The Last Kingdom

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

Séries e TV

Crítica

The Last Kingdom - 3ª Temporada

Mais madura e focada em objetivos relevantes para a trama, terceira temporada de The Last Kingdom apresenta atuações brilhantes que conduzem o enredo de maneira invejável

Matheus Bianezzi
28.11.2018
09h48
Atualizada em
28.11.2018
10h41
Atualizada em 28.11.2018 às 10h41

Se tem uma coisa que o fã de The Last Kingdom aprendeu com os anos anteriores é que Uhtred terá uma nova paixão; será manipulado pelo Rei Alfredo; e batalhará contra os nórdicos. A terceira temporada da série veio para mostrar que nada é tão simples assim, entregando uma trama cheia de surpresas e quebras de expectativa.

Com um enredo bem mais linear que as temporadas anteriores, os roteiristas acertaram em cheio ao não tratar a série apenas como uma adaptação das Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell. Durante as temporadas anteriores, uma coisa que podia incomodar bastante era a entrada e saída repentina de diversos personagens, impondo suas próprias narrativas e tornando o enredo uma colcha de retalhos das minitramas oriundas dos livros. Mesmo com arcos bem definidos, cada núcleo parecia estar sendo resumido ao máximo para caber nas cerca de dez horas apresentadas. Essa sensação diminui muito na terceira temporada. Embora ainda seja facilmente identificável onde cada livro começa e termina, a passagem de um para o outro se mostrou mais fluida, não dando a impressão que existem duas temporadas dentro de uma como nos outros anos. O que não mudou foi a dinamicidade que um material tão rico como o do escritor britânico proporciona. Nenhum momento parece apenas uma preparação para algo que está por vir. A tensão é criada justamente pelos inúmeros eventos impactantes que se sucedem um após o outro. Não há tempo para se entediar diante da tela.

Na terceira temporada, muitos desses eventos são mortes - algumas de fato surpreendentes. E, diferente das que haviam acontecido até aqui, elas têm um peso realmente significativo na vida do protagonista Uhtred (Alexander Dreymon), mais dividido do que nunca entre seu lado saxão e viking. O personagem se vê imerso em um constante limbo, sentindo-se um intruso independentemente de qual cenário esteja habitando. Refém de sua própria jornada, Uhtred se torna a cada episódio um novo protagonista, mais maduro e cheio de cicatrizes que os anos tem lhe proporcionado - cicatrizes essas mais psicológicas do que físicas. É notório o arco de desenvolvimento do personagem, literalmente aprendendo com os próprios erros. Tal progressão pode ser sentida também na atuação de Dreymon. As cenas com alta carga dramática não são mais um problema e o ator se entrega totalmente ao papel. Ele é convincente em todas as facetas do complexo Uhtred e, sobretudo nessa temporada, isso se tornou essencialmente necessário, pois o personagem muda de humor a todo momento devido ao turbilhão de eventos impactantes e de alta relevância em seu caminho.

Embora o universo de The Last Kingdom esteja  envolto pelas diversas viagens e aventuras dos personagens, o verdadeiro fio condutor é a dualidade entre Uhtred e Alfredo (David Dawson). Ao mesmo tempo que ambos são diferentes em sua raiz, são extremamente semelhantes quando se preocupam mais com aparência e reputação do que com suas próprias vulnerabilidades - sentimento que fazem questão de esconder a fim de não demonstrar fraqueza. Por motivos opostos - uma doença terminal para Alfredo e mortes de pessoas queridas para Uhtred -, os dois são obrigados a cuidar dos próprios demônios que os atormentam, resultando na melhor cena da temporada - e quiçá da série - onde ambos deixam as máscaras sociais de lado e decidem conversar honestamente sobre seus sentimentos. É nesse momento que o espectador compreende com mais clareza a magnitude do sonho de Alfredo em tornar os diversos reinos ingleses em uma só unidade. Esse entendimento tão puro só é compreendido graças a atuação digna de David Dawson, que deu vida ao espectro frágil  do que costumava ser o Grande Rei Alfredo, doente e em uma constante luta com seu corpo debilitado, que não acompanha mais sua mente sagaz.

Como previsto, certos personagens secundários ganharam bastante espaço na terceira temporada. Aethelflaed (Millie Brady) entrega tudo o que se desenhou na segunda parte da série. Ela se torna uma rainha guerreira e respeitada, diferente de seu marido que é desprezado até mesmo pelos seus conselheiros mais próximos. A confiança natural que a filha de Alfredo transmite é admirável, influenciando positivamente a moral de todos aqueles que estão a sua volta. Alguns traços de sua personalidade forte lembram bastante a personagem Sansa (Sophie Turner) de Game of Thrones - isso, claro, na última temporada, onde a Stark está em seu ápice de amadurecimento. Algumas escolhas de direção inclusive podem gerar um déjà vu para quem assistiu à série da HBO. Em dois embates nessa temporada, a chegada de Aethelflaed e seu exército é esteticamente muito parecida com a chegada de Sansa durante a Batalha dos Bastardos.

Não é apenas a filha mais velha do rei que tem um papel decisivo na temporada. Uma grata surpresa foi o desenvolvimento do Príncipe Eduardo (Timothy Innes) e a dicotomia entre ser pai e ser rei impelida a Alfredo. Ao mesmo tempo que está orgulhoso dos passos que seu filho está traçando, preocupa-se com o futuro do reino - já que o príncipe está longe de estar preparado para assumir o trono e ainda comete diversas burradas. Os momentos que Eduardo precisa se posicionar sob os olhos de seu pai são carregados de tensão e definitivos para a trama. Afinal, são em tais momentos que a série constrói os pilares para as próximas temporadas. Não é só o futuro de Wessex que está nas mãos de Eduardo, mas também o da série. Passar a tocha de um personagem fundamental para um recém chegado é algo difícil em qualquer produção, mas The Last Kingdom vem fazendo isso de maneira natural e condizente com a história. Logo, se essa transição for acertada, o caminho de sucesso que a série vem trilhando tende a perdurar por muitos e muitos anos.

The Last Kingdom conta com a receita perfeita. Uma história envolvente com um material de base rico; ótimas atuações; e, a partir da terceira temporada, um orçamento que condiz com a grandiosidade do que está querendo ser criado. Essa foi a primeira temporada feita inteiramente pela Netflix. Antes produzida pela BBC, é fácil reconhecer que o serviço de streaming imprimiu seu padrão de qualidade. As paredes de escudo, a violência medieval e o conflito de interesses políticos ainda estão lá em peso, mas agora com um pano de fundo mais realista e convincente. Problemas técnicos, finalmente, passam longe da série - salve uma ou outra má utilização do chroma key, como é o caso de uma cena onde o padre Beocca navega em um mar, digamos, duvidoso.

O pavimento para o futuro já foi construído. Agora, como diria Uhtred ao fim de cada recap, “o destino é tudo” - e ele promete ser épico.

Nota do Crítico
Ótimo