Kerry Washington, Celeste Ng e Reese Witherspoon

Créditos da imagem: Reese Witherspoon x Hello Sunshine/YouTube/Reprodução

Séries e TV

Entrevista

Little Fires Everywhere faz o espectador confrontar a questão racial, diz autora

Em entrevista ao Omelete, Celeste Ng fala da adaptação para a TV e a escolha de transformar Mia em uma personagem negra

Julia Sabbaga
14.07.2020
15h30

Em um dos momentos mais legais da série Little Fires Everywhere, uma cena de discussão sobre Os Monólogos da Vagina, um grupo de mulheres senta para debater feminilidade, sexo e maternidade. Nesta sequência, a produção de Reese Witherspoon deixou um easter egg sutil: entre as mulheres presentes está a autora do livro no qual a série foi baseada, Celeste Ng

O momento escolhido para sua aparição é certeiro, já que retrata um raro entendimento entre as duas protagonistas, que representam duas facetas de Ng: “eu tenho tanto Mia quanto Elena dentro de mim”, explicou a autora em entrevista ao Omelete. “Muito da minha vida é tentando equilibrar estas duas personalidades”, ela disse, falando de suas semelhanças com a sua criação. Mas quando a obra foi levada às telas, a distância entre as duas protagonistas ficou ainda mais evidente. 

Na nossa conversa, Ng falou muito sobre a adaptação de Witherspoon da sua obra, e explicou uma das maiores diferenças entre o seu livro e o que foi levado às telas. A escalação de Kerry Washington para a personagem de Mia, que na história de Ng era uma mulher branca, tornou a produção fortemente levada por questões raciais, algo explorado, mas não tão profundamente, no livro: “Quando eu comecei a escrever, eu queria fazer Mia e Pearl personagens não-brancas”, revelou a autora sino-americana. “Sinto que explorar assuntos de classe e poder nos EUA sempre está ligado à raça”.

O problema para Ng é que se Mia e Pearl fossem ásio-americanas, a narrativa de adoção de uma pequena criança chinesa - que faz grande parte da trama - não seria tão cortante. “Ao mesmo tempo, eu não queria fazê-las negras ou latinas, porque sei que não sou a pessoa certa para imaginar a experiência de uma mulher negra ou latina”, explicou a autora, que atribui a mudança totalmente à produtora de Witherspoon, Hello Sunshine. “Amei a ideia logo de cara”, disse Ng, elogiando o trabalho de Washington. “A ideia me fez perceber que a adaptação não se esquivaria do assunto racial, e pelo contrário, se apoiaria nele”

Little Fires Everywhere faz exatamente isso desde a primeira cena. A relação entre Mia e Elena, sempre desequilibrada e tensa, é o que torna o clima da série tão incendiário, e a produção tão importante. Como bem explicou Ng, Little Fires Everywhere “faz o espectador confrontar quanto a questão racial impacta o seu dia a dia”. 

A relevância da série então, em uma era em que discussões raciais estão em alta, se tornou ainda maior, mas Ng se mostrou quase acanhada neste sentido. Para a autora, a pauta sempre esteve aqui, e apenas tem seu momento de maior popularidade agora. “Fico feliz se meu trabalho ajudou a chamar atenção para inclusão e antirracismo, mas muitos, muitos outros têm escrito e falado sobre estas questões há décadas”. Antes de concluir, ela fez um apelo pela pluralidade de vozes: “nenhum de nós pode contar a história inteira, é importante ouvir quantas vozes pudermos”. 

O futuro de Little Fires Everywhere

Ng descreveu a liberdade artística da produtora para a série como um dos fatores mais importantes, comparando as melhores adaptações televisivas a um cover musical. “Você consegue ouvir a melodia familiar e a letra, mas também ouve a interpretação diferente da nova banda”. Seu desprendimento em relação ao material base é uma das mais surpreendentes facetas da série Little Fires Everywhere que, além de mudar etnias, também tem um desfecho totalmente diferente. “Sem entregar nada importante (para os leitores que ainda não viram!), eu posso dizer que o fim diferente da série cria um sentimento de solidariedade e compreensão que não existia antes. Existe um sentimento de que os personagens cresceram, e para mim isso é satisfatório”, explicou a autora.

Quem está familiarizado com o trabalho da Hello Sunshine, sabe que a produtora deu continuidade ao livro Big Little Lies nas telas, mesmo tendo a obra inteira de David E. Kelley adaptada na primeira temporada. Por isso, nada mais natural que questionássemos Celeste sobre o possível futuro de Little Fires. “Não sou totalmente contra uma 2ª temporada. Mas precisaria haver uma boa razão para continuar a história”

A primeira temporada deLittle Fires Everywhere está disponível no Prime Video.