papel de equilibrar as trajetórias pessoais de um grande amigo e da única filha de Bussunda com a do público; de um fã que perdeu um ídolo. Dono, até hoje, de coleções não só do Casseta Popular, mas também do rival que viria a ser parceiro, O Planeta Diário, Langer (com quem Cláudio co-dirigiu os documentários Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei e Chacrinha: Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar) foi quem apresentou ao ex-Casseta o documentário que viria a inspirar Meu Amigo Bussunda: Os Diários Zen de Garry Shandling, de Judd Apatow.

Me sentei para conversar com os três diretores de Meu Amigo Bussunda, em um papo que deixou claro como três experiências emocionais e profissionais distintas tiveram de se complementar para realizar uma homenagem sensível que conseguiu capturar diferentes ângulos da pessoas pública e privada do humorista.

Lucas Seixas/Divulgação

“Foi só orgulho, felicidade”, diz Micael Langer

O peixe fora d’água do projeto, entre um melhor amigo e a filha única de Bussunda, Langer se vê como “privilegiado” por poder mergulhar na história do humorista e levá-la às telinhas sem ter de enfrentar a mesma dor que teve de ser superada por Cláudio e Júlia. “Eu não tive essa relação, infelizmente, próxima com o Bussunda, mas ao mesmo tempo eu era um grande fã do grupo e dele também. Acho que eu só consegui pegar a parte boa, então não posso reclamar muito, mas acho que isso também nos ajudou, em termos de equilíbrio, no meu distanciamento natural”, refletiu o cineasta.

“O envolvimento emocional dos dois é muito grande. Não só em relação ao Bussunda, mas às histórias paralelas e aos personagens paralelos que, muitas vezes, na cabeça deles, ganham uma certa importância, mas que a gente precisava, né, dar dois passos para trás para poder ver em perspectiva”, explicou Langer. “Então, cara, eu só tenho a agradecer”.

Para ele, a experiência por trás das câmeras de Meu Amigo Bussunda foi tão diferenciada, graças ao foco conjunto de todos os envolvidos em fazer o seu melhor para prestar uma bela homenagem ao humorista, que quaisquer defeitos da produção sumiram até diante de seu olhar autocrítico. “Foi só orgulho, felicidade, uma sensação maravilhosa. É um trabalho no qual a gente colocou muita dedicação e que, eu acho, transparece isso”, definiu.

Cláudio Manoel: “O primeiro 17 de junho feliz em 15 anos”

Com muita emoção envolvida, abraçar o projeto de Meu Amigo Bussunda e tirá-lo do papel não foi um movimento sem relutância para Cláudio Manoel. “Obviamente, a memória do Bussunda sempre esteve presente, mas eu falava: ‘Caraca… Fazer um documentário sobre um cara que eu conheci para caramba?’ Até que eu falei: ‘Legal, vou fazer’. Eu nunca tinha feito isso, né? O Simonal era uma história que eu achei que era legal e que eu fui conhecer. O Chacrinha, eu tinha mais ligação de telespectador do programa”.

O progresso veio mesmo com o contato com Júlia e Micael, que possibilitaram que a narrativa tomasse forma de vez em três passos: retomar a vida de Bussunda, mergulhar em sua carreira e encerrar não com sua morte, mas com o seu legado e a vida que ele ainda tem em sua filha, família e fãs. “Quando deu isso, todo mundo topou. Eu já fiz milhares de projetos, não é toda hora que isso rola; aliás, é quase nunca, e para mim isso é tudo mérito de Bussundinha. Ele que cativou as pessoas”, explicou Cláudio.

Pepe Schettino/Divulgação

Para o ex-Casseta, o processo de revirar as alegrias e dores vividas ao lado do amigo foi agridoce. O riso e as boas lembranças, bem como a descoberta de registros inéditos, facilitaram o processo (“isso foi legal, trazer muita risada foi legal”), mas há sempre o medo de remexer uma ferida que até então parecia cicatrizada. “Todo dia, por pouco mais de um ano, eu acordava para pegar foto dele, escrever, e tal. Então, tem um quê dessa sensação de uma visita grande, bacana, muito proveitosa, muito curativa, mas vamos ver como a gente lida com essa despedida de novo, eu espero que ela demore bastante”, refletiu.

Ainda assim, uma “mudança grande” foi celebrada sem qualquer ônus: com o lançamento do documentário sendo feito na data do aniversário de uma década e meia da morte de Bussunda, neste ano, Cláudio Manoel pôde ter “o primeiro 17 de junho, em 15 anos, que foi um dia feliz”.

“Eu tinha de abrir a caixinha”, reflete Júlia Besserman

Falar sobre Bussunda é claramente uma faca de dois gumes para Júlia Besserman: de um lado, está claro o desejo constante de relembrar o pai. Do outro, há a dificuldade em manter vivas as palavras, conforme as emoções inundam gradativamente os olhos e a garganta. Enfrentar isso também no processo de construir um documentário sobre ele, não foi tarefa fácil. “A morte do meu pai foi um trauma muito grande, então, como o Claudio falou, ele estava sempre presente, mas sentar e pensar, mesmo, como isso se deu, e como vamos contar essa história, foi muito doloroso”, afirmou.

“Depois, eu acho que ouvir as histórias do meu pai, relembrar, foi gostoso demais. Porque ele era uma pessoa alto-astral, e as pessoas vinham com esse astral bom para dar entrevista”, completou Júlia. Essa contraposição de sentimentos, embalada em muita saudade, acabou sendo construtiva não só para a carreira de Júlia, mas também para sua própria relação pessoal com o trauma da perda de Bussunda. “Me fez perceber coisas que eu ainda não tinha, por mais que eu tenha anos e anos de terapia, tratado muito bem. Agora eu estou conseguindo tratar melhor; acho que o saldo final é positivo”, refletiu.

Jovem, ela recorreu a um meme gerado pela ex-BBB Lumena para sintetizar o saldo da experiência de dirigir o encerramento de Meu Amigo Bussunda: “Ressignificando a jornada afetiva toda, eu acho que o final foi importante. Foi importante lembrar que eu tinha de abrir a caixinha, que não podia mais deixar ela fechada, como eu tinha deixado”.

Pepe Schettino/Divulgação

Histórias, problematizações e ensinamentos

Segundo Langer, mesmo tendo negociado um aumento de minutagem para a série com o Globoplay, muito material produzido para Meu Amigo Bussunda acabou no chão da sala de edição; boa parte do material, histórias engraçadas protagonizadas por ou de alguma forma relacionadas ao humorista. Perguntar a Cláudio Manoel para compartilhar alguma delas é um convite a horas de papo, mas ele se lembrou de uma, curta o bastante para a entrevista.

O Bussunda perdeu um piano”, começou o ex-Casseta. “Ele ganhou um piano do pai, mas nunca foi um bom pianista. Aí, um amigo tinha um bar, então o Bussunda emprestou o piano, porque ia ter música ao vivo. Só que o amigo vendeu o bar. O pai do Bussunda perguntava do piano, ‘cadê o piano’, até o dia em que foi ver e, obviamente, não tinha mais piano, não tinha bar. Aí, o pai dele falou assim: ‘Cadê o piano?’, e o Bussunda, na tranquilidade, respondeu: ‘Pô, pai, eu perdi’”.

O humor de Bussunda podia ser assim, incidental; podia ser na base da inteligência e acidez, ou, como foi muito real na época dos shows musicais da Casseta Popular com O Planeta Diário, ancorado em falas ofensivas e preconceituosas que, para a sociedade atual, seriam claramente condenáveis. É por isso que Júlia, no último episódio de Meu Amigo Bussunda, reflete sobre esse lado mais datado da obra do pai, trazendo o humor de ontem para hoje sob análise de nomes como Fábio Porchat, Danilo Gentili, Diego Serafim e Mhel Marrer. É um segmento muito interessante e rico que merecia, inclusive, um formato só seu para ser explorado pela cineasta. Mas isso é divagação.

É em paralelo com essa discussão que Júlia mergulha nos quatro mandamentos do “Zen-Bussundismo”, a filosofia de vida que guiou Bussunda ao longo de seus quase 44 anos na Terra, e que segue influenciando pessoas por meio de sua obra e memória, mesmo 15 anos depois: 1) Tenha um nome a lazer; 2) Ler é “duca”; 3) Hei de vencer, mesmo sendo legal; 4) Saiba conjugar o verbo "me fodi". Se ela funciona mesmo, pouco importa, o que realmente vale é que, à base dela, Bussunda conquistou admiração para viver enquanto ícone por muito mais que 15 anos após a morte; sobrevida que durará ainda mais com o trabalho de sua filha, seu melhor amigo e um fã, em Meu Amigo Bussunda.

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