Jodie Comer e Sandra Oh em arte promocional da 3ª temporada de Killing Eve

Créditos da imagem: Killing Eve/BBC America/Divulgação

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Killing Eve | 3ª temporada conquista mesmo sem objetivos claros

Série anda meio sem rumo, mas mantém o alto nível de qualidade e escrita

Arthur Eloi
14.05.2020
15h06
Atualizada em
14.05.2020
15h19
Atualizada em 14.05.2020 às 15h19

Combinando o alto nível da televisão moderna com a praticidade de poucos episódios, as minisséries ganharam mais e mais prestígio na última década. O carinho do público e reconhecimento das premiações cresceram os olhos dos produtores, que deram início à uma tendência de renovar e continuar séries já fechadas.

Por mais que Killing Eve não tenha sido concebida como minissérie, muitos críticos e fãs a consideram como um bom exemplo de obra redonda que não precisava ser expandida. A segunda temporada, ainda que não tão forte quanto a primeira, compensou com ótimas atuações e reviravoltas. Pelo decorrer das coisas, o terceiro ano segue o mesmo caminho: um pouco perdido na trama, mas nunca medíocre ou decepcionante.

[Cuidado! Spoilers da primeira metade da 3ª temporada de Killing Eve abaixo]

O que consagrou a temporada inicial da série, lá em 2018, foi a perseguição de gato-e-rato entre a detetive Eve Polastri (Sandra Oh) e a assassina de aluguel Villanelle (Jodie Comer). As interações entre as duas, e o desenvolver da obsessão mútua, quase romântica, deu vida nova a histórias do tipo, com a complexidade e humor esperados de Phoebe Waller-Bridge, conhecida por Fleabag. O segundo ano perdeu um pouco dessa força por não ter nenhum texto da criadora/roteirista, e também por separar as duas protagonistas. Quando elas enfim foram reunidas, a trama reconquistou o público ao “consumar” o subtexto amoroso e dar novas camadas ao confronto, levando a um final climático em Villanelle matava sua parceira relutante.

A terceira temporada começa com a sensação de que a série se enfiou em um beco sem saída, e o primeiro episódio não ajuda muito a espantar essa noção. Recuperada e longe da vida de espiã, Eve se esconde na rotina de trabalhar em um restaurante em Londres e se lamentar sozinha em casa. Enquanto isso, na Espanha, Villanelle volta ao mundo do crime com a ambição de alcançar um cargo de chefia nos The Twelve, organização misteriosa para qual presta serviços.

Elementos do universo de Killing Eve já haviam dado as caras anteriormente mas nunca com tanto destaque. Simplesmente não eram o foco da narrativa, mas aqui assumem o holofote pela necessidade de novos mistérios, como a morte de Kenny (Sean Delaney) e a introdução de Dasha (Harriet Walter). Sua finalidade é segurar a atenção enquanto a dinâmica entre Eve e Villanelle não recomeça, e cumprem bem o objetivo, mas não substituem a força das interações da dupla . Não é a toa que o momento que a temporada realmente engata é quando as personagens se reencontram.

A cena em que as duas saem na mão em um ônibus, mas terminam com um beijo, serve para relembrar como as personagens de Oh e Comer são a alma da série. Querendo ou não, isso tira um pouco do peso de todo o resto, e levanta dúvidas sobre a abordagem de núcleos diferentes que o programa está tentando desenvolver. Mesmo após as várias intrigas do ano dois, Eve ainda tem problemas matrimoniais com Niko (Owen McDonnell). E, agora, Villanelle fica interessada em relembrar sua infância e vai até a Rússia para reencontrar sua mãe e família. É interessante saber mais sobre o passado e conflitos das personagens, já que dá ainda mais profundidade a elas, mas também soa como se a produção já não soubesse mais como conduzir uma trama principal e passasse a se apoiar nas secundárias.

Killing Eve não decaiu em qualidade de escrita, atuações, direção ou trilha sonora (essa continua um dos destaques, ao lado dos figurinos de Villanelle). Seja na sagacidade de suas tiradas irônicas, ou na violência de seus assassinatos, o programa continua sendo um suspense de alto nível. Mas, considerando que ainda há alguns episódios pela frente e uma quarta temporada garantida, é difícil não questionar se a produção tem algum plano, ou apenas está tateando no escuro por histórias interessantes.

As duas temporadas de Killing Eve estão disponíveis no catálogo do Globoplay. Ainda não há previsão de chegada para o terceiro ano.