Mês do Orgulho LGBTQIA+: RuPaul's Drag Race ainda nos faz felizes?

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Mês do Orgulho LGBTQIA+: RuPaul's Drag Race ainda nos faz felizes?

Da marginalização ao mainstream, a Drag Race se tornou um ícone pop, um sucesso comercial e um inesperado terreno de contradições

Henrique Haddefinir
26.06.2021
14h58

O ano era 2008 e um dos maiores sucessos do circuito de reality shows de habilidades era a competição de costura Project Runway, que, na ocasião, estava na sua quinta temporada. No reality, estilistas criavam roupas em desafios propostos pela produção, em tempo recorde e com baixo orçamento. Mais tarde, eles apresentavam seus looks e alguém era eliminado.

Em agosto daquele mesmo ano, RuPaul – uma das primeiras drag queens do mundo a ganhar notoriedade na mídia – foi jurada convidada. A presença de Ru naquele set, naquele dia, seria provavelmente o impulso definitivo para um projeto que uniria o Project Runway e o America's Next Top Model num híbrido que teria mais sucesso que os dois juntos. Um ano depois, estrearia RuPaul's Drag Race.

Com uma produção quase amadora e uma exibição discreta no LogoTV, os 9 episódios da primeira temporada foram ao ar entre fevereiro e março de 2009. Embora a exibição num canal muito pequeno tenha impedido um grande alcance do programa, ele não passou despercebido pela comunidade LGBTQIA+.

De fato, naquele ponto da história, o foco era simplesmente poder existir na grade por tempo suficiente para causar algum impacto. Para todos os que viviam a realidade drag ou tinham algum contato com ela, a simples existência de RuPaul's Drag Race era um deleite por si só. O cinema já tinha escolhido homens heterormativos para viver drag queens em Priscilla Para Wong Foo, mas a comunidade nunca tinha se visto refletida daquela maneira num produto de mídia.

O boca-a-boca que divulgou a primeira temporada deu resultados - e, quando Drag Race voltou para um segundo ano, já tinha ganhado um banho de produção. RuPaul tinha um ponto para provar: o de que ele conseguiria “vender” o universo marginalizado da arte drag para o mundo.

O documentário Paris is Burning, que mostrava essa mesma cena no contexto da NY do final dos anos 80, foi uma referência importante não só para o reality como para a série Pose. Mas RuPaul viveu aquele momento, e de lá trouxe o shantay, o sashay, o shade e mais uma caixa cheia de marcas culturais potenciais, prontinhas para ganharem o mundo.

A cada novo ano o sucesso ia encostando mais perto. Foi provavelmente entre a quarta e sexta temporada que as coisas foram assumindo uma dimensão inesperada. As celebridades chegaram primeiro, as críticas positivas logo depois, e RuPaul, que já havia dado entrevistas dizendo que a arte drag nunca seria mainstream, precisou engolir a língua.

Em 2016, depois da oitava temporada, veio seu primeiro Emmy como apresentador. Até hoje, Ru segue invicto. 12 anos depois de sua estreia, o programa se tornou um fenômeno, que transformou drags em estrelas mundiais, levou a diversidade até fronteiras nunca antes esperadas e trouxe, junto com o sucesso, as mazelas inevitáveis de quem o experimenta.

You Got Female

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Talvez a primeira rachadura no castelo que RuPaul vinha construindo tenha aparecido durante a sexta temporada, quando o bordão “uhh girl, you got she-male” foi substituído na sala de edição por uma nova frase, em resposta às exigências da comunidade trans de que expressões como “she-male” ou “tranny” (ambas consideradas pejorativas) parassem de ser naturalizadas midiaticamente.

O programa, que até então já tinha tido participantes trans que não se assumiram quando passaram por ele, de repente descobriu sua nova responsabilidade: lidar com as transformações históricas que ele próprio tinha ajudado a iniciar.

RuPaul – ainda com a cabeça nos primórdios dos anos 90 – deu declarações de que mulheres trans não participariam do programa. Pagou a imaturidade intelectual com sangue e foi não só obrigado a se retratar, como também a iniciar uma campanha para reajustar as regras.

Gia Gunn foi a primeira mulher trans a participar (quando retornou no All Stars 4). Na mais recente temporada – a de número 13 – Gottmik foi o primeiro homem trans a competir. Na sexta edição do All Stars, que estreou no último dia 24, Kylie Sonique Love (que participou da temporada 2 antes da transição) adentrou o ateliê bradando “uhh girl, you got female”. Ciclo fechado.

Mas, no mundo do entretenimento, não existe espaço para retratação, tudo é incorrigível. Daí por diante, RuPaul se tornou um mito, com tudo de bom e questionável que isso representa. Embora o programa tenha escancarado as portas, houve quem desdenhasse de sua passagem por lá.

Como acontece com todo reality, participantes com históricos de vilãs culparam a edição, acusaram Ru de oportunismo, foram revelando a chocante (mas comum e comunicada) rotina de um confinamento, que é cruel por essência, colocando o apresentador na esteira da insensibilidade. “A Drag Race não é o que você pensa”, “A Verdade sobre a Drag Race”, “Drag Race: Exposed”... Mesmo com sua popularidade e versões internacionais, o programa, ao mesmo tempo, também nunca foi tão odiado.

Toxic

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Os “esqueletos” no armário começaram a se amontoar. Aos poucos, uma parcela grande dos fãs começou com aquela contraditória postura virtual: responder a um elemento criado para combater o ódio com discurso de ódio.

Os apontamentos de racismo por parte desses fãs ganharam a mídia. RuPaul e a Drag Race foram cobrados. Participantes foram cobradas. De súbito, muitas começaram a se perguntar: “Foi RuPaul quem nos ajudou a crescer, ou fomos só usadas para seu crescimento?”. Uma das vencedoras abandonou a carreira drag e baniu sua ligação com o programa para sempre... A tensão chegou a um ponto em que, no All Stars 4, quando a vitória ficou entre uma competidora branca e uma preta, Ru preferiu declarar um empate. O programa, que antes ditava reações, estava sendo ditado a reagir.

Ao passo em que ficava no ar, o programa passou a reeditar a arte drag, indo do visual pedestre ao high fashion; recebendo competidoras que tinham crescido vendo a atração, remodelando o que o mundo entendia daquela profissão. Drags da “velha guarda” pagaram o preço, mas a juventude das redes e do distanciamento emocional também não saiu imune.

A relação de toxicidade entre a Drag Race e parte dos fãs não estava mais só em como as participantes eram julgadas, mas também na forma como o programa passou a ser uma espécie de “bíblia”, precisando ser seguido como um passo-a-passo de como ser o artista e a pessoa mais compatível com essa nova ordem das coisas. De fato, a arte drag não é só o que se vê na Drag Race e nem o que se revela no programa deve ser tratado como uma espécie de bússola moral. O programa é UM exemplo, e não O exemplo. Essa é parte da história e não a história completa.

Can I Get an Amen?

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De um lado, RuPaul grita “Everybody say Love”; do outro, The Vixen se retira da reunião de ex-participantes quando o apresentador lhe pergunta por que raios ela não pode simplesmente se calar. As porções pessoais das vaidades das participantes vão se misturando com seus discursos políticos. A edição não perdoa deslizes, o público não perdoa negligência. Os fãs “odeiam”, mas querem. O programa cede, porque precisa.

E, apesar de todo caos emocional que tudo isso pode gerar, haverá sempre a conversa em frente ao espelho do ateliê, quando cada uma das meninas expõe suas dores, depois de anos fazendo isso em camarins onde os espelhos não escondiam câmeras. Será mesmo que, apesar dos problemas, o que fica não é a oportunidade de fazer a própria voz chegar mais adiante?

Será que o mundo não ficou um pouquinho melhor depois da Drag Race? De que outra forma teríamos uma convenção abrindo as portas para famílias inteiras visitarem suas queens preferidas? De que outra forma teríamos meets and greets com meninos e meninas vindos de mãos dadas com os pais, só para verem seus ídolos? De que outra forma, no curso da nossa história, você poderia ligar a TV e encontrar homens gays assumindo suas infâncias traumáticas enquanto fazem suas próprias maquiagens?

Só quem foi criança e adolescente até os anos 90 sabe o que é uma televisão deserta de diversidade e de referências seguras. Sim, porque às vezes não há ouvidos próximos dispostos a ouvir. Às vezes só há arte e fantasia como interlocutores de vidas inteiras.

Será que RuPaul's Drag Race não deixa a vida um pouco mais divertida? Seja com Vanjie's em marcha ré, seja com segredos de Alyssa, seja com gritos de halleloo, seja com água nas costas de um pato ou com as pétalas caídas em um número de Velour. Seja porque a sétima temporada tem desafios horríveis ou porque o All Stars 2 é a melhor edição da história. Seja porque Alaska diz “hiiii”, porque “a bolsa entra primeiro” ou porque Laganja diz “okurrrr”... De todas as coisas que RuPaul já disse, não levar as coisas a sério demais é a mais importante delas. É evidente que não é mais possível fazer isso o tempo todo, mas é possível não perder a tentativa de vista.

RuPaul's Drag Race precisa levar a sério o próprio legado, precisa sim assumir responsabilidades, deve e pode dialogar com os seus. Sair da imobilidade da bancada. Já nós precisamos lembrar do que não havia e do que foi alcançado; e do que ainda está por vir. Vamos celebrar essa virada. Não sejamos o clichê que despreza depois da conquista.

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