Alfie Allen: “Garota Sequestrada é série criminal sobre as vítimas, não o vilão”
Astro de Game of Thrones vive sequestrador pedófilo em série do Paramount+
Créditos da imagem: Cena de Garota Sequestrada (Reprodução)
Alfie Allen confessa que se preocupou com a forma como Garota Sequestrada, sua nova minissérie, lidaria com os aspectos mais “espinhosos” da sua trama. Na produção, o eterno Theon Greyjoy de Game of Thrones interpreta Rick Hansen, um professor de ensino médio amado pela sua comunidade no interior do Reino Unido, que esconde uma segunda vida como sequestrador e abusador de adolescentes – incluindo Lily Riser (Tallulah Riley), irmã gêmea de sua aluna favorita na escola.
“Fiquei me perguntando como isso seria retratado na série, mas acho que foi conduzido com sucesso ao simplesmente contar a história do ponto de vista das vítimas”, comenta ele em entrevista ao Omelete. “Foi uma sorte poder contar com todas as mulheres envolvidas nessa série. [...] É angustiante, mas também reforça a capacidade da família Riser de se recuperar de tudo aquilo”.
A seguir, confira a conversa completa entre o Omelete, Allen e sua colega de elenco na série, Jill Halfpenny (que vive Eve, a matriarca da família Riser). A dupla fala dos momentos mais intensos da minissérie do Paramount+, revela detalhes dos bastidores e reflete sobre a responsabilidade dos temas abordados na história.
OMELETE: Olá, Alfie e Jill, eu sou Caio, do Omelete, no Brasil. Prazer em conhecê-los.
ALLEN: Oi, Caio!
HALFPENNY: Prazer em conhecê-lo também!
OMELETE: Alfie, nesta série, sua atuação como Rick tem dois lados: a persona pública e a realidade de quem ele é. Como você trabalhou para uni-las em um só personagem? Você buscou formas de torná-las ameaçadoras de maneiras diferentes?
ALLEN: Eu tive uma boa orientação da Laura [Way, diretora] sobre em quais momentos ter mais leveza. Quando estou fazendo algo e alguém realmente me guia, sugerindo tentar de um jeito ou de outro, é o meu mundo ideal. Como você disse, há dois lados diferentes no Rick, então foi divertido alternar entre essas personas e dar tons diferentes para cada cena que estávamos filmando.
Em termos de entender o personagem, o livro me ajudou muito. Eu não fui instruído a ler, apenas decidi ler enquanto estávamos filmando. Filmamos em San Sebastián [na Espanha], o que foi incrível. A manipulação que Rick exerce sobre a esposa no livro, para fazê-la sentir que precisa dele, é muito importante: você consegue ver o funcionamento interno da mente dele, e como ele realmente se sente em relação a ela. Acho que a atuação da Niamh Walsh [que vive a esposa de Rick na série] mostrou um lado mais suave da personagem, mas foi bom ver a história evoluir para algo que se tornou mais sobre as vítimas, em vez de o Rick estar no centro de tudo.
Bom, é claro que ele está, de certa forma [risos], mas a trama se tornou mais sobre a família Riser e como eles se recuperam daqueles eventos, buscam justiça através disso
OMELETE: Há uma cena, logo no primeiro episódio, onde o Rick entra na sala de cativeiro, tira os óculos e tudo se transforma nele. É quase como uma versão sombria do Clark Kent virando Superman. Como você desenvolveu as diferentes linguagens corporais que precisava ter para esse personagem?
ALLEN: Antes de começarmos a filmar, eu tentei passar um tempo naquele cenário [o cativeiro], para sentir a mudança de energia – o que foi um pouco difícil, porque tudo ainda estava sendo construído, e ficou pronto bem no dia em que começamos a filmar. Mas para mim, em termos de linguagem corporal, eu precisava sentir que aquele era o meu espaço. Eu estava um pouco nervoso com a questão dos óculos, porque o ato de tirá-los e colocá-los foi algo que eu e a Laura conversamos quando chegamos perto da filmagem. Colocar aquele espelho na entrada do cativeiro foi, na verdade, uma adição de última hora, mas definitivamente me ajudou a afastar aquele lado “pilar da comunidade”, professor admirado, de Rick, para então deixá-lo se tornar a versão real de si mesmo.
OMELETE: Jill, a sua personagem, Eve, vive o pesadelo de qualquer pai. Como você é mãe, onde encontrou as bases para essa personagem? Você se identifica muito com a Eve?
HALPENNY: Sim – como você bem disse, é o pesadelo de qualquer pai, não é? Então acho que, de certa forma, quando você está interpretando uma personagem… quanto pior a situação, mais fácil chegar lá, porque você sabe que aquela pessoa está vivendo um inferno. Você pode trabalhar com todos esses diferentes tipos de sentimentos no seu corpo e, na verdade, cada um deles será legítimo, porque esta personagem também estaria passando por todas as emoções que você puder imaginar.
OMELETE: Bom, o Alfie já mencionou que acabou lendo o livro durante as filmagens - e você, Jill, já era uma fã do material original? Qual foi sua reação à escrita de Hollie Overton quando a encontrou?
HALPENNY: Eu nunca tinha ouvido falar do livro – mas, obviamente, assim que consegui o papel, eu o comprei e li. E sabe de uma coisa? É sempre excelente quando você tem esse material junto com o seu roteiro. Você sempre sabe que não vai ser exatamente igual, sabe que haverá variações e desvios, mas achei muito útil, foi ótimo ter esse material extra.
OMELETE: Alfie mencionou que a série foca mais nas vítimas do que no Rick. Existem muitas histórias de crimes saindo agora, que abordam abuso e misoginia, e às vezes elas enfrentam esse tipo de controvérsia. Como vocês acham que Garota Sequestrada lida com esse dilema, e a ideia do quanto deve ser mostrado nessas cenas violentas?
ALLEN: Confesso que isso era algo que me deixava nervoso. Fiquei me perguntando como isso seria retratado na série, mas acho que foi conduzido com sucesso ao simplesmente contar a história do ponto de vista delas. Foi uma sorte poder contar com as pessoas envolvidas – Jill, é claro, mas também Tallulah e Delphi Evans, Niamh Walsh. Elas foram responsáveis por retratar essas histórias, e acho que todas elas vão se construindo em direção a um clímax no final da série. É angustiante, mas também reforça a capacidade da família Riser de se recuperar de tudo aquilo.
HALPENNY: Eu ouvi alguém dizer isso recentemente, e já repeti algumas vezes: acho que as mulheres têm um sentido inato de perigo. Por causa disso, acho que elas são muito atraídas por histórias onde veem outras mulheres em perigo – porque todas nós, quando assistimos, pensamos: “O que eu faria se fosse comigo?", "o que eu poderia fazer de diferente?", "como eu poderia me proteger?". É um sentimento terrível, mas você aprende a conviver com isso. Acho que as mulheres, especialmente, são as que mais consomem esse tipo de história, e acho que esse é o motivo. Estamos todas pensando: "O que eu faria?", “se fosse comigo, como eu escaparia?”, “como aquela pessoa saiu dessa?”. “como ela conseguiu se salvar?”. Acho que estamos quase coletando informações sobre como nos mantermos seguras.
Como você disse, qualquer roteirista ou diretor que conte uma história como esta precisa encontrar um equilíbrio: você está tentando transmitir ao público o quão terrível é uma situação, mas também não quer que seja voyeurístico de forma alguma. Acho que é uma linha muito difícil de percorrer.
OMELETE: Obrigado, Alfie e Jill, e parabéns pela série!
ALLEN: Obrigado.
HALFPENNY: Muito obrigada, Caio!