Sandra Oh em Killing Eve, da BBC America

Créditos da imagem: Killing Eve/BBC America/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Killing Eve - 2ª Temporada

Sucesso inesperado de 2018 retorna com excelente temporada mais romântica, sombria e tão carismática e afiada quanto o esperado

Arthur Eloi
27.05.2019
20h59

A 2ª temporada de Killing Eve tem um peso nos ombros: atender as altas expectativas do público que espera ser surpreendido novamente. Esse é o primeiro grande obstáculo de séries de sucesso inesperado, e é um que já complicou muitas no passado - como, por exemplo, Mr. Robot, que perdeu o fôlego no ano dois e só foi conquistá-lo novamente no terceiro. Aqui, por outro lado, isso não parece ser o caso, já que o seriado de espionagem entende o que os fãs querem ver - e brinca com essas vontades no processo de realizá-las.

Mesmo tratando com uma temática tão batida quanto “espiãs em um letal jogo de gato-e-rato”, o programa funciona por sua excelente escrita, desenvolvimento de personagem e também uma certa sensualidade ao narrar como a detetive Eve Polastri (Sandra Oh) se torna obcecada pela serial killer Villanelle (Jodie Comer), sempre traçando paralelos entre perseguição e romance. No segundo ano essa sutileza se perde, e a paixão toma os holofotes após Eve esfaquear sua antagonista, mas isso servir apenas para aproximá-las.

Não há dúvidas que o relacionamento das duas sempre foi o principal de Killing Eve, e a série brilha sempre que Oh e Comer estão juntas na tela. As atrizes têm uma boa dinâmica que atende toda a complexidade e variação tonal estabelecida por Phobe Waller-Bridge, assim como fez em Fleabag, sua outra criação: em um piscar de olhos, as cenas passam pelo drama, violência e ironia, sempre de forma orgânica, consistente e quase hipnótica. Após a excelente recepção da temporada de estreia, o elenco está mais confortável do que nunca neste ritmo - e o programa passa a incorporar isso na variedade de arcos.

Enquanto o destaque fica na aproximação da protagonista com Villanelle, a jornada de Eve agora ganha um toque trágico ao se focar nas consequências de mergulhar nessa obsessão. A detetive passa a subir na carreira pelas suas ações, mas também vê o restante de sua vida - especialmente seu casamento com Niko (Owen McDonnell) - e sua própria sanidade afundando aos poucos. Igualar o herói com o vilão também é um clichê das tramas de espião, mas novamente o seriado sabe como dar personalidade ao conduzir o desenvolvimento de suas personagens com carinho, carisma e ótimos diálogos, resultando em uma leva de episódios mais sombria, mas sem perder o charme.

Se o lado de Eve pode ser descrito como sombrio, então a parte de Villanelle é, no mínimo, decadente: a antagonista é colocada nas mais agressivas e humilhantes situações, como buscar refúgio na casa de um psicopata durante sua fuga do hospital após ser esfaqueada. Poderia ser apenas gratuito, mas a série sabe trabalhar isso com um alvo em mente: o espectador. A produção entende que o público tem um carinho especial pela vilã, que trata seu trabalho como assassina de forma habilidosa mas igualmente juvenil, tornando o ato de matar em algo “divertido”. Vê-la em cenas difíceis de assistir gera empatia, até mesmo dó da personagem, e é aí que ela comete alguma atrocidade para relembrar que, no fim das contas, ainda é um ser humano desprezível: nos primeiros episódios, por exemplo, Villanelle faz amizade com um garoto recém-órfão no hospital, e até mesmo se abre e acolhe o menino traumatizado - até que, em sua fuga, ela decide “ajudá-lo” e quebra seu pescoço, supostamente para poupá-lo do trauma de viver sem seus pais e com o rosto desfigurado. Situações como esta acontecem durante toda a temporada, o que é ótimo: nem todo vilão tem redenção e, como é o caso, alguns nem querem ter.

O romance ganha destaque no segundo ano, mas isso não significa que é a única coisa em jogo: o programa dá mais espaço para engordar sua magra mitologia. A primeira temporada é bem preta-e-branca ao alinhar seus protagonistas e antagonistas, mas isso já não é mais o caso aqui, e as coisas se borram bastante com Carolyn Marters - em uma excelente atuação de Fiona Shaw - escondendo sua relação com gente perigosa e, no processo, manipulando Eve para atender suas vontades. Aaron Peel (Henry Lloyd-Hughes), vilão cuja ameaça une Villanelle com Eve, também é uma boa adição ao combinar arrogância caricata de um inimigo de James Bond com as estranheza que o seriado pede.

Assim, Killing Eve volta maior mas sem perder o foco do que quer contar. Mesmo tendo mostrado confiança no ano um, ainda impressiona o controle de ritmo que a temporada tem para desenrolar sua trama de personagens tão complexas em oito episódios, sem filler algum mas também sem parecer corrido. Ajuda bastante que a qualidade do roteiro, fotografia, trilha sonora e, principalmente, atuações só continuaram a melhorar - tarefa muito complicada quando o precedente é de padrão tão alto. Pela segunda vez, Sandra Oh, Jodie Comer e as demais surpreendem ao demonstrar que contos de espiãs ainda tem muito a dizer - basta uma perspectiva inédita, produção afiada e um toque de ironia.

No Brasil, as duas temporadas de Killing Eve estão disponíveis no serviço de streaming Globoplay.

Nota do Crítico
Excelente!