Exlusivo: Jamie Chung revela os bastidores de Lovecraft Country ao Omelete: “muito selvagem”

Créditos da imagem: Divulgação/HBO

Séries e TV

Entrevista

Lovecraft Country | Jamie Chung revela os bastidores da série: “muito selvagem”

Atriz falou ao Omelete sobre os desafios e a relevância da série da HBO

Gabriel Avila
16.10.2020
19h50

[Cuidados com spoilers do 6º episódio de Lovecraft Country]

Com episódios que funcionam quase que de forma independente, Lovecraft Country entrega uma experiência diferente da outra a cada semana. Certamente uma das maiores foi "Meet Me in Daegu", sexto capítulo da temporada, que sai dos Estados Unidos e investiga o passado de Atticus Turner (Jonathan Majors) durante a Guerra da Coréia. Sem dúvidas, o destaque fica por conta de seu antigo interesse amoroso: Ji-Ah. Em entrevista ao Omelete, a atriz Jamie Chung relembra que percebeu que a personagem era especial antes mesmo de receber o papel:

“Li parte do roteiro para a audição, eram apenas duas cenas para trabalhar. Com essas cenas já sabia que esse material era algo muito especial. Quando li todo o roteiro percebi quão rara é a oportunidade de alguém como eu interpretar este papel, que mesmo sendo coadjuvante ganha um episódio inteiro de origem para explicar de onde vem”. Para a atriz, parte do que torna o papel raro está no fato de que o episódio é praticamente todo falado em coreano: “É raro que o texto seja quase inteiramente em outra língua. Soube imediatamente que era algo que eu gostaria de fazer porque contava parte da minha história. Mesmo que de forma mais ligada à ficção científica, o que contamos é uma lenda muito familiar para a cultura asiática sobre o espírito de uma raposa de nove caudas, o espírito Kumiho”.

Mesmo tendo ascendência sul-coreana, Chung afirma que treinar o idioma foi um enorme desafio: “Meus pais nasceram na Coreia, eu falava com eles, mas não é minha primeira língua então era muito casual. Tive cinco meses para preparar meu coreano com minha técnica e recebi toda a pesquisa que precisava para ajudar a contar essa história, mas houve muito trabalho. Senti como se tivesse voltado para a faculdade durante uma prova muito difícil (risos). Fechei toda a minha vida pessoal, fiquei muito estressada para dar vida a essa personagem. Foi um grande alívio quando terminamos e pude ver o produto final.”

Na série, Ji-Ah é o nome de uma garota que sofre abuso de seu pai e é utilizada por sua mãe para obter vingança. Para fazer seu marido pagar pela monstruosidade, Soon-Hee (Cindy Chang) troca a alma da garota por uma Kumiho, um espírito antigo conhecido como uma raposa de nove caudas que suga a energia vital do sexo. Após se livrar do agressor, a garota teria de consumir mais 100 homens para que a Ji-Ah original pudesse retornar.

Jamie Chung como Kumiho em Lovecraft Country
Divulgação/HBO

Citar raposa de nove caudas a essa altura do campeonato cria uma ligação quase imediata com Naruto, anime cujo protagonista tem a mesma criatura aprisionada dentro de si. Isso não é coincidência, já que a tal Kumiho é uma antiga lenda asiática. Para a atriz, foi importante mergulhar no psicológico de alguém que não tem vivência própria. “Ela não tem nenhuma experiência ou memória traumática, o que por si só já é muita coisa para digerir. E tive que trabalhar em todos esses momentos em que, por exemplo, ‘ok, se eu sou uma Kumiho, o espírito de uma raposa de nove caudas, eu tenho 90 almas em mim. São 90 homens, 90 experiências vindas de suas memórias, mas nada além’. Então ela só tem a perspectiva dessas outras pessoas.”

Parte fundamental da jornada de Ji-Ah para encontrar sua humanidade está no cinema. Algumas das mais belas cenas do episódio mostram a jovem assistindo a Agora Seremos Felizes (1945), clássico do cinema protagonizado por Judy Garland, que serve como uma espécie de aula de como esse espírito ancestral deve se comportar. “Ah, é assim que é uma moça jovem. Olha, é assim que se apaixona’, essas são suas únicas experiências de como é ser uma mulher, através dos filmes. Ela passa o tempo todo ansiosa para viver o que viu nos filmes, como ser amada, ter um relacionamento com sua mãe, ser uma garota ao invés de uma Kumiho”.

Jamie Chung também celebra o fato de que pôde interpretar momentos chave para a vida da personagem. “Vemos em tela a primeira vez em que ela faz uma amizade, tipo ‘ah, essa pessoa realmente se importa comigo’, e isso é novo. É a primeira vez que alguém se importa em ver como ela está, e tudo isso é novo para Ji-Ah ou para essa Kumiho. E então chegamos à primeira vez em que ela se apaixona, em que é engolida pela raiva por perceber que é pelo homem que tirou dela sua única amiga. Para então passar a amar esse homem, desejá-lo e então perdê-lo. Muita coisa acontece com ela e eu poderia falar sobre ela por mais uma hora inteira (risos).”

Jonathan Majors e Jamie Chung em Lovecraft Country
Divulgação/HBO

“Entrar no set parecia uma viagem no tempo”

Questionada sobre qual foi o sentimento ao entrar no set de filmagem que recria a Coreia do Sul da década de 1950, a atriz não hesitou: “Foi muito selvagem”. Esse sentimento, em grande parte, se deve ao empenho de toda a equipe para recriar essa época com tanta fidelidade. “O que amei de trabalhar com essas pessoas, é que elas realmente se importavam com o que estavam criando. Os designers de produção, por exemplo, tiveram muito cuidado para dar autenticidade na casa de Ji-Ah. Eles consultaram um arquiteto sul-coreano que constrói lares como aquele, sabe? A equipe se preocupou muito com detalhes que exigem muita pesquisa, então entrar no set parecia uma viagem no tempo. Nunca estive em uma série de TV que teve a capacidade de fazer algo assim antes, o que torna a experiência muito especial, e também selvagem.”

O horror da vida real

Desde seu primeiro episódio, Lovecraft Country deixa claro que trata tanto do horror vindo da ficção, quanto da vida real. Para Jamie Chung, ter uma produção como essa em uma emissora grande como a HBO é importante para discutir questões que não podem ser esquecidas. “É uma plataforma poderosa. O que a série faz é se ligar com o horror de eventos terríveis que realmente aconteceram. É uma parte da nossa história que muitas pessoas preferem varrer para baixo do tapete e não falar sobre, e o que tem de poderoso nessa plataforma é deixar que as pessoas abordem essas coisas. Quando você pode digerir histórias e injustiças e eventos como esses, então você consegue se curar de certa forma.”

O ponto negativo, para a atriz, é mostrar como ainda não fomos capazes de deixar esses problemas completamente para trás. “Há muitos momentos históricos na série que são amarrados a esse horror que vem da nossa realidade. E é triste, com tudo o que está acontecendo nos Estados Unidos, perceber que não progredimos tanto. Ainda há sistemas que propositalmente prejudicam um grupo de pessoas, que é a comunidade negra”. Porém, para Chung fazer parte deste debate e não deixar que esses problemas sejam normalizados e esquecidos. “É importante que iluminemos as injustiças sociais e acho que a melhor maneira de fazer isso é contando histórias através da arte, TV, cinema e livros.”

A série Lovecraft Country é baseada no romance Território Lovecraft de Matt Ruff. Com produção de Misha Green, Jordan Peele e J. J. Abrams, a série vai ao ar na HBO aos domingos, e também está disponível no catálogo do streaming HBO Go.

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