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Créditos da imagem: Travelers/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Travelers - 2ª temporada

Série fala sobre proteger o futuro da humanidade, mas que erra justamente quando trata de destruição global

Henrique Haddefinir
11.01.2019
08h39

Dramaturgias com viagem no tempo são atormentadas por uma palavra que muitos de seus críticos podem nem proferir, mas que ronda pelas escuridões das encruzilhadas narrativas: coerência. A partir do momento em que a viagem no tempo é possível, tudo que aconteceu no passado ou acontece no presente fica em suspenso. O espectador – que não é bobo nem nada – sabe que a possibilidade de desafiar o tempo pode abrir precedentes muito flexíveis e a partir daí tudo que acontece poderia ser resolvido com um pulinho ali no "antes", o que torna os círculos de tensão de uma história, extremamente frágeis.

Há formas de escapar dessa cilada. Lost, por exemplo, começou a falar de viagem no tempo a partir da terceira temporada, mas os roteiros se preparavam para proteger os fatos desde o começo. A força eletromagnética que provocava as viagens no tempo acontecia de maneira aleatória, impedindo o controle dos personagens sobre a mesma. Além disso, qualquer alteração significativa era proibida e respeitada, um recurso que J.K. Rowling (autora de Harry Potter) também usou muito bem. Quando o assunto é a viagem no tempo, a carpintaria textual tem que manter preservados recursos-chave da própria narrativa. Ou isso ou o caos será inevitável.

Travelers começou preocupada com isso e seu primeiro ano foi muito contido nesse sentido. Em grande parte, as missões incluíam alterações pontuais que refletiriam no futuro sem que as pessoas do presente pudessem nem mesmo percebê-las. Essa parecia uma decisão muito sensata, já que os meandros da ficção científica são os que mais flertam com a abertura quase absoluta dos portões da fantasia. A vontade dos roteiristas de começar a testar esse "elástico da coerência" já apareceu nessa primeira temporada, quando o sacrifício da memória de Marcy (Mackenzie Porter) começou a ser colocado em cheque. Eis, então, que a vindoura segunda temporada seria a oportunidade de expandir as possibilidades, sem perder de vista aquela palavrinha tão importante e que já foi mencionada: a tal da coerência.

Século 21: A alta temporada do Futuro

Segundas temporadas de séries de fantasia e ficção científica são problemáticas. Quando os seriados em questão encontram o sucesso, o que acontece na maioria dos casos é um investimento pesado demais em ampliação de mitologia. E aí, começam os erros. Travelers começou seu primeiro ano focando no grupo essencial de viajantes: Phillip (Reilly Dolman), o estudante universitário viciado em heroína; Carly (Nesta Cooper), a mãe solteira a mercê de um marido policial violento; Trevor (Jared Abrahansom), o atleta adolescente problemático, e Marcy. Todos liderados pelo agente do FBI vivido por Eric McCormackEssa equipe – responsável por salvar o mundo do próprio futuro – esbarrava eventualmente em outras equipes. Já na segunda temporada, é como se o século 21 fosse o hotspot da linha temporal planetária e todo mundo quisesse um corpo novo em folha aqui desse lado.

As coisas começam muito bem. Enrico Colantoni entra para o elenco vivendo o viajante 001, o primeiro a fazer parte da experiência e que começa falhando em impedir a morte de um elemento essencial do tal "Grande Plano". A sequência é muito competente e catártica, uma vez que a primeira viagem se dá minutos antes do 11 de setembro. A temporada, então, começa a demonstrar uma organização clara. O viajante 001 é apresentado, uma parte de seu papel na organização da temporada é reservada e então o resto do ano se divide em duas linhas narrativas completamente distintas.

Enquanto no primeiro ano o exagero dos dispositivos e meteoros nos afastava da verossimilhança, nesse segundo perdemos uma boa leva de episódios tratando de uma doença mortal com ares de ebola, que não leva a série para lugar nenhum. A impressão é que o enredo foi providenciado para preencher a quantidade de episódios, uma vez que quando ele se resolve, a série entra nos trilhos e se reconecta com os eventos da estreia. É verdade que a facção (grupo opositor aos planos do "diretor") não é a ferramenta narrativa mais original. No entanto, ela liga os eventos de forma mais coesa, sobretudo quando a figura do viajante 001 surge como antagonista direto dos protagonistas da série.

Além da boa adição de Colantoni no elenco, o crescimento de Grace (Jennifer Spence) foi outra boa decisão. Ela ajuda a dar mais tempo de tela para Trevor (sempre esquecido) e é muito carismática. David (Patrick Gilmore) continua sendo um dos grandes trunfos. Os roteiros valorizaram mais sua relação com Marcy e ele virou uma espécie de elemento essencial para que a série mantenha os pés no chão. A relação de MacLaren com Carly foi abandonada, demostrando também que os produtores sabem o que é melhor para a série. Essa foi uma temporada que apresentou bons momentos discursivos acerca dos questionamentos éticos e emocionais provocados pela "possessão" dos viajantes sobre indivíduos à beira da morte.

O maior dos "poréns" vem das mãos do próprio criador. Brad Wright escreveu um bom episódio procedural em que o "diretor" tentava voltar no tempo inúmeras vezes para evitar o extermínio da equipe de MacLaren. A organização do episódio é incrível, ele é muito bem dirigido, mas termina deixando no ar a pergunta que nenhum fã de ficção científica quer fazer: se o "diretor" voltou no tempo sete vezes para corrigir aquele extermínio, porque raios não fez o mesmo para evitar os fracassos de outras missões? A resposta não é impossível, mas só o exercício da pergunta já deixa lacunas que depois podem ser difíceis de suprir. Travelers se mostrou uma série muito promissora, mas que está sempre a um passo de atravessar limites importantes.

O futuro da produção – mesmo depois daquela última sequência tomada de ganchos – é incerto. Infelizmente, nenhum viajante pode voltar para resetar enganos previamente cometidos. No meio desse mercado de gigantes em disputa não há tempo para perder com irrelevâncias. Se tiver uma terceira oportunidade, a missão de Travelers é ser sucinta. E direta.

Nota do Crítico
Bom