The Morning Show - 1ª Temporada

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Crítica

The Morning Show - 1ª Temporada

Primeira produção original da Apple surpreende com um roteiro muito ágil sobre assédio, poder e entretenimento

Henrique Haddefinir
22.12.2019
08h55
Atualizada em
26.12.2019
10h21
Atualizada em 26.12.2019 às 10h21

Às vezes, a impressão que temos quando olhamos para os bastidores do entretenimento americano é de que a fantasia é produzida por um celeiro de monstros. E isso diz respeito a tudo, não é só aos programas matutinos. A indústria da TV e do cinema passou sua história produzindo fenômenos, ditando comportamentos, perpetuando culturas e sempre, em 100% dos casos, quando ela inverte as posições e resolve iluminar a escuridão das coxias, o que se vê são demônios e vampiros disputando mais almas e mais sangue. Isso, é claro, até que o heroísmo igualmente recorrente da América, também venha para consertar tudo.

The Morning Show, a primeira grande produção original da Apple TV+, é mais um desses exemplos ambíguos, que tanto revelam a podridão quanto também produzem seus próprios super-herois. E em grande parte, a forma como foi recebida pela crítica americana tem a ver com o quanto sua vaidade de ser “drama consciente” ficou em primeiro plano na construção de seu enredo. A qualidade da série ainda é notória sob muitos aspectos, mas ainda estão nas beiradas aqueles vícios de abordagem autocentrada, que faz com que essa indústria se encante de si mesma até quando trabalha para produzir crítica.

Ser uma primeira produção da Apple TV+ não é o único atrativo de The Morning Show. A série tem duas produtoras e estrelas que fazem qualquer bastidor soar matéria prima para a dramaturgia: Jennifer Aniston e Reese Whiterspoon. As duas assinaram com a plataforma ainda em 2017 e com a bagatela de US$ 2 milhões por episódio, carregaram a responsabilidade de fazer valer todo esse investimento. Com sete meses de filmagem e substituições de equipe, acabaram chegando a uma fórmula que honrasse a criação de Jay Carson, que trabalhou com política internacional para os Clinton e chegou a ser secretário de imprensa de Hillary durante sua campanha em 2008. Carson chegou ao showbizz sendo consultor de House of Cards durante todos os anos em que a série esteve no ar.

Sua ideia para The Morning Show era ambiciosa. Tudo ia bem para Alex Levy (Jennifer Aniston) e Mitch Kessler (Steve Carrel) nas manhãs da rede UBA, até que um dia acusações de assédio e má conduta sexual explodem contra Mitch. Isso deixa Alex numa posição frágil, já que a rede começa a querer fazer uma grande limpeza para salvar a audiência do programa. A questão é que tudo acontece na semana em que um vídeo de uma repórter de interior gritando verdades contra um manifestante acaba viralizando, o que a torna uma das convidadas da atração. Essa é a oportunidade perfeita para que Cory Ellison (Billy Crudup) manipule a situação a ponto de conseguir que Bradley (Reese Whiterspoon), a repórter, acabe como co-âncora de Alex, o que seria o primeiro passo para que ele consiga derrubar o presidente do canal.

Bom dia e Boa Sorte

A fórmula é muito certeira... Durante os primeiros episódios de The Morning Show, somos sugados por toda a expectativa criada em torno da chegada de Bradley ao posto que fora de Mitch. O roteiro é muito esperto ao dosar drama e folhetim, afim de manter a elegância da produção sem que ela perca apelo popular. Sem o verniz que a cobre, a série seria como qualquer boa novela brasileira, onde uma heroína sem papas na língua acaba assumindo um cargo inesperado de uma empresa enquanto todos duvidam dela ou a odeiam. Reese é paciente, espera por suas chances de gritar umas frases, tremer seus olhos, evitando comparações com Jennifer.

Vivendo uma âncora simpática, queridinha e secretamente maléfica, Jennifer arrasta para o poço do esquecimento qualquer sinal da Rachel de Friends, agarrando seus monólogos intempestivos com paixão e força. É dela a posição mais sedutora entre os personagens. Alex não quer perder seu programa, não quer perder sua reputação e no meio do caminho vai deixando algumas carniças impensadas. Ao mesmo tempo, os roteiros também não se esquecem que ela é humana e lhe dão camadas que protegem a atriz de chapar sua atuação. Com isso, Alex soa terrível em alguns momentos e completamente adorável em outros.

Talvez o grande porém da série seja justamente o esforço de fazer com que a história produza sequências premiáveis para as duas atrizes, que vivem uma situação curiosa, sendo totalmente controladoras do processo criativo enquanto representam o espelho exato dessa condição. Se a série fosse escrita por David Chase (Sopranos) provavelmente os bastidores do programa seriam um inferno sem chance de redenção, mas Jay Carson e seu time estão mais para Aaron Sorkin (The Newsroom), que sempre precisou de heróis relutantes e peculiares. Por isso, em muitos momentos o enredo deixa escapar um pouco de sua credibilidade no esforço de centralizar tudo nas próprias estrelas.

E não se trata de um enredo fácil. O criador Jay Carson foi consultor de House of Cards por anos e provavelmente viu de perto a conduta de Kevin Spacey, que acabou demitido da série depois de várias denúncias. Não por acaso, The Morning Show tem seu próprio Spacey na figura de Mitch, que reproduz todos aqueles argumentos vistos exaustivamente na época em que o produtor Harvey Weinsten foi desmascarado por atrizes assediadas nos bastidores de seus filmes. Steve Carrel compõe um Mitch Kessler simpático, bem-humorado, que defende não ter obrigado ninguém a nada de modo ardente, enquanto o backstage do programa lida com as complexidades da “Cultura do Silêncio”.

A crescente de acontecimentos é extremamente sedutora, o nível de intrigas e traições é espantoso e a qualidade dos diálogos melhora consideravelmente após o quinto episódio. Plenamente no controle da narrativa, a série prepara uma finale chocante, explosiva, cheia da mais pura catarse, daquelas que nos faz realmente pular no sofá e lamuriar por horas todo o tempo necessário até que uma segunda temporada chegue ao ar. Mas, é impossível não perceber as discrepâncias estampadas nas posições de Jennifer e Reese como paladinas da justiça, enquanto a roda não gira exatamente por causa delas. É assim na ficção e é assim na realidade.

Pode ser que ao decidir criar um grande espetáculo final, a série tenha se vulnerabilizado perante a crítica especializada, sempre afoita para desmerecer o legado dos folhetins. Mas, assim como na bancada estamos diante de Alex (o clássico) e diante de Bradley (o espontâneo), The Morning Show está na busca pela fusão que prenda e divirta o espectador. Lá ou aqui, nós não mudaríamos de canal.