Foto de Travelers

Créditos da imagem: Travelers/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Travelers - 1ª temporada

Ficção científica tem os melhores elementos de uma produção do gênero... E os piores também

Henrique Haddefinir
10.01.2019
16h09

A ficção científica é um gênero de muitos braços, com muitos títulos, mas que traz um traço em comum em todos eles: a vontade de salvar o mundo. Mesmo que ela comece em um âmbito minimalista, em algum momento, de algum jeito, tudo vai se tornar uma questão de salvar o planeta. Pode começar com quatro meninos em bicicletas e sem dúvida vai terminar com alguém precisando matar ou simplesmente apertar um botão que impeça o mundo de ser desintegrado ou possuído. Faz parte da gênese do estilo dar a um ser humano superdotado ou a um ser humano comum, o poder ou o privilégio de ser responsável pela continuidade dos tempos.

A primeira série que referencia Travelers é a intrigante The 4400, que tinha em sua premissa a mesma ideia de futuro afetando o presente, na busca pela preservação da humanidade. The 4400 trazia pessoas que haviam desaparecido em épocas diferentes para o mesmo ano vigente, onde cada uma delas servia como peça para a execução de um plano maior: impedir o colapso que se seguiria à chegada desse futuro teoricamente iminente. Os elementos humanos dessa história (encontrados principalmente no fato dos retornantes serem de épocas diferentes) foram devidamente explorados e logo em seguida, como esperado, perderam espaço para a supervalorização do caos.

Travelers também traz pessoas do futuro, mas apesar da missão ser a mesma, a forma é que guarda o seu diferencial. Logo no primeiro bloco do episódio piloto nos conhecemos quatro personagens. Marcy (Mackenzie Porter) é uma pessoa com deficiência mental que está aos cuidados do governo; Phillip (Reilly Dolman) é um estudante universitário viciado em heroína; Carly (Nesta Cooper) é uma mãe solteira a mercê de um marido policial violento e Trevor (Jared Abrahansom) um atleta adolescente problemático. A primeira parte do episódio mostra cada um deles a poucos minutos de suas próprias mortes. Segundos antes das tragédias eles sentem dores muito fortes e o relógio decrescente que os levaria ao óbito chega ao final e, então, recomeça a contar. Cada um deles virou um “viajante”, ou seja, teve seu corpo tomado por uma nova consciência, vinda do futuro. Por diferentes razões eles acabam no radar de um investigador do FBI, vivido por Eric McCormack, que termina por ser, enfim, o último a “morrer”, assumindo a função de líder do grupo.

Viajando!?

A premissa da série é realmente instigante. Vista assim, em seu modo teórico, ela parece promissora e, de fato, é. Um dos grandes pontos positivos do projeto (criado por Brad Wright) é justamente o fato do viajante tomar o corpo de alguém que tem uma vida recorrente no presente, o que significa manter essa vida para preservar o segredo. Assim, cada um deles começa avaliando o meio onde estão inseridos, para depois conseguirem equilibrar suas missões com a manutenção dessas vidas que precisam ser preservadas o maior tempo possível. De certa forma é um pouco triste, já que aqueles que cercam o grupo realmente perderam seus filhos, pais, maridos e esposas. Os viajantes são estranhos bem instruídos vivendo vidas de verdade.

Wright tem uma carreira sólida no mercado de ficções científicas e as séries da franquia Stargate têm uma reputação segura e festejada. Seu trabalho dentro de um universo como aquele inclui, obviamente, manobras de dramaturgia que dialogam com os territórios galácticos. Naves, asteroides, criaturas interplanetárias... O elemento “humano” é quase metaforizado no meio disso tudo, mas ainda está ali, contado de maneira eficiente. Travelers, contudo, é uma série extremamente terráquea, dando ao seu criador a chance de explorar um novo tipo de abordagem dramática.

Funciona muito bem na primeira metade da temporada. Enquanto o grupo de viajantes busca esse ajuste social, os roteiros seguem seguros na exploração das discrepâncias entre quem eles eram no futuro e quem precisam ser no presente. É esse aspecto continuativo que impede a série de ser um procedural completo, já que as missões do grupo são novas a cada semana. Além disso, há uma expectativa interessante sobre quem pode acabar “morrendo” e se tornando também um viajante, o que abre o leque de possibilidades não só para os personagens como para os atores. Sem um elenco de nomes muito conhecidos, a série acaba se apoiando demais na figura de McCormack, que foi Will Truman (em Will & Grace) por muitos anos.

Ao passo em que a temporada avança, o valor de produção cresce (há sequências de ação muito bem feitas, inclusive um ótimo desastre de avião) e cresce também o flerte do showrunner pelos mesmos elementos que constituem uma série de ficção científica que se passa no espaço. As missões vão ficando mais ambiciosas, envolvem armas de destruição em massa, meteoros que extinguiriam a terra e pouco a pouco, o drama humano vai ficando em segundo plano, entregando a produção a um clima de perigo constante, que sabemos que nunca resultará em grandes sacrifícios, afinal de contas, essa é só a primeira temporada.

Mesmo assim, Travelers é uma produção honesta e que pode entregar boas reviravoltas em meio à própria megalomania. O gancho para a segunda temporada é realmente muito bom e se a mania de grandeza puder ser controlada, as perspectivas de futuro para o seriado – vejam só que irônico, o futuro – serão as melhores possíveis.

Nota do Crítico
Ótimo