Lovecraft Country junta guerra e hentai em seu episódio mais gráfico

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

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Lovecraft Country junta guerra e hentai em seu episódio mais gráfico

Prestes a entrar na reta final, trama faz digressão até a Guerra da Coreia

Marcelo Hessel
21.09.2020
11h02
Atualizada em
21.09.2020
11h16
Atualizada em 21.09.2020 às 11h16

O nome de Jamie Chung aparece nos créditos principais de elenco de Lovecraft Country desde o começo. Tirando uma participação rápida como uma versão da Princesa de Marte no sonho de Tic no primeiro episódio, e outra também ligeira e também como projeção no delírio enfeitiçado do terceiro episódio, porém, a atriz ainda não tinha mostrado a que veio. Desde o início ficou claro que sua personagem, a coreana Ji-Ah, é peça fundamental no arco de traumas e redenção de Tic, e Chung enfim provou seu status de coprotagonista no sexto episódio, exibido ontem.

Assim como o episódio do Justiça Encapuzada de Watchmen que saiu premiado do Emmy também ontem, "Meet Me in Daegu" é o momento de digressão no passado recente de Lovecraft Country, encaixado no meio da temporada para dar um respiro à trama principal e energizá-la para a reta até o finale. Não que "Meet Me in Daegu" permita tomar muito fôlego; voltamos à Guerra da Coreia em 1950 e a morte ronda cada instante do episódio, em momentos encadeados com saltos temporais sem muito tempo para pausas. Bem à moda do zen-budismo das narrativas orientais, a trama é dividida pelas estações daquele ano, e ao longo de 1950 entendemos que conexão, afinal, Tic divide com Ji-Ah a ponto de ser assombrado pela mulher.

Vinda na ressaca da Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coreia não é tão presente no imaginário do cinema hollywoodiano; com exceção de clássicos como Capacete de Aço (1951) e Os que Sabem Morrer (1957), esses filmes acabaram diminuídos diante dos relatos do Holocausto - pelo menos do ponto de vista americano. Do lado dos coreanos, porém, é um evento central do século XX e foi marcado por uma brutalidade tremenda, alimentada pelo rancor contra os invasores japoneses anos antes, e pelo movimento anticomunista. Se Lovecraft Country já tem uma tendência conhecida à exploração do horror, então essa tendência encontra no sexto episódio um pretexto ideal para juntar o horror à guerra e potencializá-lo.

E o que temos é um episódio inclemente na sucessão de lembretes de que a guerra desumaniza e dessensibiliza para a morte - tratada ao longo de "Meet Me in Daegu" de um jeito desesperado, sem cerimônias, na câmera sempre em movimento da diretora Helen Shaver. Então a aula de anatomia para enfermeiras coreanas tem a mesma frieza e a mesma velocidade com que enforca-se um comunista na rua, transportam-se moribundos no hospital, executam-se suspeitos de conspiração. O horror gélido e insensibilizado passa (não seria diferente em Lovecraft Country) por fantasias sexuais: o folclore envolvendo a raposa Kumiho entra aqui como uma perversão de hentai, mas isso também é definido pela banalidade com que se encara a morte numa guerra. O sexo também é clínico e brutal.

O episódio abre aí algumas brechas para a crítica ao ponto de vista hollywoodiano. Primeiro, porque parece que tudo o que os americanos sabem e guardam do imaginário da Coreia e do Japão são o sexo proibido e a memória da guerra. Segundo, porque existe todo um procedimento de aculturação em curso aqui, como se a única coisa que pudesse salvar Ji-Ah e a sua Coreia fosse a máquina de sonhos do cinema americano, que nunca para de funcionar, mesmo na tenda mais improvisada. Obviamente o imperialismo cultural está em contexto aqui, na trama de época, mas como Lovecraft Country é uma história de segregação e preconceito, contada da perspectiva dos explorados (os negros de Chicago, protagonistas da história), parece uma boa dose de hipocrisia deixar isso de lado momentaneamente e aderir à gramática dos colonizadores na hora de lidar com a Coreia. Como já havia acontecido no episódio da sereia, o seriado mostra de novo que tem dificuldades em enxergar o estrangeiro (nesse caso específicos, as mulheres estrangeiras) como indivíduos.  

Então voltamos à figura de Jamie Chung, que é afinal o fio condutor e nossa representante dentro desse universo. Talvez pelo exotismo da sua beleza, a atriz seja mais conhecida pelo estereótipo da estrangeira misteriosa, em filmes como Sucker Punch e Pacto Secreto, e aqui ela tem a oportunidade de mostrar mais alcance dramático. "Meet Me in Daegu" talvez seja uma grande obra de revelação para quem não viu os filmes indies de Chung, e ela sintetiza muito bem na economia das suas feições (parece haver uma placa tectônica de emoções em movimento por baixo do rosto de porcelana) a frieza e a impiedade que afinal dão o tom de todo o episódio. 

Do lado de Tic, o personagem continua sendo alimentado em direção à apoteose do seu arco, do qual este sexto episódio oferece um vislumbre, e cabe ao ator Jonathan Majors encontrar como expressar isso, enquanto Tic segue meio à deriva diante do seu destino manifesto. Coincidentemente, Majors retorna a outra guerra, depois de ter aparecido em Destacamento Blood, e pode ser uma sessão dupla muito interessante comparar "Meet Me in Daegu" com o filme de Spike Lee, porque o filme de Vietnã de Lee é bem mais consciente do imaginário americano da guerra e só pega emprestado da gramática visual do colonizador aquilo que importa para seu discurso de empoderamento dos negros. Já Lovecraft Country, mais uma vez, tem seu potencial narrativo acondicionado pelas facilidades da exploração. 

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