Foto de His Dark Materials

Créditos da imagem: His Dark Materials/HBO/Divulgação

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His Dark Materials ganha ritmo ao unir história de Lyra aos gípcios

Grupo dá frescor e movimento para a produção, que seguia caminho mais lento e cheio de mistérios

Camila Sousa
20.11.2019
16h38

Vários filmes e séries de Hollywood têm coadjuvantes que roubam a cena. Eles não necessariamente tomam o lugar dos protagonistas, mas são tão carismáticos que dão novas camadas para a história. Esse é o caso dos gípcios, apresentados no terceiro episódio de His Dark Materials. Com uma cultura vasta, o grupo é um excelente contraponto para a frieza do Magisterium e será importante para o amadurecimento de Lyra (Dafne Keen).

[Spoilers do episódio “The Spies” abaixo]

O capítulo começa com Lyra, sequestrada por um dos Papões, sendo salva por Tony Costa (Daniel Frogson) e seus colegas. Com isso, a protagonista finalmente conhece o grupo. Nos livros de Fronteiras do Universo, os gípcios são descritos como um povo que vive perto da água e sobrevive do comércio. A série vai além de tal descrição e apresenta uma população com cultura vasta, uma grande ligação familiar e um modo de vida caloroso, que gera um interessante contraponto com o Magisterium. Ao invés de frieza, o que os gípcios trazem para a vida de Lyra é uma ligação mais forte de amizade e companheirismo. Depois de três episódios, a protagonista finalmente encontrou pessoas em que pode confiar.

Isso não quer dizer que o processo seja fácil. Lyra já foi tão enganada pelos adultos que demora para confiar nas pessoas que estão à sua volta. Mas tal atraso faz com que a ligação entre eles seja mais crível. A protagonista começa a entender qual é a realidade daquelas pessoas aos poucos e até descobre que muitas delas conhecem sua história de vida. O que os gípcios trazem para Lyra - e também para o seriado - é mais uma camada de desenvolvimento. Enquanto a jovem tem a oportunidade de amadurecer, o público conhece mais sobre esse universo fantástico.

Com a mudança de cenário, a performance de Keen como Lyra também melhora muito. Longe de ser podada pela Sra. Coulter, a jovem finalmente mostra mais traços de sua personalidade. Outro ponto interessante é a leitura do aletiômetro, a famosa Bússola de Ouro. His Dark Materials está tomando o cuidado de mostrar o talento de Lyra aos poucos. Ela tem sim uma habilidade única para ler a verdade mostrada pelo objeto, mas isso não quer dizer que ela saiba o que fazer de primeira. Todo talento precisa ser lapidado e a personagem entende aos poucos como utilizar sua mente para ter respostas.

A segunda temporada de His Dark Materials já está garantido e isso, ao que parece, deixa a HBO/BBC mais segura para adiantar elementos do segundo livro da franquia. Isso já aconteceu antes na série, quando Carlo Boreal (Ariyon Bakare) atravessa uma fenda do mundo de Lyra para o nosso, e se repete aqui no mesmo núcleo ao mostrar a foto do jovem Will Parry. Nome conhecido para os fãs dos livros, Will tem um papel importante e ter tal trama adiantada é, na verdade, algo positivo. O personagem tem muito a acrescentar e sua apresentação antes não prejudica em nada o desenvolvimento de Lyra - ao contrário, cria um paralelo entre a vida dos dois que deve ser explorado no futuro.

Há ainda dois pontos do episódio que merecem destaque. O primeiro é um diálogo entre Lyra e Farder Coram (James Cosmo) em que há uma grande explicação sobre os daemons. É um trecho expositivo, mas que não incomoda. Os dois revelam como o daemon de uma criança tem a capacidade de mudar de forma, e se fixa em sua juventude, quando a pessoa começa a fixar sua personalidade. Curiosamente, Lyra diz que não quer que Pantalaimon tenha uma forma fixa, fazendo uma bela analogia com o medo de crescer. A verdade é que a garota já foi tão enganada pelas intrigas e mentiras dos adultos, que ela enxerga esse mundo como algo ruim. Para Lyra, o mundo das crianças é mais simples, sincero e confortável.

O segundo ponto é a atuação de Ruth Wilson como a Sra. Coulter. Com mais detalhes revelados sobre a personagem, a vilã deixa sua camada superficial para se tornar completa. Agora é muito mais fácil entender a fascinação de Coulter com Lyra, sua filha, e sua forma dura de ver o mundo. Como é dito na série, Marisa Coulter passou anos sendo tratada como uma pária da sociedade, simplesmente por ter seguido seu coração. Não é de se admirar que hoje ela tenha receio de deixar que os sentimentos - seus e dos outros - sejam livres. Wilson é assustadora e perigosa quando precisa e vulnerável nos momentos certos, algo que será importante para o futuro da personagem.

O teaser do próximo episódio já indica que Lin-Manuel Miranda finalmente será apresentado, algo que promete aumentar ainda mais essa sensação de aprofundamento no mundo de Lyra. Se continuar esse ritmo, His Dark Materials tem tudo para se tornar uma das melhores adaptações literárias feitas para a TV nos últimos tempos.