Hunter Schafer como Jules em episódio especial de Euphoria

Créditos da imagem: Euphoria/HBO/Divulgação

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Segundo especial de Euphoria continua o mergulho psicológico em seus personagens

"Fuck Anyone Who's Not A Sea Blob" mantém o minimalismo e esclarece alguns importantes pontos acerca de Jules

Henrique Haddefinir
23.01.2021
13h46

Jules (Hunter Schafer) nunca foi uma personagem fácil dentro do universo proposto por Euphoria. Sam Levinson, o criador, desenvolvia a menina dentro de uma esfera imagética que parecia ser mais importante do que um olhar atento para o que a movia na história. De fato, o estilo em detrimento da substância seguiu sendo um dos problemas da série, que conseguia sempre – por causa desse estilo – escapar de críticas mais severas. Jules era como a encarnação desse dilema, desfilando pelos episódios como uma figura quase onírica, declarando um amor dolorido a qualquer sinal de gentileza e oferecendo muito pouco de suas verdadeiras motivações. Nenhum personagem consegue chegar muito longe sendo apenas uma alegoria.

Quando a primeira parte dos episódios especiais foi ao ar percebemos que a ideia de Levinson era aprofundar essas psiques tão complexas com uma hora inteira de foco no texto, mais do que nos maneirismos visuais que sim, claro, contribuem positivamente para a identidade da produção, mas não podem justificá-la. A conversa entre Rue (Zendaya) e Ali (Colman Domingo) serviu para nortear um pouco do que paira no consciente da protagonista e do que ela mesma – no inconsciente – não consegue organizar sozinha. Era de se esperar, então, que a Parte 2, focada em Jules, fosse fazer a mesma coisa. E fez.

A ideia foi essencialmente mantida. A “terapia” da Parte 1 virou a terapia propriamente dita, com Jules na sua primeira sessão após os acontecimentos do final da temporada. Euphoria surgia mais uma vez cautelosa a respeito de todo esse estilo que muita vez a engolia. Duas atrizes, um texto calculadíssimo, poucos quadros e uma abertura visual mínima, por onde pudessem passar os códigos que representam a personagem. Num episódio focado em Jules a esquizofrenia visual faz mais sentido, visto que de todos que compõem o elenco da série, ninguém é mais lúdico que ela, para o bem e para o mal.

Transições

Num primeiro momento, Jules tenta fugir de aprofundar-se em questões muito emocionais. A forma que ela encontra de escapar é indo para a camada mais visível, aquela que representa sua aparência, tão marcante para tudo que envolve a personagem desde o começo. Jules fala em “destransição”, em parar de tomar seus “bloqueadores” hormonais, aqueles que impedem a voz de engrossar e os testículos de crescerem, por exemplo. Ela faz uma autoanálise interessante, afirmando ter construído sua imagem feminina baseada no que os homens achavam desejável, mas que, agora, se sentia uma fraude, porque não estava mais interessada neles.

Ali, depois de uma luta diária para exercer o direito de ser mulher, Jules fala em abrir mão disso. Existe um caminho evidente para onde o roteiro quer nos levar, que está diretamente ligado ao que aconteceu quando ela e Rue se separaram. No episódio de Rue vimos como ela enxerga Jules como uma força manipuladora, mas precisávamos entender melhor qual era a perspectiva que Jules tinha disso tudo. A terapeuta tentava desvendar perigo nas declarações da nova paciente, sobretudo porque, para chegar até Rue, Jules continuou sua epifania sobre como estava cercada de mulheres que julgavam outras mulheres baseadas no que está estabelecido como “aceitável”. Rue, quando olhava para ela, era a única que a enxergava de verdade.

Rue/Amy

O texto do episódio amplia o nosso alcance acerca dos sentimentos de Jules sobre Rue. Ficou claro que Jules tinha os mesmos desejos, mas menos determinação. O amor por Rue veio acompanhado de um senso de responsabilidade que pesava em seus ombros. Foi especialmente interessante acompanhar Jules definir o comportamento de Rue de uma forma verdadeiramente distanciada: a sobriedade era sempre condicionada ao quanto Jules estivesse disponível. Um simples não e a recaída poderia ser desencadeada.

Então, mesmo que Jules não falasse muito, o episódio revelava flashes de como sua mãe, Amy, tinha um comportamento que era inevitavelmente correlacionado ao que Jules sentia com relação a Rue. Tanto Rue quanto Amy eram viciadas e também eram as únicas pessoas que tinham “enxergado” Jules da maneira como ela era. Contudo, ambas não entendiam, igualmente, como os próprios vícios afetavam outras pessoas. O momento-chave para isso tudo foi a sequência em que Jules encontra a mãe de surpresa em casa e diz “não” ao pedido do pai para ouvi-la. A menina até cede, mas a mãe já desistiu e se entregou novamente ao vício.

Os dois episódios se fundem de uma maneira prática (quando entendemos porque Jules tem tanto medo com relação a Rue) e de maneira lúdica, quando a sequência da Parte 1, com as duas morando juntas, revela sua continuação, com Jules chegando e encontrando Rue em outra overdose. Trata-se de um sonho recorrente, que tanto expressa a vulnerabilidade de Rue, quanto o pânico internalizado de Jules. Desse jeito, a relação das duas ganha um embasamento, um escopo, que não se esvaziaria diante das piruetas imagéticas que a série costuma dar para enfeitar os episódios. Tanto Jules quanto Rue precisavam disso.

Fantasias

Enquanto Rue encontra a fantasia na forma da alucinação entorpecente, Jules escapa para a internet, para o “ShyGuy”, para “Tyler”, para os homens “heterossexuais” que a violentam, para aquele lugar onde ela pensa que pode se expressar livremente. O roteiro de Sam Levinson ainda tem uma certa dificuldade de administrar a complexidade na forma como Jules compartimenta seus sentimentos por “Tyler” e por “Rue”, colocando tudo no balaio do amor, sem uma fronteira realista sobre ambos. Tudo pode ser fantasia e tudo pode ser realidade para ela. De certa forma é bonito, mas a personagem fica no limítrofe da superficialidade, o que foi um problema durante a primeira temporada.

O reencontro entre as duas, na última cena, acontece num tempo pós-terapia e pós-encontro na lanchonete. Seria o momento das desculpas, do perdão, da quase despedida. Mas, em se tratando de Euphoria é difícil determinar o que acontece de verdade e o que é só um recurso lírico. Muitas vezes as coisas que acontecem tem valor de relevância para o público (porque entramos nas cabeças deles), mas não tem para os personagens, porque, enfim, eles não estão vivendo aquilo de verdade. De fato, a maneira como a primeira temporada terminou foi o exemplo maior desse pseudo hermetismo, dessa confusão.

Ainda assim, a Parte 2 dos especiais enriqueceu muito a nossa perspectiva sobre Jules e tanto a sua sessão quanto a de Rue servirão para preencher lacunas importantes quando a série voltar. As razões de Rue para seguir na própria jornada, o medo de Jules de seguir junto com ela... O que Sam Levinson nos apresentou foi um impressionante registro de tudo que une essas personagens; e também de tudo que as separa.

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